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O Novo Grande Jogo na Eurásia: Pepe Escobar disseca o pacto Meca e o avanço estratégico do eixo Rússia-China-Irã

Em nova edição do Pepe Café, o analista geopolítico destrincha a recente aproximação entre Turquia, Paquistão e Arábia Saudita.

247 — Em uma análise minuciosa sobre as profundas transformações no tabuleiro geopolítico global, o jornalista e correspondente internacional Pepe Escobar dedicou a mais recente edição de seu programa semanal, o Pepe Café, a examinar o que chamou de uma nova etapa do “Novo Grande Jogo”.

Tendo como pano de fundo a disputa estrutural entre a hegemonia ocidental liderada pelos Estados Unidos e os três principais “estados-civilização” da Eurásia — Rússia, China e Irã —, Escobar desmistificou o recente e rumoroso pacto trilateral costurado em Meca entre Turquia, Paquistão e Arábia Saudita, situando seus reais limites e implicações estratégicas.

O Pacto de Meca: “Teatro de Dissuazão” e Equilíbrios Regionais

O encontro e a aliança delineada entre Ancara, Islamabad e Riad geraram intensas especulações internacionais. O acordo reúne uma potência nuclear muçulmana (o Paquistão), o segundo maior contingente militar da OTAN (a Turquia sob Recep Tayyip Erdogan) e o centro financeiro e energético do Golfo (a Arábia Saudita de Mohammed bin Salman).

Para Escobar, no entanto, é fundamental não superdimensionar a iniciativa nem confundi-la com uma frente anti-Irã:

“O ministro das Relações Exteriores turco, Hakan Fidan, confirmou que Ancara informou previamente o Irã sobre o pacto em Meca. O Paquistão, por sua vez, atua como mediador central nas conversações indiretas entre Teerã e Washington. Nenhum dos dois tem o menor interesse em alienar os iranianos, que se consolidam a cada dia como o poder proeminente do Oeste da Ásia”, pontuou o analista.

Segundo o jornalista, o acordo se enquadra predominantemente como um “teatro de dissuasão”:

  1. O lado saudita: Busca reforçar sua própria segurança externa e dissuadir eventuais ameaças regionais, recorrendo a conversas de bastidores sobre a extensão do guarda-chuva de segurança paquistanês, ao mesmo tempo em que tenta preservar canais diplomáticos com os vizinhos.
  2. Os limites paquistaneses: O Paquistão, cuja prioridade econômica vital repousa no Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) e na integração com a Eurásia, já teria deixado claro que não participará de eventuais aventuras militares sauditas, a exemplo do impasse histórico no Iêmen.
  3. O duplo jogo turco: Enquanto Erdogan busca ampliar sua retórica de influência pantúrquica (o conceito do “Grande Turan” e a Organização dos Estados Túrquicos na Ásia Central), os estamentos militar e empresarial em Ancara continuam atrelados aos interesses da OTAN, limitando a adesão orgânica da Turquia ao núcleo de confiança russo e chinês.

A Reorganização em Teerã e a Ineficácia das Sanções

Outro ponto nevrálgico destacado por Pepe Escobar no Pepe Café foi a reorganização do núcleo de comando e segurança em Teerã, simbolizada pela recente ascensão de Mohsen Rezaee como secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional e emissário especial da liderança iraniana.

Veterano da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) com amplo prestígio militar, Rezaee assumiu com uma diretriz clara: o Irã não fará concessões unilaterais caso Washington não retome os compromissos prévios de desanuviamento e cesse o bloqueio ilegal de ativos econômicos.

Escobar ressaltou que a posição geográfica e os vastos recursos naturais iranianos — hidrocarbonetos, minerais críticos e a rota estratégica do Estreito de Ormuz — conferem ao país uma blindagem que neutralizou a eficácia do mecanismo de sanções do Tesouro norte-americano.

A Entrada no Banco dos BRICS e o Desafio da Desdolarização

No campo geoeconômico, Pepe Escobar celebrou a confirmação da entrada formal do Irã no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff, que deve ser chancelada na próxima cúpula de líderes do bloco.

Contudo, o analista fez um alerta sobre os desafios estruturais que a instituição ainda precisa superar:

“A adesão do Irã ao Banco dos BRICS é fundamental para viabilizar investimentos internos e conectar grandes corredores de infraestrutura no Sul Global. Mas, como bem sabem a presidente Dilma Rousseff e economistas como Paulo Nogueira Batista Jr., o estatuto e os fundamentos do banco ainda carregam amarras vinculadas ao dólar. Para que o NDB atinja seu pleno potencial de soberania financeira e proteja os membros das garras do Banco Mundial e do FMI, a transição para moedas locais precisa ser acelerada.”

Síntese: O Sul Global Redesenha as Rotas do Século XXI

Ao concluir sua análise, Pepe Escobar enfatizou que, enquanto o Ocidente aposta na manutenção de sanções e conflitos periféricos, o Sul Global consolida centros alternativos de liquidez e cooperação em capitais como Xangai, Moscou e Teerã.

A aceleração do BRICS Plus, o avanço dos corredores intercontinentais e a falência do isolamento imposto às potências euroasiáticas indicam que o “Novo Grande Jogo” caminha para uma ordem multipolar onde a cooperação entre nações soberanas redefine a economia política internacional.

FOTO: Brasil247

FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/o-novo-grande-jogo-na-eurasia-pepe-escobar-disseca-o-pacto-meca-e-o-avanco-estrategico-do-eixo-russia-china-ira/