O problema do Brasil nunca foi seu povo, a beleza de sua gente, sua capacidade amorosa de acolher, sua vocação para conciliar e sua genialidade para conviver com as diferenças. O problema histórico do Brasil é uma elite que jamais se conformou com a possibilidade de perder um único milímetro de seus privilégios.
Stefan Zweig, em “Brasil, país do futuro”, enxergou na formação mestiça do povo brasileiro uma possibilidade extraordinária de civilização.
Enquanto a Europa se matava por algumas centenas de metros de terra, travando guerras sangrentas para conquistar ou defender insignificantes parcelas de território, o Barão do Rio Branco ampliava as fronteiras do Brasil negociando, conversando, argumentando e fazendo da diplomacia uma arma de construção nacional. Incorporou ao país territórios de dimensões comparáveis às de nações europeias sem precisar recorrer à guerra. Havia nisso uma inteligência política extraordinária e a manifestação de uma nova concepção de civilização: aquela que compreende que a grandeza de uma nação não se mede apenas pela força de seus exércitos, mas pela capacidade de transformar a palavra em instrumento de conquista, a negociação em estratégia de poder e a inteligência em patrimônio nacional.
O otimismo de Zweig era contagiante e alimentava o sonho de um país capaz de superar, pela convivência entre diferentes, as contradições que haviam conduzido tantos países a séculos de guerras, perseguições e massacres. As décadas seguintes alimentaram, em alguma medida, essa esperança, com a expansão da democracia e a conquista de novos direitos, até que a ditadura militar interrompeu violentamente esse processo e mutilou muitas das possibilidades que se anunciavam.
Hoje, as virtudes brasileiras voltam a ser atacadas pelo viralatismo de inspiração fascista, que enxerga na diversidade um problema, na conciliação uma fraqueza e na pluralidade uma ameaça. Para essa mentalidade autoritária, conviver com as diferenças é capitular, negociar é demonstrar covardia e impor a própria vontade pela força é a única forma concebível de virtude. Não por acaso, a estupidez constitui sua diretriz: incapaz de compreender a complexidade humana, ela sonha com uma sociedade purificada de suas diferenças, como se a humanidade pudesse ser corrigida à força e a diversidade fosse uma doença a extirpar. O problema é que, quando o sonho da pureza se transforma em projeto político, a civilização deixa de ser uma promessa e volta a ser uma vítima.
A expressão “homem cordial” foi popularizada por Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, a partir de uma expressão anterior de Ribeiro Couto. Mas, na minha opinião, a cordialidade brasileira não é um mito: o brasileiro recebe bem o estrangeiro, acolhe quem chega e convive com seus vizinhos com espontaneidade e solidariedade. O mito está em estender essa cordialidade às elites brasileiras, historicamente marcadas pela concentração de riqueza, pela exploração dos pobres e pela violência social. Cordial é o povo que acolhe; brutal é a plutocracia que transforma a miséria alheia em privilégio próprio.
A conciliação é uma das virtudes da política brasileira. Nossa história é cheia de adversários que, depois de se enfrentarem, compreenderam que governar exige diálogo, composição e convivência com as diferenças. Isso não é incoerência: é parte da aprendizagem democrática.
Tancredo Neves e José Sarney, adversários de campos políticos distintos, uniram-se para viabilizar a transição democrática em 1985; Lula e Geraldo Alckmin, adversários na eleição presidencial de 2006, formaram uma chapa em 2022; e, em São Paulo, Fernando Haddad e Paulo Maluf, de campos políticos opostos, aproximaram-se eleitoralmente em 2012. São exemplos diferentes, com custos e motivações próprios, mas mostram que a política brasileira historicamente comporta alianças entre antigos adversários.
A política brasileira tem uma virtude que a estupidez confunde com fraqueza: a capacidade de conciliar adversários. Isso não significa que toda aliança seja virtuosa, mas demonstra que a política não precisa transformar divergências em inimizades eternas. A conciliação, quando preserva princípios e objetivos públicos, é uma conquista civilizatória.
O problema é que, com a ascensão da extrema direita neofascista, a conciliação passou a ser tratada como covardia; o diálogo, como traição; e a diversidade, como ameaça. É uma mentalidade purista, que sonha com uma sociedade passada a ferro, desinfetada de diferenças e higienizada de tudo o que não se pareça consigo mesma. Todo purismo político merece desconfiança, pois por trás da fantasia da pureza se esconder a intolerância à pluralidade.
A vida não é feita de dois tons apenas, muito menos a política. Há gradações, contradições, ambiguidades e pessoas capazes de discordar hoje e construir algo juntas amanhã. O fascista não suporta essa complexidade: quer uma única cor, uma única voz, uma única maneira de existir. Tudo o que escapa ao padrão precisa ser expulso, silenciado ou destruído. A democracia, ao contrário, exige a convivência entre diferentes. Conciliar não é abdicar de princípios; é compreender que ninguém tem o monopólio da verdade nem o direito de impor a todos a sua própria imagem.
O problema do Brasil nunca foi seu povo, a beleza de sua gente, sua capacidade amorosa de acolher, sua vocação para conciliar e sua genialidade para conviver com as diferenças.
O problema histórico do Brasil é uma elite que jamais se conformou com a possibilidade de perder um único milímetro de seus privilégios e que, sempre que se sente ameaçada, recorre ao golpismo, à violência, ao autoritarismo e à velha nostalgia escravocrata. Uma elite que tolera a democracia enquanto ela não ameaça seus interesses, que aceita a liberdade desde que ela não alcance os de baixo e que sonha, no fundo, com uma sociedade higienizada de pobres, negros, divergentes e indesejáveis. Há nesse projeto uma afinidade inquietante com as fantasias de pureza que alimentaram o nazismo e o fascismo: o delírio perverso de que a sociedade pode ser aperfeiçoada pela exclusão, purificada pela opressão e pacificada pela força bruta.
A verdadeira tragédia brasileira é um povo capaz de produzir soluções, beleza, afeto, criatividade e convivência, submetido a uma plutocracia que confunde privilégio com mérito, mando com autoridade e obediência com paz.
O Brasil não precisa de um povo diferente; precisa superar as estruturas de poder que, há séculos, impedem que a grandeza de sua gente se converta plenamente em justiça social, dignidade e liberdade. Porque o verdadeiro atraso de uma nação não está na mistura de seu povo, mas na mentalidade de quem ainda gostaria de governá-lo como se a escravidão nunca tivesse acabado.
Eis o desafio que se apresenta diante de nós, mais uma vez: a ânsia insaciável de poder de uma plutocracia podre, carcomida pelo ódio, aporofóbica até a medula, entreguista por conveniência e patriota apenas quando a pátria está em liquidação. Uma elite que tem horror a pobre comendo bem, estudando, viajando de avião, ocupando universidade, comprando a própria casa e descobrindo que dignidade não é privilégio hereditário. Gente que tolera a miséria como paisagem, mas considera uma ameaça à ordem natural das coisas qualquer tentativa de transformar o miserável em cidadão. Para essa gente, o pobre pode nascer, trabalhar, pagar impostos e morrer; o que não pode é prosperar sem pedir licença aos proprietários históricos da riqueza nacional. É uma classe de canibais sociais que devora o próprio povo e depois arrota civilização, uma confraria de predadores que chama de responsabilidade fiscal a crueldade contra os despossuídos e de liberdade econômica o direito de continuar mandando na vida alheia.
Quando o povo se curva, chamam isso de paz social; quando se levanta, chamam de desordem. Quando passa fome, recomendam resignação; quando reivindica direitos, convocam a polícia, os tribunais, os quartéis e a artilharia moral dos seus papagaios de luxo. A democracia lhes serve enquanto funciona como porteira de seus interesses; quando ameaça abrir as portas da cidadania, logo aparece algum nostálgico do coturno, algum pregador da intolerância, algum paladino da estupidez disposto a explicar por que a força deve substituir o argumento e a ignorância merece governar os inteligentes. Essa é a verdadeira imundície política brasileira: não a diversidade do povo, mas a pretensão obscena de uma minoria de continuar tratando o país como propriedade particular, a República como herança de família e os direitos sociais como uma concessão indevida aos que nasceram sem sobrenome importante. O Brasil não sofre de excesso de povo, de mistura ou de democracia. Sofre de séculos de concentração de riqueza, de privilégios protegidos pela violência e de uma elite que, diante da possibilidade de repartir uma fração de seus ganhos, prefere incendiar a casa inteira a admitir que ela nunca lhe pertenceu sozinha.
É justamente por isso que a luta continua: porque nenhum país será verdadeiramente livre enquanto seus donos imaginários confundirem a prosperidade do povo com a própria ruína. O que essa gente teme não é a desordem. É a ordem democrática em que o pobre deixa de ser servo, o trabalhador deixa de ser descartável e o cidadão descobre que não nasceu para sustentar a arrogância de quem se julga proprietário do futuro.
O grande pesadelo dessa elite não é a revolução. É algo muito mais simples, mais civilizado e infinitamente mais perigoso para seus privilégios: um povo que aprenda a não ter medo dela.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-pesadelo-da-elite-canibal/