Quando analisamos o chamado “PIB agrícola” — isto é, o valor adicionado da agropecuária, incluindo agricultura, florestas e pesca — emergem duas fotografias muito distintas da economia mundial. Uma mede o tamanho absoluto do setor em dólares correntes; a outra observa sua participação relativa no PIB de cada país. Cada uma conta uma história diferente sobre desenvolvimento, estrutura produtiva e especialização.

Em valores absolutos, os líderes são, previsivelmente, as grandes economias do planeta. A China ocupa o primeiro lugar com mais de US$ 1,1 trilhão em valor adicionado agrícola. Em seguida vêm Índia (cerca de US$ 487 bilhões) e Estados Unidos (aproximadamente US$ 196 bilhões). Depois aparecem Indonésia, Nigéria e Brasil. O que esse ranking revela não é apenas vocação agrícola, mas escala econômica, população numerosa, extensão territorial e cadeias produtivas integradas que vão muito além da porteira. Em muitos desses países, o “agro” já é agroindústria sofisticada, com tecnologia, logística e processamento incorporados.

O Brasil, por exemplo, figura entre os seis maiores valores agrícolas do mundo em dólares correntes. Isso reflete não apenas a produção primária, mas também sua inserção global como grande exportador de commodities agropecuárias. Já a presença de países como Japão, França, Espanha e Itália no top 20 mostra que economias desenvolvidas também mantêm setores agrícolas relevantes em termos absolutos — ainda que sua importância relativa seja pequena diante do tamanho total dessas economias.
Quando mudamos a lente para a participação da agricultura no PIB, o mapa se transforma. Os primeiros lugares passam a ser ocupados por países como Comores, Etiópia, Chade, Afeganistão, Libéria e Níger, onde a agropecuária representa algo em torno de 30% a 35% do PIB. Aqui, o indicador revela menos escala e mais estrutura produtiva. Quanto maior a participação da agricultura no PIB, maior tende a ser a dependência da economia em relação ao setor primário e menor o grau de diversificação industrial e de serviços modernos.
Essa diferença ilustra um ponto clássico da economia do desenvolvimento: países ricos tendem a ter agricultura altamente produtiva, mas com baixa participação no PIB, porque indústria e serviços são muito maiores. Já em países de baixa renda, a agricultura responde por parcela expressiva do produto porque o restante da estrutura econômica ainda é pouco desenvolvido. Em outras palavras, um setor agrícola grande em dólares não significa necessariamente dependência agrícola; já uma participação muito elevada no PIB costuma indicar baixa complexidade produtiva.
Entre os países ricos, mesmo aqueles com maior peso relativo da agricultura — como Uruguai, Islândia ou alguns pequenos territórios — apresentam percentuais modestos, geralmente abaixo de 6% do PIB. No G7, a participação agrícola costuma girar em torno de 1% a 2%, apesar de alguns desses países figurarem entre os maiores produtores mundiais em termos absolutos.
O contraste entre os dois rankings — valor absoluto e participação relativa — ajuda a entender as trajetórias de desenvolvimento. O desafio para países com alta dependência agrícola não é abandonar o setor, mas aumentar sua produtividade e, sobretudo, expandir a complexidade da economia em direção à indústria e aos serviços intensivos em tecnologia. Já para as grandes economias agrícolas em dólares, o desafio está na sustentabilidade, na agregação de valor e na inovação.
Assim, o “PIB agrícola” é um indicador que, dependendo do ângulo, revela poder econômico global ou estrutura produtiva interna. Em dólares correntes, ele mede escala e inserção internacional. Como porcentagem do PIB, ele mede estágio de desenvolvimento. São duas dimensões complementares de uma mesma realidade: a agricultura continua central no mundo — mas seu significado econômico muda profundamente conforme o contexto.
A agropecuária (no conceito do World Bank: agricultura + florestas + pesca) tem duas caras quando você compara países:
Em dólares correntes (US$), lideram economias enormes (população, território e cadeia agroindustrial ampla). Como % do PIB, lideram países onde a agro ainda é “a espinha dorsal” da economia (baixa renda, grande informalidade e estrutura produtiva menos diversificada).
1) Ranking mundial — “PIB agrícola” em dólares correntes (US$)
Abaixo, os maiores valores de “agriculture, forestry, and fishing value added (current US$)” segundo ranking compilado a partir do indicador do World Bank (anos variam por país, mas o ranking é dominado por 2020).
Top 20 (US$ correntes):
China — US$ 1,126,740 bi (2020) Índia — US$ 487,238 bi (2020) EUA — US$ 196,514 bi (2019) Indonésia — US$ 145,046 bi (2020) Nigéria — US$ 104,370 bi (2020) Brasil — US$ 85,320 bi (2020) Paquistão — US$ 60,744 bi (2020) Rússia — US$ 54,892 bi (2020) Japão — US$ 51,851 bi (2019) Turquia — US$ 48,097 bi (2020) Tailândia — US$ 43,298 bi (2020) Egito — US$ 42,251 bi (2020) França — US$ 42,002 bi (2020) Bangladesh — US$ 41,730 bi (2020) México — US$ 40,848 bi (2020) Espanha — US$ 40,341 bi (2020) Vietnã — US$ 40,276 bi (2020) Etiópia — US$ 38,162 bi (2020) Itália — US$ 37,530 bi (2020) Filipinas — US$ 36,817 bi (2020)
2) Ranking mundial — agro como % do PIB (participação no PIB)
Aqui aparece a “outra liga”: países em que a agro domina o valor adicionado.
Top 10 global (2023) — maior % do PIB
Comores — 35,94% Etiópia — 35,79% Chade — 35,04% Afeganistão — 34,74% Libéria — 34,56% Guiné-Bissau — 34,02% Níger — 32,51% Mali — 32,49% Malawi — 30,38% Sudão — 30,28%
Entre países ricos (classificação World Bank, 2023) — maior % do PIB
Ilhas Faroe — 18,2% Uruguai — 6,09% Islândia — 4,28% Maurício — 4,01% Letônia — 3,91% Romênia — 3,88% Chile — 3,49% Croácia — 3,36% Grécia — 3,34% Palau — 2,99%
Leitura econômica (bem direta)
Em US$ correntes, “PIB agrícola grande” é quase sinônimo de escala: China e Índia lideram porque têm massa produtiva, mercado interno, cadeias longas e um agro que já virou agroindústria (máquinas, insumos, logística, processamento). Em % do PIB, o ranking mede estrutura produtiva: quando a agro dá 30%+ do PIB, normalmente o resto da economia (indústria e serviços modernos) é pequeno — e a agro carrega emprego, renda e exportação. País rico com agro “alto” em % do PIB é exceção e geralmente envolve casos específicos (ilhas, economias pequenas, especialização) — por isso o “top ricos” parece “estranho” comparado ao G7. O ponto central: não existe contradição entre “agro enorme em dólares” e “agro pequeno no PIB”. Uma economia pode ter um agro gigantesco e, ao mesmo tempo, ter indústria/serviços tão grandes que a participação relativa do agro fique baixa.


FONTE: https://www.paulogala.com.br/o-pib-agricola-no-mundo-gigantes-em-dolares-campeoes-em-participacao-no-pib/