Quando um veículo se comporta como ator político permanente, selecionando adversários e protegendo aliados, passa a agir como partido.
Quem acompanha a história recente da política brasileira já viu esse filme antes. Em momentos decisivos, parte da grande mídia abandona qualquer pretensão de neutralidade e assume claramente um lado no debate público. É exatamente isso que volta a acontecer agora. O chamado PIG – Partido da Imprensa Golpista, expressão consagrada por Paulo Henrique Amorim para definir setores da mídia que atuam como atores políticos, parece ter voltado com força. E a Folha de S. Paulo novamente ocupa papel central nesse enredo.
Não é a primeira vez. Durante a ditadura militar, a Folha teve participação ativa no apoio ao regime. Documentos e pesquisas históricas mostram que veículos do grupo não apenas defenderam o golpe de 1964 como também forneceram apoio material à repressão. Suas Veraneios foram utilizados por agentes do regime em operações de perseguição política que terminaram em sequestros, torturas e mortes de brasileiros e brasileiras. A história está registrada e documentada – embora frequentemente seja tratada com silêncio ou constrangimento.
Décadas depois, a postura parece se repetir em novas circunstâncias. No debate político atual, a Folha se apresenta como árbitra da moral pública enquanto escolhe cuidadosamente os temas que decide investigar e aqueles que prefere ignorar.
O contraste fica evidente quando se observa o silêncio quase absoluto em torno da trajetória econômica de Flávio Bolsonaro. Ao longo dos últimos anos, surgiram inúmeras perguntas sobre a compra de imóveis com pagamentos em dinheiro vivo, sobre movimentações financeiras suspeitas e sobre a possível utilização de uma loja de chocolates como instrumento para lavar recursos provenientes do esquema das “rachadinhas” identificado no antigo gabinete do então deputado estadual.
Essas questões, que mobilizaram investigações e reportagens em diversos momentos, simplesmente desapareceram do radar editorial quando se trata de cobrar explicações consistentes. O rigor investigativo parece seletivo.
Ao mesmo tempo, constrói-se um ambiente de suspeita generalizada em torno de episódios que, curiosamente, têm origem justamente no período em que Jair Bolsonaro ocupava a Presidência da República.
Tanto o esquema de fraudes envolvendo benefícios do INSS quanto o escândalo financeiro ligado ao Banco Master foram geridos e colocados para caminhar durante o governo Bolsonaro. Foi naquele período que se consolidaram as brechas regulatórias, as relações políticas e os ambientes de permissividade que permitiram que tais esquemas prosperassem.
Mais revelador ainda é o fato de que esses casos só começaram a ser desbaratados a partir da atuação da Polícia Federal já sob o comando do governo do presidente Lula. Foi a investigação conduzida pelas instituições do Estado brasileiro sob o atual governo que levou à prisão de envolvidos, ao rastreamento de recursos e à responsabilização de agentes que operavam essas engrenagens.
Mas esse dado essencial raramente ocupa o centro das narrativas construídas por certos setores da imprensa.
Ao escolher o que destacar e o que silenciar, a Folha de S. Paulo volta a exercer um papel que ultrapassa o jornalismo e entra claramente no terreno da disputa política.
Quando um veículo se comporta como ator político permanente, selecionando adversários e protegendo aliados, deixa de atuar apenas como imprensa. Passa a agir como partido.
E se a Folha decide agir como um partido político, penso que, como partido político, ela deva ser tratada.
Foto: Divulgação
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-pig-voltou