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O que está em jogo em 2026 — e por que a definição no primeiro turno é estratégica

O Brasil já viveu instabilidade demais na última década. A clareza política tornou-se ativo econômico e institucional.

O Carnaval terminou. A política voltou ao centro do palco.

A eleição presidencial de 2026 não será uma disputa rotineira de alternância administrativa. Não está em jogo apenas a escolha de um presidente, mas a definição de um modelo de país em um momento de transição estrutural da ordem global e de reorganização interna da economia brasileira.

Há, além disso, uma dimensão estratégica pouco discutida: a importância de buscar a definição já no primeiro turno.

Não é uma eleição comum

O Brasil chega a 2026 depois de atravessar anos de instabilidade política, ruptura institucional e profunda fragmentação social. Nos últimos dois anos, a economia apresentou sinais relevantes de recuperação: o PIB voltou a crescer acima de 2%, o desemprego recuou para patamares próximos de 5,2% segundo o IBGE, a inflação foi reconduzida para dentro da meta e o país voltou a registrar superávits comerciais robustos, superiores a US$ 80 bilhões em 2025.

Esses números não são desprezíveis. Eles indicam resultados macroeconômicos sólidos, recomposição da credibilidade externa e retomada gradual do investimento.

Mas a eleição não será decidida apenas por indicadores agregados. Ela será pautada por três tensões centrais que organizam o debate público: a disputa entre economia produtiva e rentismo financeiro, a percepção social ainda ambígua sobre a melhora concreta da vida cotidiana e a persistência de um campo político radical que não abandonou a retórica de deslegitimação das instituições.

Não se trata de dramatização. Trata-se de leitura estrutural.

O modelo econômico em disputa

O que está em disputa não é simplesmente crescimento maior ou menor. É o tipo de crescimento e a forma de coordenação do desenvolvimento.

De um lado, um projeto que aposta na reconstrução produtiva por meio da política industrial, na transição energética, na revalorização do investimento público como indutor de crescimento e na inserção ativa do Brasil no BRICS ampliado e nas cadeias globais ligadas à economia verde e digital. Esse projeto parte da premissa de que desigualdade extrema é injusta, corrói o mercado interno, fragiliza a coesão social e limita o dinamismo econômico. O Estado faz a diferença e tem que ser forte para promover justiça social e concretizar investimentos produtivos — projeto progressista, associado ao nome do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

De outro, um modelo centrado em austeridade permanente, compressão do gasto público, redução do papel coordenador do Estado e prevalência quase absoluta da política monetária restritiva como instrumento de estabilização. Trata-se de uma visão que, historicamente, conviveu com desindustrialização, baixo crescimento médio e dependência crescente de exportações primárias — projeto de direita, de caráter neoliberal, que se identifica com o candidato Flávio Bolsonaro. Flávio nada esconde. Busca apoio em economistas como Paulo Guedes e Sachsida explicitando o modelo da condução da economia a ser perseguido.

Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia do governo Bolsonaro é identificado com a agenda liberal de Paulo Guedes:

• Defesa de privatizações (como a da Eletrobras).

• Redução do papel do Estado.

• Críticas à política de preços administrados.

• Forte alinhamento ao discurso econômico bolsonarista.

A eleição decidirá qual dessas estratégias se consolidará na próxima década.

Indicadores positivos, percepção ainda frágil

Há um ponto politicamente sensível que não pode ser ignorado. Embora os indicadores macroeconômicos tenham melhorado, a sensação difusa de parte da população é de que a vida segue apertada.

O custo dos alimentos, o endividamento elevado das famílias, a precarização do trabalho informal, a dificuldade de acesso a crédito mais barato e a lenta recomposição da renda real explicam essa ambivalência. Programas sociais foram retomados, a inflação cedeu, o emprego cresceu, mas o cotidiano ainda é marcado por insegurança econômica. A população não tem a percepção do que cabe aos governos municipais, estaduais e/ou federal. Então, quando a educação, saúde ou segurança vão bem ou mal é difícil atribuir responsabilidades.

Eleições são decididas tanto por dados quanto por expectativas. Se o eleitor percebe estabilidade, mas não enxerga horizonte de ascensão, sua decisão tende a ser volátil.

Reconhecer essa tensão não enfraquece o debate — fortalece-o. Significa compreender que a disputa de 2026 será, também, uma disputa sobre narrativa de futuro: quem oferece previsibilidade institucional, continuidade de políticas públicas e estratégia clara de desenvolvimento terá vantagem.

Por que a definição no primeiro turno é estratégica

Em contextos de polarização elevada, o segundo turno de eleições frequentemente amplia tensões, radicaliza discursos e alimenta teorias de contestação. A experiência recente demonstrou como margens estreitas podem ser instrumentalizadas por setores que flertam com a deslegitimação eleitoral.

Uma vitória clara já no primeiro turno produziria efeitos relevantes: reduziria o espaço para narrativas conspiratórias, fortaleceria a governabilidade parlamentar, sinalizaria estabilidade para investidores e consolidaria uma maioria política inequívoca diante de um ambiente ainda sensível a rupturas.

Não se trata de conveniência eleitoral. Trata-se de estabilidade democrática.

A consolidação antecipada de maioria reduz a volatilidade institucional e envia mensagem clara de maturidade política. Em um país que já experimentou ameaças à ordem constitucional recente, isso não é detalhe.

Há ainda um elemento adicional que não pode ser ignorado: a reativação de mecanismos de desgaste político por vias indiretas. A recente quebra de sigilo envolvendo o filho do presidente, ainda que formalmente dirigida a ele, possui evidente potencial de produzir impacto político sobre o próprio chefe do Executivo. Em ambientes polarizados, medidas dessa natureza — mesmo quando revestidas de legalidade formal — passam a operar também como instrumentos de disputa simbólica. A história política brasileira recente demonstrou como procedimentos legais podem ser convertidos em ferramentas de construção narrativa quando acompanhados de vazamentos seletivos e amplificação midiática. Atingir o entorno familiar é, historicamente, uma forma indireta de fragilizar lideranças políticas. Ignorar essa dimensão estratégica seria subestimar a experiência acumulada do embate político nacional na última década.

Esse tipo de movimentação não ocorre isoladamente. Ele se insere em uma lógica de desgaste incremental, que opera por sucessivos ruídos, insinuações e contaminação do debate público. A disputa de 2026 não será apenas eleitoral; será também comunicacional e institucional.

Não se pode minimizar o adversário. Com apoio ostensivo na mídia tradicional, o filho 01 de Bolsonaro é alçado à condição de “bom moço” — pessoa “ligada às milícias do Rio de Janeiro, envolvido com familiares do chefe do escritório do crime, com a morte de Marielle Franco, com as milícias de Rio das Pedras, com a prática de rachadinha, com processos nebulosos de enriquecimento” alerta o jornalista Luis Nassif no Jornal GGN ( mídia independente).

A chamada mídia tradicional não opera em um vazio social. Seus proprietários, conselhos editoriais e anunciantes pertencem majoritariamente aos estratos superiores da estrutura econômica, o que tende a alinhar sua narrativa aos interesses e à visão de mundo das elites econômicas e financeiras. A eles não interessa um candidato progressista, como Lula.

Geopolítica importa — mas a eleição será decidida dentro de casa

O Brasil vive um momento singular de reposicionamento internacional. A atuação ativa no BRICS ampliado, o protagonismo na agenda climática, o diálogo com múltiplos polos de poder em continentes diversos e a defesa de maior autonomia estratégica recolocaram o país no mapa das negociações globais.

Há, porém, uma percepção simplificadora que precisa ser enfrentada: a ideia de que viagens internacionais representam apenas gasto ou simbolismo diplomático. Essa leitura ignora que política externa é instrumento de desenvolvimento — abre mercados, atrai investimentos, viabiliza cooperação tecnológica e amplia capacidade de negociação comercial.

Ainda assim, politicamente, a eleição será decidida no terreno doméstico. O eleitor médio vota a partir da sua experiência concreta: renda disponível, emprego, crédito, serviços públicos, segurança, mobilidade social.

O desafio estratégico está em traduzir protagonismo internacional em benefício interno perceptível. Cada acordo comercial precisa ser comunicado como geração de emprego. Cada investimento estrangeiro deve ser associado à dinamização regional. Cada cooperação tecnológica precisa ser apresentada como oportunidade para jovens e pequenas empresas.

Política externa só se legitima plenamente quando se converte em melhoria tangível da vida cotidiana.

O desafio geracional

Há ainda um fator decisivo: a juventude.

O eleitor de 20 ou 25 anos em 2026 não tem memória direta do ciclo de expansão dos anos 2000. Sua formação política ocorreu em ambiente de crise, redes sociais radicalizadas, precarização do trabalho e instabilidade permanente.

Para essa geração, estabilidade institucional não basta como argumento. É preciso oferecer horizonte. Falar de economia digital, inovação, empreendedorismo sustentável, transição energética, educação tecnológica, crédito para pequenos negócios e inserção produtiva no novo ciclo industrial verde. A juventude quer perspectiva de mobilidade, não apenas proteção social. Quer futuro.

Se o debate eleitoral se limitar à defesa retrospectiva ou à reação a ataques, perderá conexão com esse público.

A estratégia precisa combinar três dimensões simultâneas: defesa firme das instituições, centralidade da agenda econômica interna e projeção clara de futuro para os jovens.

Esse tripé pode ampliar a base eleitoral já no primeiro turno e reduzir o espaço para radicalização posterior.

Uma escolha de direção histórica

2026 não será apenas sobre nomes. Será sobre direção.

Entre reconstrução produtiva e austeridade permanente. Entre estabilidade democrática e tensão institucional contínua. Entre protagonismo internacional com reflexos internos e isolamento retórico sem resultados concretos.

Definir essa escolha já no primeiro turno não é mero cálculo político. É estratégia de estabilidade. É redução do espaço para o jogo sujo. É sinalização inequívoca de maioria. É consolidação democrática.

O Brasil já viveu instabilidade demais na última década. A clareza política tornou-se ativo econômico e institucional.

O Carnaval acabou. A campanha começou. E o que está em disputa não é apenas um mandato — é o horizonte do país na próxima década.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-que-esta-em-jogo-em-2026-e-por-que-a-definicao-no-primeiro-turno-e-estrategica