Dissipação total de capital, objetivo principal da guerra.
A guerra EUA-ISRAEL X IRÃ está demonstrando, didaticamente, a sua função essencial, na atual fase de decadência do capitalismo americano de guerra: dissipar capital de forma absoluta.
Não importa ganhar ou perder a guerra, como diz o professor José Luís Fiori, em “História, Estratégia e Desenvolvimento”(Boitempo), mas continuar a economia de guerra, indefinidamente, para prosseguir a destruição de capital como forma de reprodução do próprio capital.
Ele deixa de produzir mercadorias destinadas ao consumo humano, como destaca Lauro Campos, em “A Crise da Ideologia Keynesiana”(Boitempo), para priorizar o seu oposto: a produção de não-mercadorias( produtos bélicos e espaciais, nucleares etc) destinadas à pura destruição/dissipação.
Eis a forma corrente de reprodução capitalista de guerra, que não visa o consumidor de mercadoria, o ser humano, mas ao único consumidor de não-mercadorias que tem condições de adquiri-las: o Estado.
Para alcançar esse objetivo, o Estado, diz Lauro, cria sua própria moeda inconversível, somente possível graças à expansão da dívida pública, geradora permanente de capital primitivo, por meio da qual continua reproduzindo capital, incapaz de se reproduzir por meio da produção de bens e serviços.
A dívida pública, como relata Colbert, o mago das finanças de Luís 14, é o nervo vital da guerra.
ECONOMIA DA ESCASSEZ
No entanto, para sustentar a continuidade da economia de bens e serviços – a economia real não-fictícia, necessária à sobrevivência humana –, só é possível no capitalismo de guerra, visto que o capitalista, na economia real, onde o capital não mais se reproduz, satisfatoriamente, não investe para perder.
Ele precisa da escassez da oferta, no reino da abundância de capital que a eleva, exponencialmente, em relação à demanda, para ter lucro por meio da inflação, garantindo lucros constantes.
A oferta, como ressalta Keynes, em “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, sempre tem que continuar escassa em relação à demanda.
Caso contrário, o capitalista não investe para perder dinheiro, acumulando estoques; quem o salva é a economia de guerra, que gera abundância de capital, por meio da dívida pública, que exige juro alto para enxugar a liquidez, como alternativa para evitar hiperinflação.
A oferta, permanentemente, insuficiente é necessária, indispensável, para levar o capitalista ao investimento.
Se ela fosse infinita, os preços despencariam, tornando-se negativos.
Quem empata capital em situação econômica cujos preços despencam, sem inflação?
INFLAÇÃO, UNIDADE DA SOLUÇÃO
A inflação, confessa Keynes, é indispensável, no ambiente dominado pela autoridade monetária – Banco Central Independente(BCI) –, para levar o capitalista ao investimento na economia real.
Sendo a unidade das soluções, como apregoa o autor de Teoria geral, a inflação é fundamental porque: 1 – reduz salários, 2 – aumenta os preços, 3 – perdoa dívida do empresário contratada a prazo e 4 – aumenta a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro.
Como a inflação precisa ser controlada rigidamente sob risco de desorganizar o tecido produtivo, o BCI maneja a taxa de juro como única variável econômica verdadeiramente independente no capitalismo, como destaca Lauro Campos em “A Crise da Ideologia Keynesiana”.
DÍVIDA PÚBLICA, A ARMA DA GUERRA
A dívida pública, portanto, tem que escalar, exponencialmente, por meio do juro alto, de modo a impedir que a oferta de dinheiro em circulação, bombeada pela moeda estatal inconversível, na economia de guerra, eleve a oferta em relação à demanda, na economia real, a fim de sustentar a escassez, que produz inflação, redução de salários, aumento de preços e eficiência marginal do capital.
Sem a acumulação primitiva permanente, proporcionada pela dívida pública, bombeada pelo juro alto, que enxuga a oferta de dinheiro em circulação, haveria equilíbrio entre oferta e demanda de bens, jogando os preços para baixo e os salários para cima.
Mas, como diz Marx, esse não é o objetivo do capital, isto é, proporcionar concorrência perfeita, e sim, o contrário, a acumulação capitalista, o que nega a teoria de Jean Baptiste Say de que toda oferta gera demanda correspondente.
DESEQUILÍBRIO, A LÓGICA DO CAPITAL
Como ocorre o oposto, isto é, o objetivo do capital é o lucro, não o equilíbrio entre oferta e demanda, para que o investimento lucrativo se realize, torna-se necessário o desequilíbrio; este, por sua vez, é imposto pelo arrocho salarial, pela extração de mais valia pelo capital(renda variável) sobre o trabalho(renda fixa).
Tal lógica, no limite, materializa-se no salário zero ou negativo, na sua máxima expressão do termo, como destaca o autor de O Capital.
Por isso, os neoliberais bolsonaristas pregam reformas trabalhistas que destroem garantias para sustentar aumentos reais de salários, como fizeram os governos neoliberais Temer e Bolsonaro.
MODELO CONTRADITÓRIO
A contradição do sistema, no entanto, evidencia-se, claramente, sob salário zero ou negativo, visto que oferta se acumula em relação à demanda e os preços despencam, barrando os investimentos.
Eis porque a economia de guerra, diante do colapso da economia real de bens e serviços, é necessária para, através da dívida pública, produzindo riqueza primitiva, continuar extraindo mais valia dos salários, forma que sustenta a escassez da oferta frente à demanda, para garantir a continuidade dos lucros do capitalista.
ECONOMIA DE GUERRA, DÍVIDA E HIPERINFLAÇÃO
Os juros, na economia de guerra, como mostra a atualidade do capitalismo em crise, precisam enxugar a liquidez para manter escassa a oferta à custa do aumento da dívida pública, que faz crescer, na sua barriga, a hiperinflação.
A hiperinflação escondida pela gravidez da dívida pública proporciona dois objetivos fundamentais:
1 – render juros aos rentistas que fogem da economia real, onde o capital não mais se reproduz satisfatoriamente e
2 – financiar produção de não-mercadorias, cujo único comprador é o governo, com a moeda estatal inconversível que emite para sustentar economia de guerra.
Como a mercadoria que o governo consome, com a moeda que emite, são produtos bélicos, espaciais, nucleares etc., isto é, não-mercadorias destinadas à imediata dissipação destrutiva, como forma de reprodução do capital, a dívida pública aumenta exponencialmente.
É a forma de enxugar a liquidez que o Estado coloca em circulação por meio da dívida, no bojo da qual cresce a hiperinflação, como geradora incansável de capital primitivo.
TRUMP, SENHOR DA ECONOMIA DE GUERRA
O presidente Donald Trump, portanto, é prisioneiro da guerra, ao mesmo tempo que é o senhor dela, comprometido com sua continuidade, como estratégia de reprodução de capital, na lógica do capitalismo de guerra americano, sem se preocupar se vai ganhar ou perder a guerra.
Esse detalhe não importa, não é essencial.
O essencial é continuar a guerra para justificar objetivamente a produção armamentista de não-mercadorias, para ser dissipada continuamente.
MERCADORIA E NÃO-MERCADORIA
O capitalismo, como disse Marx, desenvolve ao máximo as forças produtivas, gerando mercadorias, entra em crise de realização de lucros, que sinaliza deflação, e passa a desenvolver as forças destrutivas, na guerra, fabricando não-mercadorias – produtos bélicos, espaciais e nucleares –, para serem continuamente dissipadas, irracionalmente.
Desse ponto de vista, Trump já perdeu a guerra no Irã, mas isso não importa para justificar o seu encerramento.
Encerrá-la significa parar produção de não-mercadorias e levar ao colapso a economia de guerra, acelerando o funeral do capitalismo americano.
Até que o sistema continue com fôlego para sustentar a guerra por meio da dívida pública, como forma de geração de capital primitivo para continuar a superacumulação de capital, ele não terá fim.
NOVA ETAPA DO CAPITALISMO À VISTA
A guerra, como objetivo em si mesmo, é o fim último do capital.
A nova etapa do capitalismo é mais guerra, agora, com a construção do escudo espacial para proteger o território americano a partir de bases siderais, como destaca Fiori, em seu último artigo, “Em busca da dominância estratégica”.
Depois da derrota no Irã, o capitalismo de guerra americano, sob comando de Trump, migra para o espaço sideral.
Foto: Molly Riley/Casa Branca
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/objetivo-da-guerra-trumpista-e-destruir-dissipar-capital-para-garantir-reproducao-do-proprio-capital