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Organização ligada à CIA treina e financia funcionários do Banco Mundial no Brasil

Parceria envolve envio de profissionais norte-americanos para escritórios na América Latina e levanta preocupações no banco.

247 – O Banco Mundial assinou um contrato com a NobleReach, uma organização ligada à Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), para financiar e enviar oito funcionários norte-americanos aos escritórios da instituição financeira no Brasil, no Panamá e na Colômbia, segundo reportagem da Folha de São Paulo.

Os profissionais enviados para a América Latina terão seus salários pagos com recursos da própria NobleReach. A entidade passou por uma fusão em 2022 com a IQT Emerge, subsidiária da In-Q-Tel, que é o braço de venture capital — setor de investimentos voltado a empresas em estágio inicial — da CIA. Além de custear os trabalhadores, a NobleReach também será responsável por oferecer treinamento e mentoria a esses funcionários alocados na região.

A organização norte-americana, que define sua própria missão institucional como a defesa da “segurança nacional e econômica” dos Estados Unidos, possui contratos com diversas agências estatais do governo norte-americano, incluindo a Agência Nacional de Segurança (NSA) e o Departamento de Defesa.

De acordo com o contrato assinado com o Banco Mundial, a NobleReach investirá US$ 500 mil (aproximadamente R$ 2,5 milhões) por meio de uma doação ao fundo trustee (administração de bens para terceiros) da instituição internacional. O aporte financiará diretamente os postos de trabalho no Brasil, no Panamá e na Colômbia.

As vagas vinculadas à parceria entre o World Bank Explorer Program e o NobleReach Scholars destinam-se exclusivamente a cidadãos americanos. Ao todo, são oito postos: dois em Brasília, dois em São Paulo, dois no Panamá e dois na Colômbia. As oportunidades abrangem as áreas de análise financeira, infraestrutura e administração. No entanto, o Banco Mundial não especificou se esses profissionais atuarão em projetos sensíveis, como minerais críticos ou infraestrutura de tecnologia, nem consultou previamente o governo brasileiro sobre a vinda dos norte-americanos.

O acordo provocou forte estranhamento interno e apreensão entre os próprios funcionários do Banco Mundial. O motivo da desconfiança é o histórico da instituição de receber doações prioritariamente de governos soberanos e voltadas a projetos de desenvolvimento social e clima, e não de organizações privadas focadas em segurança nacional e inteligência militar.

A estrutura de liderança da NobleReach reforça os laços com o aparato de defesa dos EUA. Diversos ex-integrantes do Pentágono e da CIA compõem o conselho diretivo da entidade. Entre eles estão Constantine Saab, que atuou por 18 anos na agência de inteligência norte-americana e chegou ao cargo de chefe de estratégia, e Lisa Disbrow, ex-secretária da Aeronáutica no Pentágono e atual presidente do conselho da Associação da Indústria de Defesa dos EUA.

O corpo de mentores do programa mantido em parceria com o Banco Mundial também reúne figuras de alto escalão militar, como o general Paul Nakasone, ex-diretor da NSA e ex-comandante do Comando Cibernético dos EUA, e John Raymond, ex-chefe das Operações Espaciais do Departamento de Defesa americano.

Em seu site institucional, a NobleReach afirma abertamente que seu programa de bolsas “oferece um caminho único e estruturado para que talentos emergentes em ciência e tecnologia sejam empregados na comunidade de inteligência dos EUA, incluindo conexões diretas para empregos na NSA e intersecções com a CIA”. Victoria Virasingh, vice-presidente sênior de alianças estratégicas da entidade — que possui ativos avaliados em US$ 448 milhões (cerca de R$ 2,3 bilhões) —, destaca na página oficial que a iniciativa “aumenta a confiança entre governo, indústria e academia, e é essencial para a dominância dos EUA na competição de ameaças globais”.

A entidade atua como catalisadora de talentos para contratação pelo governo norte-americano, mas também opera diretamente em projetos de segurança nacional por meio da NobleReach Emerge, como o desenvolvimento de tecnologias de verificação autônoma de cabos submarinos em parceria com a gigante de defesa Anduril. A NobleReach é ainda membro-fundador da Tech Force da Casa Branca, destinada a selecionar especialistas em inteligência artificial, cibersegurança e software para o governo americano, e possui acordo com a Darpa (agência de pesquisas avançadas do Pentágono) para criação de tecnologias de duplo uso (civil e militar). A In-Q-Tel, sua associada, foi uma das primeiras investidoras da Palantir, gigante de inteligência artificial e vigilância que fornece serviços ao Pentágono.

O direcionamento da parceria provocou reações internas na representação dos países membros. O diretor-executivo Marcos Vinicius Chiliatto, que representa o bloco formado por Brasil, Colômbia, República Dominicana, Equador, Haiti, Panamá, Filipinas, Suriname e Trinidad e Tobago no Banco Mundial, afirmou que o tema não passa pela deliberação do Conselho de Administração, cabendo à gestão da instituição.

“Ainda assim, quando tomei conhecimento do processo, solicitei informações sobre a diligência prévia efetuada pela administração do banco antes de assinar o convênio e solicitei um parecer do departamento jurídico, além de pedir que as contratações não fossem efetivadas até a conclusão dessas consultas”, declarou Chiliatto.

Procurado pela Folha de São Paulo, o Banco Mundial enviou uma nota oficial sem responder diretamente às nove perguntas formuladas sobre as razões da escolha da parceira, os detalhes sobre o treinamento prestado pela NobleReach, a possibilidade de recusa pelos países receptores ou o potencial conflito de interesses entre atividades de inteligência militar dos EUA e a neutralidade de um órgão multilateral. Questionado posteriormente sobre a existência de outros doadores não governamentais no programa, o banco não deu retorno.

Na nota, a instituição defendeu que o Programa Explorers é “um programa de talentos financiado por doadores, concebido para oferecer a profissionais de países desenvolvidos em início de carreira experiência prática de campo em apoio ao trabalho de desenvolvimento do banco”, alegando manter iniciativas semelhantes com diversas entidades globais. O órgão reforçou ainda que os selecionados passam por processos padrão de análise jurídica e estarão submetidos exclusivamente às normas e gestores do próprio Banco Mundial, sem vínculo com a doadora.

A NobleReach foi procurada por meio de três mensagens de correio eletrônico contendo 15 questionamentos, mas não respondeu até a publicação.

FOTO: Wikimedia Commons https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Flag_of_the_U.S._Central_Intelligence_Agency.svg

FONTE: https://www.brasil247.com/america-latina/organizacao-ligada-a-cia-treina-e-financia-funcionarios-do-banco-mundial-no-brasil/