Analista afirma que Irã, Rússia e China conduzem estratégia para impor custos estratégicos a Washington em conflito que pode redefinir o equilíbrio global.
247 – Uma análise geopolítica apresentada pelo jornalista e analista internacional Pepe Escobar aponta que o confronto envolvendo o Irã está inserido em uma disputa estratégica mais ampla entre os Estados Unidos e um eixo formado por Teerã, Moscou e Pequim. O comentário foi divulgado em vídeo publicado no YouTube, em um episódio do programa “Pepe Café”, no qual Escobar examina a evolução recente da crise.
Segundo o analista, o conflito se desenvolve em um cenário de forte volatilidade política e militar. Em sua avaliação, a dinâmica da guerra reflete não apenas disputas regionais, mas também um embate entre o que ele descreve como a estratégia de “máxima pressão” de Washington e a resposta coordenada entre Irã, Rússia e China.
Escobar chama atenção para declarações que atribui ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a duração e os objetivos da ofensiva contra o Irã. Para o analista, a narrativa oficial teria mudado repetidamente ao longo de poucos dias.
“Nós vamos invadir o Irã por terra… não, não vamos entrar no Irã por terra… a oposição curda vai se levantar… os árabes vão entrar na guerra…”, afirma Escobar ao resumir o que considera uma sequência de versões contraditórias sobre o rumo do conflito.
Ataques e intensificação das tensões
Ao comentar os acontecimentos recentes, o analista menciona episódios de ataques a infraestrutura energética e áreas urbanas iranianas. Ele argumenta que operações militares teriam atingido também zonas civis, ampliando o impacto humanitário da guerra.
Escobar cita bombardeios contra instalações petrolíferas e relata que bairros residenciais e outras estruturas urbanas teriam sido atingidos durante a escalada militar. Em sua leitura, esse tipo de ofensiva contribui para reforçar a determinação iraniana de manter a guerra até alcançar objetivos estratégicos definidos por Teerã.
Apoio indireto de Rússia e China
Uma parte central da análise aborda o papel de Rússia e China no contexto do conflito. Segundo Escobar, Moscou teria compartilhado informações de inteligência com autoridades iranianas antes do início das operações militares.
O analista afirma que serviços de inteligência russos teriam interceptado comunicações sobre possíveis planos de ataque e transmitido detalhes estratégicos a Teerã, incluindo plataformas de lançamento, cronogramas e tipos de armamento.
No caso da China, Escobar sustenta que Pequim acompanha atentamente o desenrolar da guerra como forma de observar o funcionamento do aparato militar norte-americano. “Eles estão olhando o fluxo dos mísseis no ar e também o fluxo marítimo de energia”, afirma.
Segundo ele, o país asiático dispõe de reservas estratégicas de energia e de rotas alternativas de abastecimento capazes de reduzir impactos de eventuais interrupções no Golfo Pérsico.
Divergências no BRICS e o papel da Índia
O analista também menciona tensões dentro do próprio BRICS, especialmente no que se refere à posição da Índia. Ele cita uma conversa telefônica entre o ministro das Relações Exteriores indiano, Subrahmanyan Jaishankar, e o chanceler iraniano Abbas Araghchi.
De acordo com Escobar, a diplomacia iraniana teria adotado um tom moderado ao abordar divergências recentes com Nova Délhi, reconhecendo a pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o governo indiano, mas mantendo canais de cooperação abertos.
Estratégia para prolongar o conflito
Na avaliação apresentada no vídeo, a parceria estratégica entre Rússia, China e Irã teria como objetivo central transformar a guerra em um custo político, econômico e militar elevado para Washington.
Escobar sustenta que o cálculo geopolítico dessa aliança seria conduzir o conflito a um ponto em que os Estados Unidos não consigam sustentá-lo. “Eles querem uma guerra que o império não possa vencer e ao mesmo tempo não possa pagar”, afirma.
Segundo o analista, autoridades iranianas também têm reiterado que não pretendem negociar nas condições atuais e que o encerramento do conflito dependerá de decisões tomadas em Teerã.
“Não vai ter diplomacia. A guerra acaba quando a gente disser que a guerra acaba”, diz Escobar ao relatar o posicionamento que atribui à liderança iraniana.
Possíveis desdobramentos
Apesar da escalada, o analista menciona que países como Turquia, Catar e Omã teriam sido citados como possíveis intermediários para as negociações. Ainda assim, segundo ele, Teerã teria rejeitado propostas de cessar-fogo neste momento.
Para Escobar, o resultado da guerra dependerá principalmente da capacidade dos Estados Unidos de sustentar o conflito e lidar com seus custos geopolíticos mais amplos. Na análise apresentada no vídeo, o embate envolvendo o Irã pode se tornar um novo ponto de inflexão no equilíbrio global de poder.
Foto: Brasil247
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/os-estados-unidos-nao-podem-vencer-essa-guerra-diz-pepe-escobar