Um tabuleiro de energia assimétrico
Os EUA entram na crise de 2026 como grande produtor de petróleo e gás, exportador líquido de energia no agregado e bem menos dependente do Golfo do que nas décadas passadas. Já a China continua importando cerca de 70% do petróleo que consome, com forte exposição ao Oriente Médio e ao Estreito de Ormuz. Esse desnível cria uma assimetria estrutural: um choque prolongado no Golfo atinge muito mais duro Pequim, Tóquio, Seul, Nova Délhi e a Europa do que Washington.
Think tanks e relatórios estratégicos americanos reconhecem isso com todas as letras: a posição de “quase independência energética” dá aos EUA mais margem para correr riscos militares na região do que na era dos choques do petróleo dos anos 1970. Em paralelo, análises sobre a China mostram que a guerra no Irã aperta diretamente a “linha de vida” de petróleo de Pequim, que depende de fluxos de crude e GNL do Golfo para manter seu crescimento. Ou seja: qualquer escalada que estrangule o Golfo pesa muito mais na China do que nos EUA.
Até onde vai esse cálculo – e onde faltam provas
Apesar disso, não há documento oficial americano dizendo: “vamos destruir a infraestrutura do Irã e do Golfo porque somos quase autossuficientes em energia e isso vai quebrar a China”. O que existe é:
– análises independentes que apontam que a assimetria EUA (muito petróleo/gás, menos dependência) x China (alta dependência de importações, especialmente do Oriente Médio) faz parte do pano de fundo da crise;
– estudos que tratam a vulnerabilidade energética chinesa como “ponto de pressão estrutural” em qualquer confronto prolongado envolvendo Irã, Golfo e rotas marítimas.
Ao mesmo tempo, esses mesmos trabalhos alertam que um colapso real da infraestrutura do Golfo e do Irã – coisa de fechamento prolongado de Ormuz e destruição massiva de capacidade exportadora – não seria “vitória limpa” para Washington: dispararia petróleo e gás para níveis que empurrariam o mundo para recessão e aumentariam a pressão global para fugir de combustíveis fósseis e buscar alternativas ao sistema financeiro dominado pelo dólar.
Petrodólar em erosão, não em colapso instantâneo
Relatórios sobre o “fim do petrodólar” descrevem um processo de erosão lenta, não uma morte súbita. A China, Rússia e países do Golfo já ampliam o uso de yuan e moedas locais em parte do comércio de petróleo e gás, e discutem até caminhos via “petroyuan” e moedas digitais, mas o dólar continua dominante como reserva, meio de pagamento e ativo de fuga em crises. Uma guerra que destrua o Irã e abale o Golfo poderia empurrar alguns produtores a acelerar acordos fora do dólar; mas, nos momentos de pânico, a experiência recente mostra fluxo maciço de capitais de volta para Treasuries e para o dólar como porto seguro.
Na prática, analistas sérios veem esse cenário como um jogo de soma negativa:
– os EUA teriam alguma vantagem relativa (sofrem menos risco de desabastecimento físico e continuam oferendo o dólar como refúgio financeiro),
– a China enfrentaria choques de oferta muito maiores e pressão para acelerar uma transição energética na qual já é forte industrialmente, mas à custa de grande dor econômica no curto prazo,
– e o sistema como um todo entraria em turbulência, com risco de acelerar justamente a busca por alternativas ao “petrodólar” que Washington tenta evitar.
Ou seja: é plausível dizer que a vantagem energética dos EUA *entra no cálculo* de risco da sua política para o Irã, especialmente em contraste com a vulnerabilidade chinesa, mas não há evidência sólida de uma estratégia declarada para “deixar o Golfo em ruínas” esperando sair hegemonicamente mais forte. As fontes sublinham mais um jogo perigoso de brinkmanship num sistema interconectado do que um plano claro de hegemonia garantida por meio da destruição da infraestrutura de energia alheia.
FOTO: RS/via Fotos Publicas
FONTE: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas
( Reprodução autorizada mediante citação da fonte: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas )