Pressões dos EUA para conter a China na América Latina ignoram interesses econômicos da região e tendem a fracassar.
Enquanto forças dos Estados Unidos e de Israel continuam sua guerra contra o Irã, em uma tentativa de remodelar toda a região pela força, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda promove uma agenda colonial semelhante na América Latina. Seu resort Doral, em Miami, sediou a Cúpula Escudo das Américas, para a qual apenas governos conservadores da região foram convidados e cujo objetivo declarado é “expulsar a China” da América Latina — uma tentativa de forçar a região a reduzir o comércio e a cooperação com Pequim, que hoje é o maior parceiro comercial de muitos países latino-americanos. A iniciativa fracassará.
Incapazes de competir com a China em mercados abertos, os Estados Unidos recorrem a táticas coercitivas para manter a dominância sobre uma região apenas pela força bruta. Esquecem que as forças materiais que impulsionam a cooperação entre China e América Latina são muito mais poderosas do que qualquer comunicado de cúpula, e que nenhuma quantidade de ameaças pode reverter o curso da história.
Essa iniciativa ocorre logo após a operação militar dos Estados Unidos para sequestrar o presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, um ato que violou princípios fundamentais do direito internacional e enviou uma mensagem preocupante por todo o hemisfério: renunciem à sua soberania ou enfrentem as consequências.
O caráter coercitivo da campanha de Washington na América Latina — para além da Venezuela — já está plenamente evidente. Nas últimas semanas, o governo Trump impôs restrições de visto a três autoridades do governo chileno, incluindo o ministro dos Transportes e Telecomunicações, devido à análise de Santiago sobre um projeto de cabo submarino de US$ 500 milhões que conectaria o Chile à China. Brandon Judd, embaixador dos EUA em Santiago, foi ainda mais longe, advertindo que o Chile poderia perder completamente seu programa de isenção de visto caso não examine os investimentos chineses de acordo com as exigências de Washington.
Considere a ousadia dessa posição: uma nação soberana está sendo punida por manter relações normais com um terceiro país, simplesmente por considerar um projeto de infraestrutura potencialmente benéfico.
Esse padrão de interferência vai muito além do Chile. No Panamá, a Suprema Corte foi pressionada pelo Departamento de Estado dos EUA a decidir que a concessão detida pela empresa CK Hutchison, sediada na Região Administrativa Especial de Hong Kong, para operar portos nas duas extremidades do Canal do Panamá era inconstitucional. Desde então, o governo ordenou a ocupação de ambos os terminais e transferiu a gestão provisória a operadores europeus, enquanto a CK Hutchison — que investiu US$ 1,8 bilhão ao longo de quase três décadas — iniciou procedimentos de arbitragem internacional.
O ataque à prosperidade comum
O que torna essa campanha particularmente absurda é o fato de que ela pede à América Latina que cometa suicídio econômico. Desde 2000, o comércio entre China e América Latina cresceu 35 vezes. Essa enorme expansão do volume comercial ocorreu praticamente no mesmo ritmo em toda a região, independentemente das orientações ideológicas de cada governo.
Os benefícios dessa parceria podem ser vistos em praticamente todos os países. O megaprojeto portuário de Chancay, no Peru, construído com investimento chinês, reduziu o tempo de transporte para a Ásia em quase duas semanas e diminuiu os custos logísticos em pelo menos 20%, criando uma nova porta de entrada no Pacífico para exportações sul-americanas de manufaturados, produtos agrícolas e minerais. No Brasil, empresas chinesas investiram bilhões em energia renovável, fabricação de veículos elétricos e modernização portuária. Ironicamente, a BYD construiu uma grande fábrica de veículos elétricos no estado da Bahia, exatamente no local onde a Ford havia encerrado suas operações durante o processo de retração industrial dos Estados Unidos.
Washington, em contraste, oferece à América Latina apenas ameaças, sem qualquer incentivo. Não apresenta alternativas de investimento em infraestrutura, termos comerciais mais favoráveis ou novas parcerias de desenvolvimento. Não oferece isso porque não tem capacidade de fazê-lo. A única carta que possui é exigir que os países latino-americanos rompam relações com seu parceiro econômico mais importante e ameaçar com guerra e sanções aqueles que se recusarem.
É importante compreender essa agressividade como um sintoma de declínio. À medida que os Estados Unidos perdem a capacidade de competir economicamente, tentam fazer o relógio voltar à era do colonialismo ocidental. Na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, fez um discurso que expôs os fundamentos ideológicos da política externa do governo. Ele lamentou o declínio dos “grandes impérios ocidentais” diante dos “comunistas sem Deus”. Foi um chamado para o retorno do imperialismo do século XIX e para o fim da soberania, da autodeterminação e da descolonização. Aos colonizadores resta apenas olhar para trás e recordar a antiga glória.
A visão da China para sua relação com a América Latina e com o Sul Global não poderia ser mais diferente. Na mesma conferência em Munique, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, defendeu a adesão aos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas, enfatizando que todos os países devem ser “iguais em termos de direitos, oportunidades e regras”. A ONU pode não ser perfeita, mas ainda representa princípios fundamentais de paz, soberania e autodeterminação. Abandonar esses princípios é o caminho para o caos, a guerra e o colonialismo.
Não há retorno
A tentativa do governo Trump de fazer o relógio da história voltar na América Latina fracassará por uma razão simples: ela vai contra os interesses materiais dos povos da região. A cooperação entre China e América Latina cresce porque é mutuamente benéfica. A região conquistou mercados para suas commodities, garantiu investimentos em infraestrutura extremamente necessários e obteve acesso a tecnologia acessível. É esse tipo de prosperidade compartilhada que sobreviverá a qualquer presidente ou conflito político.
As nações latino-americanas já enfrentaram séculos de intervenção estrangeira, desde o colonialismo até os golpes da Guerra Fria e os programas de ajuste estrutural que devastaram suas economias. O que os Estados Unidos agora oferecem sob a chamada “Doutrina Donroe” é mais do mesmo: dependência, instabilidade e subdesenvolvimento apresentados sob a linguagem da segurança. O que a China oferece é algo genuinamente novo: comércio sem condições, investimento sem interferência e respeito ao direito soberano de cada nação escolher seu próprio caminho de desenvolvimento.
A história não retrocede. O chamado “Escudo das Américas” acabará sendo apenas uma nota de rodapé na história irreversível da cooperação Sul-Sul e da solidariedade do Sul Global.
Foto: Xinhua
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/os-lacos-inquebraveis-entre-china-e-america-latina