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Papel de Janones na vitória de Lula expõe desafio da esquerda

Deputado contribuiu além da publicação de mensagens em grande quantidade na campanha do presidente Lula, destacou o filósofo Lucio Massafferri Salles.

247 – A atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG) na campanha que garantiu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 revelou a importância da comunicação digital para a disputa política e expôs, segundo o colunista Lucio Massafferri Salles, uma dificuldade de setores da esquerda em reconhecer conhecimentos desenvolvidos fora dos ambientes acadêmicos. Em artigo publicado no Pragmatismo Político, o doutor e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sustenta que a contribuição do parlamentar foi além da publicação de mensagens em grande quantidade, e demonstrou conhecimento prático de um sistema de comunicação que ainda representa um desafio para parte dos dirigentes e intelectuais progressistas.

De acordo com o articulista, o episódio oferece lições sobre a necessidade de integrar mobilização popular, formação política e conhecimento tecnológico. O deputado usou redes sociais, algoritmos e estratégias de comunicação para enfrentar a mobilização da extrema direita, destacou o jornalista.

“Janones foi além de produzir mensagens em grande quantidade. Entendeu um ambiente de disputa que boa parte do campo progressista ainda desconhece”, escreveu Salles, que também é especialista em Psicanálise pela Universidade Santa Úrsula (USU), com pós-doutorado em Filosofia Contemporânea na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

“As redes foram construídas para capturar atenção, estimular reações e explorar predisposições humanas, o que as torna tudo menos espaços neutros. Os algoritmos trabalham em cima de medos, desejos, fragilidades, ressentimentos e expectativas. Há técnicas de comunicação capazes de atingir esses pontos com enorme precisão. É preciso conhecer esse funcionamento para saber atuar nele”, acrescentou o analista, professor do Departamento de Psicologia da UCAM e professor de Filosofia, com atuação em Educação Especial, na rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro.

O colunista pontuou o “lado técnico” do trabalho de comunicação feita pela equipe do presidente Lula. “Ele (Janones) tem conhecimento prático, experiência, domínio das linguagens das plataformas, compreensão de como as mensagens circulam e atingem as mentes e de como os algoritmos respondem a certos estímulos. Janones teve papel central naquela virada fantástica”, observou.  “As ruas também tiveram o seu papel, com multidões convocadas sobretudo por movimentos estudantis e juvenis depois do primeiro turno, e não pretendo diminuir isso”.

O presidente Lula (PT) venceu Flávio Bolsonaro no último domingo (25), dia do segundo turno. O petista recebeu 51,79% dos votos contra 48,21% do senador. Em números absolutos, foram 64,2 milhões a 59,8 milhões de votos. O primeiro turno tinha sido 47,03% (56,1 milhões) a 45,16% (53,8 milhões) a favor do parlamentar da extrema direita.

Lições para o campo progressista

De acordo com o articulista, o episódio oferece lições sobre a necessidade de integrar mobilização popular, formação política e conhecimento tecnológico. A análise também projeta a participação do deputado para além da campanha eleitoral. Salles considera que a experiência acumulada por André Janones pode contribuir para a organização de uma estrutura de comunicação vinculada a um governo progressista.

Segundo o autor, essa contribuição envolveria a definição de estratégias para ampliar a presença digital, organizar a circulação de conteúdos e enfrentar grupos políticos que já utilizam essas ferramentas há mais tempo. O colunista defende uma aproximação entre diferentes formas de conhecimento, reunindo formação intelectual, educação política e experiência prática com as tecnologias de comunicação.

“É perfeitamente possível discutir os limites éticos das estratégias digitais, questionar procedimentos e estabelecer critérios para a comunicação pública sem desqualificar a competência de quem conhece esse terreno”, afirma. “Que não venham a sabotar André Janones justamente quando ele mostrou o valor do que tem a oferecer”.

Algoritmos e redes sociais

Um dos argumentos centrais do artigo é que o funcionamento das plataformas digitais segue mecanismos de distribuição de conteúdos que influenciam a maneira como as pessoas recebem informações e participam do debate público.

Salles observa que as empresas de tecnologia estruturam suas plataformas para disputar a atenção dos usuários e estimular interações. O autor destaca que os algoritmos levam em consideração comportamentos, expectativas e reações emocionais, o que torna a comunicação nesse ambiente diferente dos meios tradicionais.

Nesse contexto, ele compara o domínio das ferramentas digitais ao aprendizado de técnicas de combate. A intenção é demonstrar que a convicção política, isoladamente, não garante resultados quando os participantes desconhecem as características do espaço em que atuam. “Existe uma espécie de arte marcial digital, e quem não conhece as regras dela entra na disputa em desvantagem”, afirma.

O articulista considera que Janones desenvolveu uma compreensão desse funcionamento a partir da experiência prática. Para ele, esse conhecimento permitiu ao parlamentar atuar em um ambiente que parte da esquerda ainda não domina.

A reflexão também aponta para as diferenças entre conhecimento acadêmico e capacidade de operar ferramentas tecnológicas. Salles argumenta que a formação universitária não assegura familiaridade com programação, sistemas operacionais ou estratégias de comunicação nas plataformas.

Setores intelectuais da esquerda

O artigo questiona a dificuldade de determinados segmentos progressistas em reconhecer a capacidade de pessoas que adquiriram conhecimentos fora dos espaços tradicionais de formação intelectual.

Segundo Salles, parte dessa resistência decorre da valorização de determinadas trajetórias acadêmicas em detrimento de experiências práticas. O autor considera que essa postura dificulta a incorporação de profissionais capazes de contribuir para a comunicação política.

Ele destaca que uma pessoa pode reunir títulos universitários e conhecimento sobre instituições políticas sem necessariamente compreender o funcionamento das redes sociais. Da mesma forma, o domínio das plataformas não transforma automaticamente alguém em especialista nas demais áreas do conhecimento.

“Conhecimento acadêmico não garante domínio tecnológico. E dominar a comunicação digital também não faz de ninguém um filósofo, um historiador ou um cientista político”, argumenta.

Formação política e comunicação eleitoral

Outro ponto da análise trata da diferença entre estratégias de comunicação utilizadas em campanhas eleitorais e processos de formação da consciência política da população.

Salles considera que a educação para a cidadania exige atenção às condições de funcionamento das escolas, à valorização dos professores e ao acesso ao conhecimento. Para ele, essas responsabilidades não devem recair sobre profissionais que atuam especificamente na comunicação de uma campanha.

O colunista menciona problemas enfrentados pela educação pública brasileira, entre eles a falta de professores, o descumprimento do piso salarial do magistério, as dificuldades de aprendizagem e os episódios de violência no ambiente escolar.

A análise também aborda os efeitos do uso excessivo de smartphones sobre os estudantes e as dificuldades enfrentadas pelas famílias para acompanhar as transformações tecnológicas.

Segundo o autor, o desenvolvimento da consciência cidadã depende de instituições educacionais, universidades, movimentos sociais, famílias e profissionais da comunicação, cada qual com responsabilidades específicas.

Nesse sentido, Salles defende que a avaliação das estratégias de Janones considere a finalidade de sua atuação na campanha eleitoral, sem confundir a disputa por votos com um processo de educação política de longo prazo.

O autor também rejeita a ideia de que Janones deveria assumir a função de educador político. Em sua avaliação, a participação do deputado tinha um objetivo eleitoral específico, diferente do trabalho de formação da consciência cidadã. “Janones não se apresentou como educador político da sociedade brasileira nem como formador de consciência cidadã. E o que conseguiu fazer foi extraordinário”, escreve.

Limites éticos das estratégias digitais

O colunista reconhece a importância de discutir os limites éticos da comunicação política nas plataformas. Ele considera legítimo questionar procedimentos, estabelecer critérios e avaliar os efeitos das estratégias utilizadas em campanhas.

Sua avaliação, entretanto, é que esses debates não devem servir para desqualificar automaticamente o conhecimento técnico de profissionais que dominam os mecanismos de circulação de informações.

No artigo, Salles também critica a atuação da Meta, empresa responsável por plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp. Ele sustenta que a companhia favoreceu o campo adversário durante a campanha e afirma que seu próprio canal e o Pragmatismo Político enfrentaram punições, acompanhadas de processos perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Essas avaliações fazem parte da interpretação apresentada pelo colunista sobre a disputa digital e sobre as condições enfrentadas por produtores de conteúdo alinhados ao campo progressista.

Para Salles, o desempenho de Janones demonstra que a esquerda precisa ampliar sua capacidade de compreender as ferramentas utilizadas na comunicação política. Isso envolve tanto a produção de mensagens quanto o entendimento dos mecanismos de distribuição e engajamento das plataformas.

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/midia/papel-de-janones-na-vitoria-de-lula-expoe-desafio-da-esquerda/