Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 16 anos lutando pelos jornalistas

Paulo Nogueira Batista Jr: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Em entrevista a Hildegard Angel, economista critica privatizações, reage às ameaças de Donald Trump e defende nacionalismo soberano e integração no BRICS.

247 – O economista Paulo Nogueira Batista Júnior, ex-diretor executivo do FMI e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, concedeu uma longa entrevista à jornalista Hildegard Angel na TV 247. A conversa girou em torno de seu novo livro Estilhaços, das reflexões sobre soberania nacional, do papel do Brasil no mundo e da conjuntura geopolítica atual.

Logo no início, Paulo destacou que sua mais recente obra não é centrada na economia, mas em temas como filosofia, literatura, cinema e vivências pessoais. Ele explica que escolheu um formato fragmentado: “Esse livro é bem diferente dos meus anteriores, porque o foco dele é filosofia, literatura, vivências. […] Ele pode ser lido de maneira aleatória, sem sequência lógica ou cronológica”.

Defesa da soberania nacional

Conhecido por sua postura crítica à submissão do Brasil aos interesses externos, o economista relembrou o sucesso de seu livro anterior, O Brasil não cabe no quintal de ninguém, e afirmou que a defesa da soberania ainda é central para compreender os desafios do país.

“Era muito mais difícil ser nacionalista e defensor da soberania nos anos 90 do que hoje”, afirmou, lembrando o período em que o governo Fernando Henrique Cardoso abraçava a ideologia da globalização e do “fim do Estado nacional”.

Ele também diferenciou privatizações de desnacionalizações, criticando a venda de estatais brasileiras a empresas públicas estrangeiras: “Às vezes não são privatizações de fato, mas apenas desnacionalizações”.

O embate com Donald Trump

Paulo Nogueira Batista Jr comentou a recente agressão tarifária imposta pelo governo de Donald Trump contra o Brasil. Segundo ele, a resposta brasileira foi firme, mesmo diante da moderação habitual do presidente Lula:

 “O Brasil sofreu uma agressão da parte do governo Trump. A resposta brasileira até agora foi bastante boa. […] O Supremo também reagiu de forma importante, mostrando que os Estados Unidos não têm que se meter em nossas questões jurídicas”.

O economista destacou que o episódio demonstrou a importância de defender a autonomia nacional contra a instrumentalização política do comércio exterior.

Nacionalismo, BRICS e multipolaridade

Ao abordar o cenário internacional, Paulo defendeu que o nacionalismo, apesar de multifacetado, é hoje a principal força ideológica em ascensão:

 “O nacionalismo pode ser perigoso quando se torna imperialismo, como no caso dos Estados Unidos. Mas no Brasil, o nosso nacionalismo é estritamente defensivo, não temos planos de agressão ou expansão em lugar nenhum”.

Ele relembrou sua participação desde os primeiros passos do BRICS, em 2008, quando ainda representava o Brasil no FMI. Para ele, o grupo se tornou essencial na busca por alternativas à hegemonia ocidental: “Nunca foi propósito nosso destruir o dólar. Isso só surgiu recentemente, depois do uso abusivo do dólar como arma política”.

Sobre a necessidade de novas instituições, defendeu: “Não adianta mais ficar pregando reformas em organismos como FMI ou Banco Mundial. Os Estados Unidos e a Europa não vão abrir mão do controle. Temos que criar mecanismos paralelos, como plataformas de pagamento alternativas e novas moedas de reserva”.

Críticas à política econômica e aos acordos internacionais

O economista avaliou que o governo Lula, apesar de avanços, ainda convive com entraves herdados de administrações anteriores e com a permanência de neoliberais em cargos estratégicos. Ele criticou a insistência em acordos como o Mercosul-União Europeia:

 “Esse acordo fragiliza a indústria nacional em troca de pequenos ganhos para o agronegócio exportador. É um erro estratégico”.

Ele também alertou para a incongruência entre o discurso de neoindustrialização e as práticas de política comercial externa que, segundo ele, enfraquecem a indústria brasileira.

Memórias pessoais e legado familiar

Paulo recordou ainda a trajetória de sua família, destacando o papel de seu pai, diplomata que atuou no programa nuclear brasileiro e na ONU, além de seu legado intelectual com o livro O Consenso de Washington e os Problemas da América Latina (1994).

Ele relembrou também a moratória da dívida externa em 1987, quando, aos 32 anos, teve participação decisiva na decisão que interrompeu pagamentos a bancos internacionais: “Essa participação me estigmatizou por muito tempo, mas eu não me arrependo. Achei que tinha responsabilidade de defender publicamente essa decisão”.

Um intelectual público

Aos 70 anos, Paulo afirmou não ter ambições de cargos públicos, preferindo seguir como escritor e analista:

 “Eu sou muito independente para ser um alto funcionário do governo. Meu temperamento não é condizente com essas funções. Hoje me considero mais um intelectual público, um polemista, um escritor”.

Ele encerrou a entrevista destacando que pretende seguir escrevendo livros no estilo de Estilhaços, explorando reflexões além da economia.

A entrevista com Hildegard Angel reforça a imagem de Paulo Nogueira Batista Jr como uma das vozes mais críticas e consistentes na defesa da soberania brasileira. Ao mesmo tempo em que revisita sua trajetória e expõe dilemas da política econômica, ele oferece uma visão clara sobre os desafios de um mundo em transformação, em que o Brasil precisa afirmar-se como potência autônoma e defensora de um multipolarismo mais justo. Assista:

Foto: Reprodução Youtube

FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/paulo-nogueira-batista-jr-o-brasil-nao-cabe-no-quintal-de-ninguem