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Pepe Escobar explica o pacto militar entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia

Pacto de Meca reflete o reposicionamento defensivo das potências regionais que buscam calibrar sua segurança em um mundo que caminha velozmente para a multipolaridade.

247 – O anúncio recente de um acordo trilateral de defesa firmado em Meca entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia sacudiu o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio e da Eurásia. Em análise detalhada no programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar dissecou as reais motivações por trás do pacto, classificando a iniciativa como uma sofisticada peça de “teatro de dissuasão” marcada por ambiguidades estratégicas deliberadas.

O pacto de Meca: “Teatro de dissuasão” e ambiguidade calculada

O acordo, cujos termos oficiais permanecem sem vazamentos substanciais, foi divulgado ao público com referências diretas a um princípio análogo ao Artigo 5º da OTAN: a ideia de que um ataque contra um dos três países seria tratado como um ataque a todos.

No entanto, Escobar questiona a viabilidade prática e a solidez operacional dessa aliança militar mútua:

  • O peso das forças envolvidas: De um lado, a Turquia detém o segundo maior exército da OTAN; do outro, o Paquistão é uma potência nuclear consolidada, enquanto Riade oferece poderio financeiro e projeção regional.
  • A estratégia do silêncio: Segundo interlocutores e diplomatas paquistaneses ouvidos pelo jornalista, a falta deliberada de clareza textual faz parte da própria doutrina do pacto. A ambiguidade serve como escudo e instrumento de barganha para as três capitais.
  • Operação de imagem: Para o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MBS), o evento em Meca funcionou como um golpe de relações públicas para projetar liderança sunita e autonomia militar frente às incertezas globais.

Os limites da Turquia e a desconfiança eurasiática

Embora Ancara tente navegar entre o Ocidente e o Oriente, Escobar destacou que a posição turca impõe limites severos às suas pretensões de liderança regional.

O projeto histórico e nacionalista do governo turco — a construção de uma ampla esfera de influência sobre os povos de língua túrquica, por vezes chamada de projeto do Grande Turan — é visto com desconfiança pelas potências do continente:

  • Rússia e China reticentes: Tanto Moscou quanto Pequim mantêm Ancara a uma distância controlada, barrando avanços decisivos para sua entrada plena no BRICS ou na Organização de Cooperação de Xangai (OCX).
  • Relações de vizinhança com o Irã: Embora a diplomacia turca tenha se apressado em telefonar para Teerã antes da assinatura do acordo para garantir que o pacto não é direcionado contra a República Islâmica, há historicamente maior confiança estratégica entre Irã e Paquistão do que entre Irã e Turquia.

A reação de Israel e as mensagens indiretas

Apesar do ceticismo quanto à real capacidade de engajamento conjunto no campo de batalha, o pacto gera desconforto direto em Israel.

Se a aliança fosse estruturada primordialmente como uma frente anti-Irã, os canais diplomáticos entre Islamabad e Teerã estariam sob forte tensão — o que não se verificou. O descontentamento nos círculos de segurança em Tel Aviv decorre da formalização de um canal de segurança que une a capacidade nuclear paquistanesa ao exército turco e à influência financeira saudita sem a tutela direta de Washington.

O contexto regional: Estreito de Ormuz e a pressão dos “Três Mosqueteiros”

Durante o programa, Escobar inseriu o acordo de Meca em um quadro mais amplo de disputa hegemônica na Ásia Ocidental, onde Washington tenta manter influência enquanto o eixo formado por Rússia, China e Irã — apelidado pelo analista de “os Três Mosqueteiros” — aplica pressões coordenadas:

  1. Controle marítimo e energético: Teerã mantém pulso firme sobre o Estreito de Ormuz, condicionando a estabilidade da rota à retirada das forças navais norte-americanas da região e ao cumprimento de reparações financeiras.
  2. Desdolarização do comércio: O surgimento de sistemas alternativos de liquidação financeira fora da órbita ocidental, como o modelo de stablecoins (a exemplo do sistema russo A7 utilizado em transações com o Sul Global), reduz a eficácia das sanções unilaterais.
  3. Blindagem jurídica: Leis de soberania econômica implementadas por Pequim para neutralizar o alcance extraterritorial das punições financeiras de Washington.

Para Pepe Escobar, enquanto as grandes potências eurasiáticas constroem corredores comerciais e estruturas monetárias paralelas, iniciativas como o pacto de Meca refletem o reposicionamento defensivo das potências regionais que buscam calibrar sua segurança em um mundo que caminha velozmente para a multipolaridade.

FOTO: Brasil 247

FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/pepe-escobar-explica-o-pacto-militar-entre-arabia-saudita-paquistao-e-turquia/