Analista diz que comércio em moedas locais e conexões com China, Rússia e países vizinhos reduzem alcance da pressão dos EUA.
247 – As novas sanções preparadas pelos Estados Unidos contra o Irã terão alcance limitado porque Teerã construiu uma rede de comércio, pagamentos e transporte cada vez menos dependente do sistema financeiro controlado por Washington. A avaliação é do jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar, em entrevista à TV 247.
Segundo Escobar, a estratégia norte-americana parte da tentativa de aprofundar o isolamento econômico e financeiro iraniano, mas enfrenta uma transformação que já vinha ocorrendo na Eurásia: a expansão de transações em moedas locais, de mecanismos informais de pagamentos e de corredores comerciais que conectam o Irã a China, Rússia, Paquistão, Turquia, Iraque e países da Ásia Central.
“Todo mundo passando em torno do dólar, sanções não servem para nada”, afirmou.
Na avaliação do jornalista, o poder das sanções dos Estados Unidos continua elevado sobre empresas, bancos e governos que dependem do dólar ou do sistema financeiro norte-americano. O problema para Washington, segundo ele, é que parte crescente das relações econômicas do Irã ocorre fora desse circuito.
Escobar citou as transações entre Irã e China como um dos principais exemplos. Segundo ele, refinarias chinesas que compram petróleo iraniano podem realizar pagamentos em yuan e operar sob a legislação chinesa, reduzindo sua exposição às decisões unilaterais tomadas pelo governo norte-americano.
“As refinarias chinesas que compram petróleo importado do Irã já falaram: ‘vamos respeitar a lei chinesa’”, disse.
Para Escobar, essa posição representa um ponto de mudança porque as chamadas sanções secundárias dos Estados Unidos dependem da capacidade de atingir empresas de terceiros países que mantenham negócios com governos sancionados. Quando uma companhia não depende de transações em dólar nem de instituições financeiras norte-americanas, a capacidade de coerção diminui.
O analista também mencionou o comércio entre Rússia e Irã. De acordo com ele, operações entre os dois países já são realizadas em rublos e, em alguns casos, em yuan, dentro de uma estrutura mais ampla de integração logística e financeira.
Uma das bases dessa relação é a conexão pelo Mar Cáspio. Escobar citou a rota entre o porto russo de Astrakhan e Bandar Anzali, no norte do Irã, como parte da infraestrutura que liga os dois países e se integra ao corredor internacional de transporte entre Rússia, Irã e Índia.
“Todo o sistema de transações financeiras que escapa ao dólar, especialmente com os vizinhos e mais do que tudo com a China”, resumiu.
Outro componente da resistência iraniana às sanções, segundo Escobar, está no comércio regional. O Irã possui fronteiras terrestres e marítimas com economias que dependem de intercâmbios constantes de energia, alimentos, produtos industriais e serviços.
O jornalista destacou o caso do Paquistão e do corredor econômico China-Paquistão. A infraestrutura liga o oeste da China ao porto de Gwadar, no Mar da Arábia, situado próximo da fronteira iraniana.
A partir dessa conexão, segundo Escobar, mercadorias podem seguir por rodovia para o território do Irã, criando uma alternativa logística para produtos chineses e para as exportações iranianas.
“Os chineses podem mandar o que eles quiserem por via marítima e depois rodoviária para o Irã”, afirmou.
Escobar argumentou que a relevância dessa rede não está apenas nos grandes acordos entre governos. Ela inclui sistemas comerciais regionais formados por importadores, comerciantes, intermediários e mecanismos de transferência de recursos que funcionam paralelamente às instituições financeiras convencionais.
Ele mencionou sistemas tradicionais de compensação utilizados em países muçulmanos, nos quais pagamentos podem ser acertados entre correspondentes localizados em diferentes países e posteriormente compensados em moeda local.
Na avaliação do analista, esse tipo de estrutura torna praticamente impossível produzir um bloqueio econômico integral. As sanções podem elevar custos, dificultar operações específicas e limitar empresas com exposição aos Estados Unidos, mas não conseguem interromper todo o comércio iraniano.
A relação energética com países vizinhos também reforça essa capacidade. Escobar citou as trocas de gás entre Irã e Turcomenistão. Em determinadas regiões iranianas, explicou, a proximidade geográfica torna mais eficiente receber gás turcomeno do que transportar o produto desde as áreas produtoras próximas ao Golfo Pérsico.
Esse sistema de intercâmbio energético adiciona outra camada às relações econômicas regionais, porque não depende exclusivamente dos mercados internacionais organizados em torno de contratos em dólar.
Para Escobar, a estratégia norte-americana enfrenta, portanto, um problema estrutural: as sanções foram desenvolvidas em um período no qual o dólar e os bancos ocidentais concentravam parcela maior do comércio internacional. A diversificação atual reduz a possibilidade de reproduzir o mesmo nível de controle.
“Eles não têm ideia de como funciona a Eurásia e de como a Eurásia é interligada”, afirmou.
O papel da China é central nesse processo. Além de ser um mercado para petróleo e outros produtos iranianos, Pequim pode fornecer capital, tecnologia e infraestrutura para projetos que empresas ocidentais deixam de explorar por causa das restrições impostas pelos Estados Unidos.
Escobar citou também o setor de gás natural. Segundo ele, novas reservas ampliam o potencial energético iraniano e abrem espaço para investimentos de parceiros chineses e russos em caso de ausência de capital ocidental.
“Se eles não têm capital, os chineses vão entrar, a Gazprom vai entrar, os parceiros vão entrar”, disse.
Na avaliação do jornalista, as sanções contra o Irã acabam atingindo também os interesses de seus parceiros econômicos. No caso chinês, isso coloca Washington diante de uma potência com capacidade para rejeitar medidas extraterritoriais e sustentar mecanismos próprios de financiamento e pagamento.
Escobar considera que esse movimento integra uma transformação mais ampla da economia internacional, com governos euroasiáticos buscando reduzir sua vulnerabilidade ao sistema financeiro norte-americano.
O Irã aparece nesse processo como um país que acumulou experiência após décadas submetido a diferentes regimes de sanções. Segundo o analista, essa trajetória obrigou Teerã a desenvolver rotas comerciais, mecanismos financeiros e relações políticas capazes de manter parte considerável de sua economia conectada ao exterior.
Isso não significa, na avaliação apresentada por Escobar, que as sanções não produzam efeitos sobre a população ou sobre determinados setores econômicos. Sua tese é que elas deixaram de representar um instrumento capaz de bloquear completamente o país ou obrigá-lo a alterar sua política externa.
A ampliação das relações econômicas com China, Rússia e vizinhos transforma a pressão dos Estados Unidos em mais um fator de aceleração das alternativas ao dólar.
Para Escobar, é justamente essa mudança que limita a nova ofensiva econômica de Washington contra Teerã: quanto mais os Estados Unidos utilizam o sistema financeiro como instrumento de coerção, maior se torna o incentivo para que os países atingidos construam mecanismos capazes de operar fora dele.
“Essas sanções não funcionam”, concluiu.
FOTO: DALL-E
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/pepe-escobar-o-ira-aprendeu-a-driblar-as-sancoes-dos-eua/