Para Pepe Escobar, o mundo ingressa em uma fase em que o centro do império norte-americano, desarticulado internamente e humilhado nas urnas, torna-se mais temível.
247 – A leitura de que a derrota acachapante nas eleições de meio de mandato (midterms) pacificaria ou conteria o ímpeto da Casa Branca ignora a mecânica psicológica e institucional do poder em Washington. Em análise contundente gravada diretamente de Xangai, o analista geopolítico Pepe Escobar traçou um diagnóstico sombrio para os próximos meses: desprovido de base parlamentar e formalmente reduzido à condição de lame duck (pato manco), Donald Trump não recuará; pelo contrário, deverá se tornar substancialmente mais errático, agressivo e perigoso.
A perda simultânea da Câmara dos Representantes e do Senado para o Partido Democrata transformou a política interna norte-americana em um campo minado de vetos e paralisia legislativa. Contudo, é justamente no vácuo de poder doméstico que a prerrogativa quase imperial da política externa norte-americana se agiganta, transformando o Salão Oval em um reduto imprevisível.
O perigo do governante sem nada a perder
O núcleo da tese sustentada por Escobar repousa na assimetria entre a governança doméstica e o comando das forças armadas. Incapaz de aprovar medidas no Capitólio, o Executivo refugia-se na única arena em que ordens não dependem de deliberação parlamentar imediata: o teatro militar externo.
- O narcisismo ferido como catalisador bélico: Segundo Escobar, a humilhação imposta pelo eleitorado americano atinge diretamente o ego da liderança republicana. Sem perspectiva de recompor maioria até o fim do mandato e com a carreira política no horizonte final, caem as amarras convencionais de contenção política e cálculo eleitoral de curto prazo.
- A regra de Roy Cohn: A formação política de Trump baseia-se na cartilha de jamais admitir recuos, erros ou derrotas. Quando encurralado, o manual exige dobrar a aposta e intensificar o ataque, deslocando o foco da crise interna para conflagrações externas.
- A janela da transição: O intervalo de dois meses até a posse formal do novo Congresso, no início de janeiro, configura o período de maior instabilidade operacional, durante o qual decisões unilaterais podem ser precipitadas antes da instalação de investigações parlamentares.
Do impasse no Golfo aos planos de escalada
Para além da política doméstica, Escobar pontua que a campanha militar no Oriente Médio, longe de alcançar os objetivos de decapitação rápida traçados inicialmente pelos planejadores do Pentágono, converteu-se em um atoleiro geopolítico que cobrou seu preço nas urnas americanas via inflação, alta dos combustíveis e custo de vida insustentável.
Contudo, a recusa em aceitar a derrota estratégica alimenta planos de escalada cada vez mais extremos no Conselho de Segurança Nacional e no Comando Central (Centcom):
- Tentativas de quebra de impasse assimétrico: Discussões em torno de ataques direcionados a complexos subterrâneos e sítios nucleares persas, bem como projetos de desembarque aéreo em ilhas-chave no Estreito de Ormuz (como Kharg e Larak).
- Purgas e bodes expiatórios: Enquanto a beligerância externa tende a aumentar, a responsabilidade operacional pelos fracassos anteriores começa a ser empurrada para figuras do establishment de defesa e do Pentágono, preparando terreno para expurgos e reconfigurações no comando militar.
- Frentes indiretas e guerras por procuração: O endurecimento retórico e medidas punitivas também tendem a transbordar para aliados e regimes externos, servindo de válvula de escape para uma administração que buscará infligir custos a adversários antes da perda efetiva do controle orçamentário em Washington.
O tabuleiro global e a alternativa diplomática
A postura agressiva projeta uma colisão inevitável com a nova realidade eurasiana. Conforme destaca Escobar, o eixo Moscou-Pequim opera em coordenação estratégica madura, pronto para oferecer saídas negociadas em fóruns multilaterais — como os diálogos em torno da APEC —, mas ciente de que negociará a partir de posições consolidadas no terreno.
Para Pepe Escobar, o mundo ingressa em uma fase em que o centro do império norte-americano, desarticulado internamente e humilhado nas urnas, torna-se mais temível precisamente por sua fraqueza estrutural: sem ferramentas de conciliação política e com a autoridade parlamentar estilhaçada, a Casa Branca aposta suas últimas fichas na truculência pura.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/pepe-escobar-trump-foi-derrotado-pelo-ira-e-entrara-em-fase-de-furia-e-agressividade-maxima/