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Pequim não obedece ao império; Teerã resiste

Trump buscava projetar força, mas regressa da China sem resultados concretos no esforço de isolar ou enquadrar a República Islâmica.

Donald Trump retorna de sua passagem pela China sem a demonstração de força que desejava projetar ao mundo. Sem concessões públicas relevantes, sem alinhamento estratégico visível de Pequim contra Teerã e sem a imagem de um líder capaz de reorganizar, à força, o tabuleiro geopolítico global.

O episódio, por si só, já seria eloquente. Mas, inserido no contexto mais amplo do fortalecimento estratégico do Irã e da crescente incapacidade dos Estados Unidos de impor sua vontade política a adversários centrais, ele se transforma em símbolo do esgotamento da velha ilusão unipolar.

Durante décadas, os Estados Unidos construíram sua hegemonia internacional sobre princípio de que qualquer Estado que desafiasse sua arquitetura de poder pagaria um preço intolerável.

Sanções econômicas devastadoras, isolamento diplomático, sabotagens, guerras por procuração, assassinatos seletivos e intervenções militares diretas formaram o repertório coercitivo da ordem internacional do pós-Guerra Fria.

Mas hegemonia não se mede apenas por arsenais. Mede-se pela capacidade de transformar superioridade material em obediência política.

E esse mecanismo começa a falhar.

O caso iraniano é particularmente revelador. Durante anos, os Estados Unidos apostaram que o Irã acabaria estrangulado pelo peso combinado de sanções, pressão militar e isolamento diplomático. A lógica parecia incontestável, elevando o custo da resistência até que ela se tornasse insustentável.

O resultado foi outro. Apesar de décadas de cerco econômico, ameaças constantes e campanhas sistemáticas de desestabilização, o Irã não colapsou.

Ao contrário, consolidou sua capacidade industrial militar, fortaleceu sua dissuasão regional, aprofundou seus vínculos estratégicos com Rússia e China e converteu sua sobrevivência em capital político diante de um Sul Global que observa, com atenção, os limites do poder coercitivo ocidental.

A recente dinâmica diplomática apenas reforça essa percepção.

Trump buscava projetar força, mas regressa da China sem resultados concretos no esforço de isolar ou enquadrar a República Islâmica.

A China, por razões energéticas, comerciais e geopolíticas, não demonstra qualquer disposição séria de subordinar sua estratégia regional às prioridades dos Estados Unidos. Pequim compreende o Irã como peça relevante em sua arquitetura eurasiática e em sua disputa estrutural com os Estados Unidos.

Essa recusa importa mais do que aparenta.

Porque hegemonia também é percepção. Quando aliados, parceiros ou rivais deixam de acreditar na inevitabilidade da vontade imperial, a arquitetura psicológica do poder começa a se deteriorar.

Foi assim no Vietnã. Foi assim no Iraque. Foi assim no Afeganistão.

Agora, o Irã adiciona uma nova camada a essa erosão.

Não porque tenha derrotado militarmente os Estados Unidos numa guerra convencional, mas porque demonstrou que resistir já pode ser, em si, uma forma de redistribuição de poder.

Esse ponto merece precisão. Não se trata de romantizar o cenário iraniano. O país enfrenta severos custos econômicos, pressões financeiras, limitações estruturais e desafios internos significativos. Geopolítica não é uma competição de sofrimento, mas uma análise de correlação de forças.

E, nesse terreno, o simples fato de não sucumbir já altera cálculos estratégicos internacionais.

O Irã, evidentemente, não é o único motor da transição global em curso. A ascensão chinesa, a resiliência russa, a ampliação dos BRICS, a crise de legitimidade das guerras ocidentais e a erosão relativa da centralidade do dólar compõem um quadro muito mais amplo.

E o Irã se tornou um acelerador relevante dessa transformação.

Seu exemplo interessa a diversos países do Sul Global, não necessariamente por afinidade ideológica, mas por pragmatismo estratégico. O que se observa é a possibilidade concreta de desafiar a ordem coercitiva dominante sem colapso imediato, algo que, há duas décadas, pareceria impensável.

Esse talvez seja o dado mais disruptivo do momento.

A ordem internacional do pós-Guerra Fria operava sob a convicção de que desafiar os Estados Unidos significava punição certa e devastadora. Hoje, essa equação perdeu parte de sua força persuasiva.

Isso não significa o colapso imediato da primazia norte-americana. Os Estados Unidos seguem como a principal potência militar do planeta, com capacidade de projeção global, domínio tecnológico e poder financeiro incomparável.

Mas hegemonias não desaparecem de um dia para o outro. Elas se desgastam. Desmoronam por acúmulo de fracassos estratégicos, perda de legitimidade e incapacidade crescente de impor disciplina política ao sistema internacional.

O retorno de Trump de mãos vazias da China, diante de um Irã mais resiliente e de uma ordem internacional menos obediente, oferece uma imagem precisa desse momento histórico.

Não se trata ainda do fim da hegemonia norte-americana.

Mas era da obediência automática ao poder unipolar parece cada vez mais próxima do fim.

Foto: RS/Fotos Públicas

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/pequim-nao-obedece-ao-imperio-teera-resiste