O Brasil vive em abril de 2026 um dos momentos de maior tensão no mercado de combustíveis da última década. Enquanto o conflito no Oriente Médio empurra o petróleo Brent para patamares alarmantes — superando os US$ 100 por barril —, a Petrobras mantém uma estratégia de contenção que criou um abismo entre os preços praticados nas suas refinarias e a cotação global.
Segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) e consultorias como a StoneX, a defasagem do diesel atingiu o nível crítico de 77% nesta primeira semana de abril. Na prática, o combustível sai das refinarias da estatal cerca de R$ 2,60 a R$ 3,00 mais barato do que o produto importado.
O Histórico Recente e o “Nó” dos Preços
O último movimento oficial da Petrobras no diesel ocorreu em *14 de março de 2026, com um reajuste de *R$ 0,38 (11,6%). Na ocasião, a companhia atribuiu a alta diretamente à instabilidade geopolítica e ao fechamento parcial de rotas marítimas estratégicas, como o Estreito de Ormuz.
No entanto, o ritmo da guerra superou a velocidade dos ajustes internos. Enquanto o mercado internacional disparou 50% em pouco mais de um mês, a Petrobras optou por “segurar” o repasse para evitar um choque inflacionário imediato, utilizando sua nova política de preços que prioriza a estabilidade e o custo de oportunidade nacional em vez da paridade direta (PPI).
Como isso afeta o Brasil? Os Riscos em Jogo
A decisão de segurar os preços é uma faca de dois gumes. Se por um lado protege o bolso do caminhoneiro e o preço dos alimentos a curto prazo, por outro cria riscos estruturais graves:
1. Risco de Desabastecimento
O Brasil não é autossuficiente em refino de diesel. Cerca de 25% do que consumimos vem de importadores privados. Com a Petrobras vendendo 77% abaixo do preço lá fora, as importadoras param de comprar, pois teriam prejuízo ao tentar revender o produto no mercado interno. Se a Petrobras não conseguir suprir 100% da demanda nacional sozinha, pode haver falta de combustível em polos regionais.
2. Erosão do Caixa da Petrobras
Analistas de Wall Street estimam que a estatal pode estar deixando de arrecadar bilhões de reais por mês com essa defasagem. Isso afeta a capacidade de investimento da companhia e o pagamento de dividendos à União, o que impacta as contas públicas a longo prazo.
3. O “Efeito Represa” na Inflação
A história mostra que grandes defasagens tendem a resultar em reajustes bruscos no futuro. Se o petróleo não recuar, a “represa” de preços terá que ser aberta, gerando um choque inflacionário concentrado que pode desancorar as metas do Banco Central para o restante de 2026.
O Cenário da Gasolina
A gasolina também não escapa da pressão. A defasagem estimada gira entre 40% e 60% (dependendo do polo de venda), com uma diferença que chega a R$ 1,80 por litro em relação ao mercado internacional.
Perspectivas para Abril
O governo federal monitora a situação diariamente. Existe a possibilidade de novas medidas de subvenção ou ajustes no ICMS pelos estados para tentar mitigar o impacto, mas o mercado financeiro é unânime: com o Brent pressionado pela guerra, a manutenção de uma defasagem de 77% é insustentável por longos períodos sem comprometer a segurança energética do país.
O “Apocalipse do Petróleo” previsto por Wall Street parece estar batendo à porta, testando a resiliência da nova política de preços da maior empresa brasileira.
Foto: Pedro Teixeira/Agência Brasil
FONTE: Agência de Notícias ABJ – Associação Brasileira dos Jornalistas
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