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Petróleo a US$ 90: o novo risco inflacionário da economia global

No caso do Brasil, esse cenário chega justamente na semana da próxima reunião do Copom.

O Brent continua na faixa dos US$ 90 por barril, depois de ter recuado do pico próximo de US$ 120 que vimos recentemente. Ainda assim, o preço permanece bem acima das mínimas de US$ 60, que prevaleceram durante boa parte do início do ano. O que parece emergir agora é um cenário de estabilização em um patamar mais elevado.

Não estamos mais naquele momento de pânico inicial do mercado, mas o petróleo continua bastante pressionado. A situação geopolítica está longe de se resolver, especialmente na região do Estreito de Hormuz, onde persistem ataques a navios que tentam atravessar a área. Hoje mesmo surgiram novas notícias de bombardeios e de embarcações sendo atingidas, incluindo navios que tentavam cruzar a região. Há também relatos de ataques e tentativas de ataque em Dubai, inclusive próximos ao aeroporto. Tudo isso mostra que o conflito permanece ativo e a situação ainda é extremamente delicada.

Esse cenário tende a manter o preço do petróleo elevado, com impactos inflacionários relevantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, o preço da gasolina já subiu de cerca de US$ 3 por galão para US$ 3,30 ou US$ 3,40, uma alta superior a 10% em pouco tempo. A inflação americana é particularmente sensível ao preço da gasolina, o que torna esse movimento um fator de grande preocupação para os formuladores de política econômica.

Por outro lado, os dados mais recentes de inflação nos Estados Unidos mostram que, até fevereiro, o quadro ainda estava relativamente controlado. A inflação mensal veio em torno de 0,3%, em linha com o esperado, enquanto o núcleo ficou próximo de 0,2%. Em termos anuais, a inflação está rodando perto de 2,4%, com o núcleo em torno de 2,5%, números bastante razoáveis.

Se não fosse o choque recente do petróleo, tudo indicaria um cenário relativamente tranquilo para o início do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve, possivelmente no meio do ano. No entanto, o aumento do preço do petróleo complica esse quadro. Vale lembrar que os dados de inflação divulgados agora ainda refletem o período anterior à escalada recente do petróleo. O impacto desse choque deve aparecer mais claramente nos dados de inflação de março.

Assim, a grande questão passa a ser como o Federal Reserve irá reagir a esse novo risco inflacionário. O próximo presidente do Fed, Kevin Warsh, que assume em maio, pode encontrar já no início do mandato um cenário mais difícil, com pressão inflacionária vinda da alta da gasolina.

Portanto, temos hoje duas notícias distintas. A boa notícia é que a inflação americana parecia controlada até fevereiro, e os efeitos inflacionários da pandemia estavam praticamente superados. A má notícia é que o choque recente do petróleo muda parcialmente esse cenário.

Estamos falando de um petróleo que saiu de cerca de US$ 60 para US$ 90, uma alta de aproximadamente 50%, o que já representa um choque bastante relevante. Além disso, dificilmente veremos no curto prazo uma volta rápida para níveis próximos de US$ 70, principalmente porque houve danos importantes à infraestrutura energética da região.

Diversos bombardeios atingiram refinarias, oleodutos, portos especializados em petróleo e outras instalações energéticas no Oriente Médio, incluindo locais na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Isso significa que parte da capacidade produtiva foi afetada. Além disso, existe também um problema de capacidade de armazenamento, já que a região não possui infraestrutura suficiente para estocar grandes volumes de petróleo quando há dificuldade de transporte.

Como resultado, podemos ter uma redução natural da produção, tanto pela infraestrutura danificada quanto pela limitação logística. Isso sustenta previsões mais pessimistas para o preço do petróleo nos próximos meses.

No caso do Brasil, esse cenário chega justamente na semana da próxima reunião do Copom. O mercado começa a discutir um início de ciclo de cortes de juros possivelmente com 0,25 ponto percentual, seguido de uma trajetória bastante gradual. Já nos Estados Unidos, a perspectiva de corte de juros pode acabar sendo adiada, possivelmente para a segunda metade do ano, dependendo de como o choque do petróleo afetar a inflação.

FOTO: Freepik

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/petroleo-a-us-90-o-novo-risco-inflacionario-da-economia-global