Diretor-geral da Polícia Federal afirma que divulgação americana antecipou a ação e dificultou a localização de investigado.
247 – A Polícia Federal afirmou que a divulgação de sanções impostas pelos Estados Unidos contra dois brasileiros suspeitos de ligação com o crime organizado prejudicou a Operação Exchange, deflagrada nesta sexta-feira (3) contra um grupo investigado por lavar dinheiro do tráfico internacional de drogas.
As informações foram publicadas pelo Valor Econômico. Segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a decisão do governo dos Estados Unidos de tornar públicos os nomes dos sancionados antes da operação brasileira interferiu no andamento das investigações.
“Não posso entrar em detalhes operacionais, em razão do sigilo da investigação, mas, de fato, se não houvesse essa designação, talvez o desfecho fosse outro e a gente teria localizado essa pessoa, mas, infelizmente, não foi localizado, então houve um prejuízo à investigação”, afirmou Andrei Rodrigues, durante café da manhã com jornalistas.
Divulgação antecipada dificultou prisão
Embora não tenha citado nominalmente o investigado, a fala do diretor-geral faz referência a Victor Shimada, alvo de mandado de prisão temporária nesta sexta-feira e que não foi localizado pela PF. Shimada havia sido incluído nesta semana em uma lista de sanções do governo dos Estados Unidos por suposto envolvimento com o PCC.
A secretária de Shimada, Stella Oliveira, também sancionada pelos Estados Unidos, foi alvo de mandado de prisão e acabou detida pela Polícia Federal.
De acordo com o Valor Econômico, fontes ligadas à investigação afirmaram que o governo americano sabia que a PF investigava os alvos e que uma operação seria deflagrada contra eles quando decidiu divulgar os nomes dos sancionados.
PF pede cooperação mais ampla dos Estados Unidos
Questionado sobre o impacto da medida americana, Andrei Rodrigues afirmou que a Polícia Federal seguirá com seu método de trabalho, mas defendeu uma cooperação mais ampla dos Estados Unidos com o Brasil, especialmente em áreas como lavagem de dinheiro, bloqueio de bens e repatriação de foragidos.
“O que nós queremos, de fato, é que os Estados Unidos colaborem efetivamente nas operações, como nós temos uma colaboração histórica, especialmante na área de combate ao tráfico de drogas, mas que isso também avance para a questão de lavagem de dinheiro, de bloqueio de bens, para a repatriação de foragidos. Enfim, para todas as outras ações, que acho que muito mais que designar facção como grupo terrorista, se houver essa efetiva cooperação, nós teremos melhores resultados”, disse o diretor-geral da PF.
Também presente ao encontro com jornalistas, o diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF, Dennis Cali, afirmou que a operação já havia sido solicitada e autorizada pela Justiça Federal antes de o governo americano classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Segundo Cali, os alvos sancionados pelos Estados Unidos também são investigados naquele país. No caso de Shimada, ele teria movimentado valores nos Estados Unidos mesmo morando no Brasil, o que motivou apurações por parte das autoridades americanas.
“Tem uma investigação nos Estados Unidos que já estava em curso, assim como essa nossa investigação; também em razão dessa publicação (do governo americano), tivemos que adiantar e deflagrar a operação hoje. Então, tivemos algumas questões operacionais de identificação dos alvos, algumas confirmações que estavam ainda em curso sendo realizadas, mas, com a divulgação na imprensa (da sanção do governo americano), a gente adiantou e deflagrou a operação”, explicou Cali.
Quem são os investigados
Os nomes de Shimada e Stella Oliveira foram divulgados em site oficial do governo dos Estados Unidos. Com as sanções, os bens eventualmente mantidos pelos alvos em território americano são bloqueados. Empresas controladas direta ou indiretamente por eles, em percentual igual ou superior a 50%, também passam a ser atingidas pelas restrições.
O governo Trump, atual presidente dos Estados Unidos, classificou Shimada como um “elo-chave entre membros do PCC na Flórida e traficantes internacionais”. As autoridades americanas o acusam de lavar mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 156 milhões) em recursos ilícitos gerados em várias cidades dos Estados Unidos, utilizando criptomoedas para remeter valores ao Brasil em nome do PCC.
No Brasil, Shimada também é investigado por suspeita de envolvimento em operações de lavagem de dinheiro relacionadas ao caso VaideBet, que apura desvios de recursos do contrato de patrocínio entre o Corinthians e a casa de apostas.
Apesar da sanção americana, Andrei Rodrigues afirmou que o caso investigado pela PF não teria relação direta com a atribuição de vínculo com facção feita pelos Estados Unidos.
“Esse caso concreto não guarda relação com essa atribuição de facção ou de sanção que foi feita ao sujeito”, declarou o diretor-geral.
Operação Exchange identificou movimentações bilionárias
Segundo a PF, as investigações apontam para a existência de um sistema estruturado de movimentação de recursos, com transferências ilícitas de criptoativos, transporte de valores em espécie, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas e jurídicas e outras atividades financeiras.
A análise preliminar identificou movimentações superiores a R$ 10 bilhões. A Justiça também determinou o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o montante total de R$ 10,4 bilhões.
Ao todo, mais de 50 policiais federais cumprem 11 mandados de prisão temporária e 13 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba.
A Operação Exchange amplia o cerco contra estruturas financeiras suspeitas de movimentar recursos do crime organizado e expõe uma tensão operacional levantada pela Polícia Federal: segundo seus dirigentes, ações internacionais de combate ao crime produzem melhores resultados quando acompanhadas de coordenação entre as autoridades dos países envolvidos.
FOTO: Andressa Anholete/Divulgação
FONTE: https://www.brasil247.com/brasil/pf-diz-que-sancao-dos-eua-prejudicou-operacao-contra-suspeitos-de-lavar-dinheiro-do-crime-organizado/