Presidente do IBGE detalha o significado geopolítico da vitória de Lula e defende soberania digital contra o monopólio das big techs.
247 – A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato não representa apenas mais um marco na cronologia eleitoral brasileira: consolida o mais longevo ciclo democrático da história republicana nacional e coloca o país diante de encruzilhadas estruturais decisivas. Em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, o economista e presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Márcio Pochmann, traçou um panorama aprofundado sobre as forças geopolíticas, tecnológicas e demográficas que redefinem o Brasil e exigem uma refundação na maneira como o Estado pensa e executa suas políticas públicas.
Uma inflexão democrática de alcance internacional
Ao analisar o peso institucional do pleito, Pochmann destacou que a consolidação da liderança de Lula estabelece uma barreira concreta contra a onda conservadora e de extrema-direita que vinha ganhando fôlego internacionalmente nos últimos anos. Para o economista, o resultado não deve ser reduzido ao triunfo de uma figura política ou de uma legenda partidária isolada. “A vitória de Lula consolida a democracia e abre um novo ciclo progressista”, disse ele.
O processo sinaliza a continuidade e o fortalecimento do pacto inaugurado pela Nova República, que muitos teóricos julgavam ferido de morte após a crise política de 2016 e a ascensão de governos de extrema-direita. Mais do que garantir estabilidade interna, a vitória posiciona o Brasil em uma nova correlação de forças geopolíticas, capaz de abrir um novo ciclo progressista regional e recompor pontes multilaterais com a América Latina, a Europa e o Sul Global.
Soberania digital e o desafio das Big Techs
Um dos pontos mais enfáticos levantados pelo presidente do IBGE diz respeito à disputa em torno da tecnologia e do poder informacional. A campanha eleitoral explicitou a urgência de impor limites regulatórios e políticos ao avanço das grandes corporações transnacionais de tecnologia, as chamadas Big Techs.
Pochmann advertiu para a fragilidade da soberania nacional diante da constatação de que cerca de 78% do processamento de dados do Brasil encontra-se sob o controle de conglomerados estrangeiros — em sua imensa maioria estadunidenses —, sujeitos a marcos jurídicos externos que podem exigir a quebra de sigilo e a exposição de dados estratégicos.
A analogia histórica utilizada pelo economista resgata o período medieval: sem a construção de mecanismos públicos de regulação e controle de dados, a sociedade caminha para uma nova concentração monopolista do saber, na qual poucas empresas privadas passam a tutelar o conhecimento global, ditando as regras de governança das populações. Para contrapor essa assimetria, o economista defendeu a criação de uma infraestrutura soberana de nuvem brasileira e o desenvolvimento de Inteligências Artificiais com finalidade pública e comunitária, voltadas ao bem-estar coletivo e não exclusivamente ao lucro corporativo. Assista:
FOTO: Ricardo Stuckert
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/pochmann-a-vitoria-de-lula-consolida-a-democracia-e-abre-um-novo-ciclo-progressista/