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Por que a “capacidade” está se tornando a espinha dorsal industrial da China

A aposta em inovação, tecnologia e qualificação produtiva redefine o papel das fábricas chinesas e reposiciona o país na disputa industrial global.

Por décadas, a ascensão industrial da China foi medida em fábricas e contêineres de carga, no zumbido constante da produção em massa. A escala era soberana. O volume de produção era a métrica de poder. Hoje, essa era começa a se dissipar silenciosamente.

A capacidade — e não o volume puro — passa a definir a força industrial. As fábricas deixaram de ser apenas máquinas de produção; tornaram-se motores de inovação, onde inteligência artificial, robótica e engenhosidade humana convergem.

O índice de gerentes de compras (PMI) da indústria manufatureira da RatingDog em janeiro subiu para 50,3, ante 50,1 em dezembro, marcando o segundo mês consecutivo acima do limiar entre contração e expansão e o ritmo de crescimento mais rápido em três meses, segundo o Investing.com.

Os novos pedidos, incluindo exportações, cresceram pelo oitavo mês consecutivo. O emprego aumentou pela primeira vez em três meses, enquanto estoques mais enxutos sinalizam uma produção mais inteligente, e não apenas maior volume.

Do volume ao valor

O retrato do PMI ajuda a explicar por que a China está redirecionando sua estratégia industrial do volume para a capacidade.

O 15º Plano Quinquenal da China prevê explicitamente a manutenção de uma participação razoável da manufatura, ao mesmo tempo em que constrói um sistema industrial moderno ancorado na manufatura avançada, segundo a Agência de Notícias Xinhua.

O presidente Xi Jinping reforçou essa orientação, destacando que sustentar a participação da manufatura e promover vigorosamente setores avançados é essencial para a modernização.

A mensagem é clara: a escala, por si só, não levará a China adiante. As fábricas precisam inovar, integrar-se e antecipar a demanda global.

Fábricas como espinha dorsal

A manufatura avançada é a espinha estrutural do sistema industrial chinês. O Centre for Economic Policy Research (CEPR) observa que a produção da China supera o total combinado das nove maiores economias manufatureiras seguintes, tornando a atualização da capacidade não apenas desejável, mas imperativa.

O Fundo Monetário Internacional destacou essa resiliência ao afirmar que “a economia da China demonstrou notável resiliência apesar de enfrentar múltiplos choques nos últimos anos”, o que reflete a importância da profundidade estrutural e da visão de políticas para sustentar o crescimento.

Pesquisas da OCDE acrescentam outra dimensão: inovação, investimento em P&D e desenvolvimento de habilidades da força de trabalho são alavancas cruciais para a competitividade industrial e a resiliência de longo prazo.

No plano doméstico, robótica, equipamentos de alta tecnologia, manufatura digital e veículos de nova energia vêm registrando crescimento de maior valor agregado do que a manufatura tradicional, demonstrando os benefícios concretos da guinada em direção à capacidade.

Capacidade acima da capacidade produtiva

O PMI de janeiro conta uma história de transformação. As fábricas já não são meras máquinas de volume. Os pedidos são estáveis, o emprego cresce e os estoques são enxutos. A produção agora integra inteligência artificial (IA), automação e sistemas digitais, elevando tanto a qualidade quanto a eficiência do produto.

Análises da OCDE enfatizam que políticas industriais vinculadas ao desenvolvimento de capacidades — automação, redes de inovação e atualização das competências da força de trabalho — posicionam as economias para capturar oportunidades de alto valor e resistir à volatilidade global.

Pesquisas da McKinsey corroboram esse entendimento: os investimentos chineses em manufatura avançada permitem que as empresas ascendam na cadeia global de valor, melhorando tanto a lucratividade quanto a competitividade.

Mesmo sob uma ótica europeia, o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia observa que a competitividade depende cada vez mais da integração tecnológica, e não apenas da escala, em consonância com a estratégia chinesa.

Essa convergência entre políticas, dados e análises especializadas deixa claro: na próxima era da China, a capacidade — e não a capacidade produtiva bruta — definirá o sucesso industrial.

Contexto global e implicações estratégicas

A virada em direção à manufatura avançada ocorre em meio à reorganização das cadeias globais de suprimentos, à intensificação da competição tecnológica e ao aumento dos padrões de sustentabilidade.

O Banco Mundial observa que economias que investem em estratégias industriais orientadas por capacidade estão mais protegidas contra oscilações de commodities e choques geopolíticos.

Para a China, incorporar a capacidade ao sistema industrial garante acesso a segmentos de mercado de maior valor, autonomia tecnológica e desenvolvimento de habilidades da força de trabalho, reforçando a resiliência em um ambiente global incerto.

Olhando para o futuro

As fábricas chinesas estão se estabilizando, inovando e se transformando. O aumento dos pedidos, o crescimento do emprego e os estoques mais enxutos indicam um impulso na direção correta. O desafio não é o crescimento em si, mas a forma como ele é alcançado: incorporando capacidades sistêmicas em todas as camadas da produção.

Nesta nova era, as fábricas não serão mais avaliadas apenas pelo volume. Serão julgadas pela resiliência, inteligência e inovação — as marcas da espinha dorsal industrial.

Ao investir em capacidade hoje, a China lança as bases para um crescimento sustentável e de alta qualidade, assegurando uma posição de liderança na hierarquia global da manufatura.

FOTO: Pixabay

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/por-que-a-capacidade-esta-se-tornando-a-espinha-dorsal-industrial-da-china