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Por Que a China Disparou Enquanto o Brasil Estagnou: Lições Cruciais

Introdução

Nos anos 80, uma cena hoje impensável era comum: burocratas chineses visitavam o Brasil, maravilhados com nosso nível de desenvolvimento e com a grandiosidade de projetos como a usina de Itaipu. Hoje, a situação se inverteu de forma dramática. Enquanto brasileiros visitam a China e se espantam com sua infraestrutura futurista, o Brasil permanece preso na armadilha da renda média, com a mesma renda per capita de três décadas atrás.

O que explica essa inversão histórica? As estratégias opostas que os dois países adotaram nos anos 90 são a chave para entender por que seus resultados foram tão diferentes. Este artigo destila as lições mais impactantes dessa comparação em uma lista clara e direta, mostrando como as decisões do passado definiram o presente de cada nação.

  1. Enquanto o Brasil Privatizava, a China Mantinha o Controle Estratégico

Nos anos 90, o Brasil seguiu à risca a “cartilha neoliberal”. Entre 1991 e 2002, o país vendeu mais de 80 empresas estatais, transferindo para o setor privado o controle de setores estratégicos. A lista é extensa: 8 siderúrgicas, 27 petroquímicas, 5 de fertilizantes, 30 elétricas, 7 ferroviárias e 4 portos foram privatizados.

Em contraste direto, a China adotou a abordagem oposta. O governo manteve o controle de 95 a 100 grandes empresas estatais, garantindo o domínio sobre setores estratégicos como telecomunicações, energia e siderurgia. Essa divergência inicial na gestão de ativos nacionais é o ponto de partida fundamental para compreender os caminhos radicalmente distintos que cada país trilhou nas décadas seguintes.

  1. A Promessa da Privatização vs. a Realidade da Desindustrialização

A onda de privatizações no Brasil veio acompanhada de uma promessa clara: as vendas trariam mais eficiência, reduziriam custos e atrairiam um fluxo massivo de investimento estrangeiro, tornando o país mais competitivo. A mentalidade da época foi perfeitamente capturada em uma declaração de Gustavo Franco, em entrevista à Veja em 2000:

“a venda das estatais a grupos estrangeiros foi uma verdadeira jogada esperta dos brasileiros”

A realidade, no entanto, foi bem diferente. A venda das estatais desarticulou o principal mecanismo de coordenação da economia, já que essas empresas funcionavam como provedoras de externalidades positivas para o resto da indústria. Combinada a uma abertura comercial com câmbio valorizado e juros altos, a privatização destruiu elos inteiros de cadeias produtivas. O resultado foi um aumento de custos, com tarifas de serviços essenciais sendo indexadas, e a destruição de importantes centros de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), como o da Telebras, que foi praticamente desativado. O investimento estrangeiro que chegou se concentrou em fusões e aquisições de empresas existentes, e não na criação de nova capacidade produtiva.

  1. A China Usou o Capital Estrangeiro Para Aprender, Não Apenas Para Vender

A China também buscou o capital estrangeiro, mas com uma estratégia diametralmente oposta. O objetivo não era simplesmente vender ativos, mas usar as multinacionais para absorver tecnologia e construir uma base produtiva própria e robusta. Para isso, o país implementou uma série de táticas calculadas:

  • Criação de zonas especiais de exportação com infraestrutura de ponta e isenções fiscais.
  • Uma desvalorização brutal do yuan em 1994, que levou a moeda para 8-9 por dólar, tornando suas exportações ultracompetitivas.
  • Exigência de joint ventures, forçando empresas estrangeiras a se associarem com empresas locais para transferir conhecimento e tecnologia.

O resultado dessa estratégia foi avassalador. Gigantes como a Apple moveram sua produção para o país (a Foxconn chegou a empregar 700 mil pessoas para fabricar iPhones), e a China se transformou na fábrica do mundo, acumulando US$ 4 trilhões em reservas. Em 2019, o país detinha 10,4% das exportações mundiais, superando potências como Estados Unidos, Alemanha e Japão.

  1. O Abismo da Inovação: De Potência Admirada a Líder em Patentes

Os dados sobre inovação revelam o abismo que se abriu entre os dois países. Em 2021, a China registrou 607 mil patentes — 38% do total mundial, três vezes mais que os EUA, três vezes mais que o Japão e quatro vezes mais que a Coreia do Sul. Hoje, o país investe cerca de US 400 bilhões por ano em P&D; o Brasil, em comparação, investe míseros US 20 bilhões.

Essa liderança se traduz em domínio tecnológico real: a Huawei controla 80% das patentes mundiais de 5G; o país produz semicondutores de 7 nanômetros, aviões comerciais que competem com Boeing e Airbus, 70% dos painéis solares do mundo e lidera a produção de baterias e veículos elétricos. O exemplo de Shenzhen ilustra essa transformação de forma concreta: o que era uma vila de pescadores em 1979 hoje é uma megalópole de 15 milhões de habitantes e um dos principais polos de inovação do planeta. Enquanto isso, o Brasil estagnou: temos a mesma renda per capita de 1995 e produzimos o mesmo volume de aço de 20 anos atrás.

  1. A Lição Final: Pragmatismo Estratégico Supera a Ideologia Pronta

A comparação entre Brasil e China não é uma disputa entre comunismo e capitalismo. A lição central é a superioridade do pragmatismo sobre a ideologia. O sucesso chinês não veio de um modelo puro, mas de um sistema híbrido que soube combinar a força do Estado com a dinâmica do mercado.

A China rejeitou a “terapia de choque” — a liberalização rápida e irrestrita. O país aprendeu sua lição na prática: após a crise de Tiananmen em 1989, uma breve tentativa de liberalizar preços gerou uma inflação de 25%, fazendo o governo recuar e voltar ao gradualismo. Em contraste, a Rússia aplicou a terapia de choque total nos anos 90 e só recuperou o PIB de 1990 em 2015. O Brasil aplicou uma versão intermediária e ficou estagnado. A grande lição é a diferença fundamental entre ter uma estratégia de desenvolvimento nacional e simplesmente seguir “cartilhas prontas do exterior”.

Conclusão: A Pergunta que Permanece

As escolhas estratégicas feitas há mais de 30 anos definiram as realidades drasticamente diferentes que Brasil e China vivem hoje. De um lado, um país que se tornou líder tecnológico global; do outro, uma nação que não conseguiu avançar. A análise dessa trajetória deixa uma questão final e provocativa.

“A pergunta que fica é: vamos continuar insistindo em modelos que já provaram não funcionar, ou finalmente vamos aprender com quem acertou?”

FONTE: https://www.paulogala.com.br/por-que-a-china-disparou-enquanto-o-brasil-estagnou-licoes-cruciais/