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Por que os EUA querem retaliar o Brasil por causa do Pix?

Investigação dos EUA associa o Pix a vantagem comercial brasileira e reacende debate sobre cartões, juros e soberania financeira.

247 – O Pix virou alvo dos EUA em uma disputa bilionária que envolve soberania financeira, cartões de crédito, juros elevados e o mercado de pagamentos no Brasil, afirma o engenheiro Miguel Manso (*), pesquisador da Fundação Maurício Grabois. Seu artigo analisa a investigação concluída em 1º de junho de 2026 pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que propôs tarifas adicionais de 25% sobre a maior parte das exportações brasileiras.

Miguel Manso comenta que uma das justificativas apresentadas pelo governo norte-americano é a acusação de que o Brasil estaria favorecendo seu “campeão nacional” nos serviços de pagamentos eletrônicos, referência associada ao Pix. A partir dessa acusação, o artigo discute como um sistema criado pelo Banco Central do Brasil passou a ser tratado pelos Estados Unidos como um problema comercial.

O peso do mercado de cartões no Brasil

O texto sustenta que a disputa em torno do Pix precisa ser compreendida a partir do tamanho do mercado brasileiro de crédito, do peso das bandeiras internacionais de cartões e dos impactos causados pelo sistema de pagamentos instantâneos sobre um dos setores mais lucrativos do sistema financeiro.

No Brasil, o crédito ao consumidor é formado principalmente por empréstimos sem garantia, cartões de crédito, crédito rotativo e empréstimos consignados. Segundo os dados citados no artigo, a Serasa aponta os cartões de crédito como a principal fonte de inadimplência dos consumidores brasileiros.

Em maio de 2020, durante a pandemia, a instituição registrou 65,23 milhões de consumidores inadimplentes. Em 2022, mais de 84 milhões possuíam saldo devedor, um crescimento de 30,9% em três anos. Em março de 2024, 72,89 milhões de consumidores estavam inadimplentes, o equivalente a 44,3% da população adulta, sendo 50,4% mulheres. No mesmo período, 46,41% das dívidas não pagas no país estavam relacionadas a serviços financeiros.

O artigo também menciona que o Banco Central do Brasil passou a monitorar consumidores em situação de risco diante do avanço do superendividamento. O levantamento indicou que pessoas com mais de um cartão de crédito, geralmente emitidos por até três instituições diferentes, costumam acumular dívidas em mais de uma linha, frequentemente justamente na modalidade mais cara.

Visa e Mastercard dominam o mercado brasileiro

A análise destaca o domínio de bandeiras norte-americanas no mercado de cartões de crédito no Brasil. Segundo dados consolidados do Banco Central repassados ao Nexo Jornal e citados no artigo, Mastercard e Visa concentram juntas 89,2% dos cartões ativos no país.

A Mastercard aparece na liderança, com 52% do mercado e mais de 129 milhões de cartões ativos. A Visa ocupa a segunda posição, com 37,2% e cerca de 68 milhões de cartões. A Elo, bandeira brasileira, tem participação estimada entre 3% e 4,3%, com aproximadamente 9,1 milhões de cartões. A American Express atua em nichos de maior renda e possui cerca de 0,4% de participação, com pouco mais de 831 mil cartões emitidos por parceiros como Bradesco e Santander.

Para o autor, o Brasil é um mercado altamente atrativo para essas operadoras porque combina expansão do consumo, alto volume de operações e taxas de juros muito superiores às praticadas em economias centrais. O texto afirma que, enquanto nos Estados Unidos as taxas de cartão de crédito se mantiveram entre 12% e 16% ao ano durante grande parte do período de 1994 a 2019, no Brasil o crédito rotativo frequentemente ultrapassou 400% ao ano.

O artigo também sustenta que, para populações mais vulneráveis, os juros podem superar 900% a 1.000% ao ano. Esse quadro transforma o cartão de crédito em um dos maiores custos financeiros para as famílias brasileiras, sobretudo para os consumidores de menor renda.

Pix reduziu custos e afetou receitas do setor financeiro

A expansão do Pix é apresentada como um fator de ruptura nesse modelo. Segundo o texto, a maior parte da receita das bandeiras de cartão vem das taxas cobradas sobre transações realizadas por estabelecimentos comerciais. Com o Pix, essa estrutura foi pressionada por uma alternativa de custo muito inferior.

O artigo afirma que, enquanto um lojista paga em média 2,34% do valor de uma venda feita com cartão de crédito, uma operação via Pix custa cerca de 0,33%. Para o consumidor, o Pix é gratuito, o que ajudou a acelerar sua adoção em massa no país.

Em 2024, o Pix processou cerca de 64 bilhões de transações, superando o volume anual combinado de Visa e Mastercard no Brasil, segundo os dados citados no texto. Apenas no terceiro trimestre daquele ano, o número de operações feitas pelo sistema foi 80% maior do que o total registrado por cartões de débito e crédito somados.

O impacto também atingiu os bancos. Entre 2019 e 2023, os cinco maiores grupos financeiros do país — Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal — tiveram perda real estimada em R$ 14 bilhões em receitas de tarifas de serviços, como TED, DOC e pacotes de conta. O Pix aparece, no artigo, como um dos principais fatores dessa transformação.

Cartões não desaparecem, mas passam a disputar espaço

Apesar das perdas associadas ao avanço do Pix, o texto pondera que os cartões de crédito não tendem a desaparecer. A razão principal é o parcelamento sem juros, modalidade profundamente enraizada no consumo brasileiro.

O artigo afirma que Pix e cartão de crédito são usados para finalidades distintas. O Pix se consolidou em pagamentos cotidianos, como supermercado, contas e pequenas compras. Já o cartão segue relevante em compras de maior valor, como eletrônicos e móveis, especialmente quando o consumidor depende do parcelamento.

Relatórios de mercado citados no texto indicam que o crescimento do Pix não representa necessariamente uma ameaça existencial aos cartões. Em alguns casos, o sistema pode funcionar como porta de entrada para a bancarização: novos usuários começam usando o Pix e, após construírem histórico financeiro, passam a ter acesso ao primeiro cartão de crédito.

Ao mesmo tempo, o Pix tem incorporado funcionalidades antes associadas aos cartões. Modalidades como Pix Parcelado e Pix por Aproximação ampliam as possibilidades de uso e disputam espaços antes dominados pelas bandeiras tradicionais.

O Brasil, segundo o artigo, ultrapassou em 2025 a marca de um cartão de crédito por habitante, considerando uma população estimada em 213,4 milhões de pessoas. Em 2024, transações com cartões de crédito, débito e pré-pagos movimentaram aproximadamente R$ 4,09 trilhões, dos quais R$ 2,71 trilhões corresponderam apenas ao cartão de crédito. Em 2025, o volume total chegou a R$ 4,5 trilhões, com R$ 3,1 trilhões em operações de crédito, alta de 14,5% em relação ao ano anterior. Para 2026, as projeções apontam para um mercado superior a R$ 5 trilhões.

A comparação com o sistema de barracão

O artigo recorre à analogia histórica com o Truck System, conhecido no Brasil como sistema de barracão, armazém de fazenda ou montepio. Esse mecanismo consistia no pagamento de salários com vales ou fichas que só podiam ser usados no comércio controlado pelo próprio patrão.

Na prática, os trabalhadores recebiam sua remuneração não em dinheiro, mas em “papéis de aceitação restrita na localidade”, sendo obrigados a comprar alimentos, roupas e outros produtos nos armazéns da fazenda. Como os preços eram abusivos, muitos terminavam o mês devendo mais do que haviam recebido.

O texto lembra que o objetivo do sistema era prender o trabalhador à terra por meio do endividamento permanente. No Brasil, esse modelo foi amplamente utilizado especialmente após a abolição da escravidão, em 1888, e durante o período de imigração em massa no fim do século XIX e início do século XX.

A Consolidação das Leis do Trabalho combateu essa prática em seu artigo 462, ao proibir o pagamento de salários em vales, fichas ou formas que restrinjam a liberdade do trabalhador de dispor de sua remuneração. O Decreto-lei nº 229/67 também impôs limites à existência de armazéns de fazenda em locais remotos e sob fiscalização.

Crédito rotativo é comparado a uma nova forma de dependência

A partir dessa referência histórica, o artigo estabelece uma analogia entre o sistema de barracão e o crédito rotativo. Para o autor, modalidades como cartão de crédito e cheque especial, marcadas por juros extremamente elevados, reproduzem novas formas de dependência econômica.

O texto argumenta que, quando as famílias acumulam dívidas, bancos e cartões ampliam os juros cobrados dos endividados, drenando renda atual, salário futuro e poupança. A taxa, segundo o artigo, pode saltar de 400% para 900% ao ano para consumidores inadimplentes.

A análise sustenta ainda que o endividamento das famílias ultrapassa o orçamento doméstico e pressiona políticas públicas de combate à fome e à pobreza. Ao mesmo tempo, afirma o texto, bancos exercem pressão sobre o Estado, ampliando o poder do sistema financeiro sobre decisões econômicas nacionais.

Trump, Pix e a disputa por soberania financeira

É nesse contexto que o artigo situa a ofensiva comercial dos Estados Unidos contra o Brasil. Segundo o texto, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, impõe tarifas com o objetivo de pressionar o governo brasileiro em torno do Pix e favorecer o retorno de receitas às grandes bandeiras internacionais de cartão.

O artigo também critica setores bolsonaristas por apoiarem Trump nessa disputa. O texto menciona Flávio Bolsonaro e afirma que ele foi aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil.

A publicação original lista ainda documentos oficiais relacionados ao caso, como o texto completo da investigação do USTR, em inglês, sobre atos, políticas e práticas brasileiras consideradas injustificáveis pelo órgão norte-americano, além de manifestação do governo brasileiro sobre a conclusão preliminar anunciada pelo USTR.

(*) Miguel Manso é pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Desenvolvimento Nacional e Socialismo da Fundação Maurício Grabois, engenheiro eletrônico formado pela USP, com especialização em Telecomunicações pela Unicamp e em Inteligência Artificial pela UFV, além de diretor de Políticas Públicas da EngD – Engenharia pela Democracia. 

Foto: Brasil 247 / Dall-E

Fonte: https://www.brasil247.com/economia/por-que-os-eua-querem-retaliar-o-brasil-por-causa-do-pix