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Postura da Globo diante do presidente Lula envergonha o jornalismo brasileiro

Emissora acirra a tradição de ser parcial, agressiva e desrespeitosa com o candidato à reeleição. Entrevista no Jornal Nacional foi armadilha de provocações.

Quem procurou uma entrevista caiu em uma arapuca e assistiu a uma rinha. Era esperado um embate duro entre o presidente Lula e os entrevistadores do Jornal Nacional, César Tralli e Renata Vasconcellos, mas não se podia imaginar que, na prática, houvesse bate-boca, praticamente, do início ao fim. O superfoco da pauta nas investigações da Polícia Federal sobre o filho Fábio Luís e o ex-chefe de gabinete Marcola distorceu a proposta, ainda que mínima, de levar o público a julgar o candidato à reeleição por sua gestão e propostas – e não somente por ele saber ou não se desvencilhar de assuntos incômodos.

O que se teve foram perguntas policialescas, em tom ríspido, repletas de juízos de valores embutidos. Houve uma franca tentativa de fritura do presidente da República. Pensava-se que esse tipo de postura editorial fosse coisa do passado, mas segue atual dentro da Globo. A emissora não gosta de Lula, e deixou claro ontem que esse sentimento só se agrava. Com a sua reeleição em jogo, seria natural dar ao entrevistado o tratamento indicado pelas melhores cartilhas. O de presidente, portanto. Mas chamar Lula, todo o tempo, de candidato mostrou-se adequado demais para os fins de rebaixá-lo. O tipo de decisão que se toma nos bastidores para cumprimento em cena.

O assunto econômico do dia, que dava conta do menor desemprego da história do País e o recorde de 103 milhões de brasileiros com trabalho, não foi sequer mencionado. A ordem era a de superdimensionar problemas e omitir fatos que pudessem ser compreendidos como positivos para o governo.

Nitidamente, Lula mostrou surpresa e desconforto frente aos interrogadores. “Me sinto na Polícia Federal e no Ministério Público”, chegou a dizer, numa clara tentativa de amenizar o clima. Não deu certo. A ideia era mesmo constrangê-lo com questões carregadas de ilações, para esquentar o valor de investigações da PF e buscar caracterizar escândalos no entorno do presidente. Às favas com a falta de provas, a recorrência dessa estratégia e a quebra de protocolos de equilíbrio vigentes na prática do bom jornalismo.

Lula devolveu as perguntas enviesadas na mesma moeda. Ele rebateu a rispidez de Renata na questão do déficit fiscal com fogo nos olhos. Ambos chegaram ao limite da descortesia. Ruim para os dois lados. Nunca se vira antes uma pergunta da jornalista feita daquele modo, quase saindo da cadeira para mostrar indignação, nem uma resposta do presidente entremeada por tanta fúria contida e ironia.

No campeonato de cortes a que a entrevista só iria se prestar, Lula se sai hoje bem melhor nas redes sociais, com sua postura reativa e enérgica, do que os jornalistas em seu modo ataque destemperado. O presidente sofre uma queda por ter negado conhecer a insinuante lobista Roberta Luchsinger, com quem aparece em fotos tiradas em diferentes ocasiões. Hoje será a vez de Flávio Bolsonaro ir ao terreiro do JN. O vale-tudo continua ou agora vai ser diferente?

FOTO: Ricardo Stuckert

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/postura-da-globo-diante-do-presidente-lula-envergonha-o-jornalismo-brasileiro/