Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Proibição das bets supera crises políticas e domina debate nas redes em 2026

Medida do governo gerou 2,5 milhões de publicações e 40 milhões de interações em quatro dias, segundo levantamento.

247 – A decisão do governo federal de proibir as apostas on-line transformou o mercado das bets no tema político de maior repercussão nas redes sociais brasileiras dos últimos 12 meses, superando episódios como o caso “Dark Horse”, a condenação de Jair Bolsonaro e as recentes disputas entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque divulgado por O Globo, o anúncio da medida provisória provocou 1,33 milhão de menções somente nas primeiras 24 horas. Entre 25 e 28 de setembro, a discussão somou 2,5 milhões de publicações e 40 milhões de interações nas plataformas digitais.

A intensidade do debate não ficou concentrada no momento do anúncio. Nas primeiras horas, foram registradas até 85,8 mil publicações por hora. O tema voltou a ganhar força no sábado, com 75,4 mil posts por hora ao meio-dia, e teve uma terceira onda no domingo, quando alcançou 47,3 mil publicações por hora perto das 11h.

Para o instituto, a manutenção de volumes elevados durante três dias mostra que o assunto deixou de ser apenas uma reação imediata à iniciativa do governo e passou a alimentar uma disputa política mais ampla.

Proteção às famílias impulsiona apoio à medida

Entre as mensagens favoráveis à proibição, o argumento de maior alcance relacionou a medida à proteção das famílias contra o endividamento e a dependência provocados pelos jogos.

Esse eixo reuniu 1.912 publicações e alcançou 6,23 milhões de interações. A narrativa que apresentou a decisão como uma “vitória política e apoio ao governo” apareceu em 2.825 posts e somou 6,15 milhões de interações.

Outro grupo de publicações concentrou críticas a influenciadores digitais e à publicidade das plataformas de apostas. Apesar de ter reunido apenas 504 posts, esse conteúdo chegou a 4,78 milhões de interações.

A ampla repercussão da medida também foi identificada em outros levantamentos recentes. Dados publicados nesta semana apontaram aumento do apoio à proibição em portais de notícias, no X e no TikTok, enquanto emissoras de rádio e televisão registraram maior proporção de manifestações contrárias.

Oposição aposta em acusação de eleitoralismo

Do outro lado da disputa digital, críticos do governo concentraram a reação principalmente na acusação de que a proibição teria motivação eleitoral.

A narrativa classificada pelo levantamento como de “eleitoralismo, hipocrisia e responsabilidade do governo” reuniu 3.076 publicações e 5,87 milhões de interações.

Outro núcleo contrário à medida destacou possíveis perdas econômicas, redução da arrecadação e riscos de insegurança jurídica. Foram 1.873 posts e 3,28 milhões de interações.

A discussão também recuperou o histórico da legislação sobre apostas no país, incluindo a autorização das apostas de quota fixa em 2018 e os debates realizados no Congresso em 2023, usados por críticos para questionar a mudança de posição do governo.

Entidades e empresas do setor também têm contestado a proibição, argumentando que o banimento pode estimular a migração de apostadores para plataformas clandestinas.

“Tigrinho” entra no centro da disputa eleitoral

Os cassinos on-line, especialmente os jogos popularmente conhecidos como “Tigrinho”, tornaram-se um dos principais símbolos da controvérsia.

A narrativa que associava o governo à expansão dos cassinos digitais e apresentava a proibição como uma estratégia eleitoral respondeu por 34% das publicações analisadas. Segundo o levantamento, 74% desses conteúdos foram publicados por perfis identificados com a extrema-direita.

Flávio Bolsonaro passou a defender uma proposta diferente da proibição integral determinada pelo governo: manter as apostas esportivas e proibir os cassinos on-line e jogos como o Tigrinho.

Essa posição correspondeu a 11% das publicações avaliadas na análise qualitativa do instituto e gerou 1,07 milhão de interações.

A disputa em torno das bets ocorre na reta final da campanha eleitoral de 2026 e passou a ocupar espaço central na agenda política. Reportagem publicada nesta terça-feira registrou igualmente que a medida provocou 2,5 milhões de publicações e 40 milhões de interações em aproximadamente três dias.

Futebol e patrocínios também entram no debate

A repercussão ultrapassou a polarização eleitoral e atingiu diretamente o futebol brasileiro, setor que se tornou fortemente dependente de patrocínios de empresas de apostas nos últimos anos.

Publicações sobre os possíveis impactos da proibição nos clubes e nos contratos de patrocínio somaram 962 posts e 2,75 milhões de interações.

A tensão já produziu efeitos concretos. Clubes das Séries A a D articularam nesta terça-feira um boicote a uma reunião com representantes do governo destinada a discutir os efeitos da proibição, o que levou ao cancelamento do encontro.

Questões práticas relacionadas ao encerramento das operações também mobilizaram os usuários. Conteúdos sobre prazo para retirada de dinheiro, regras e possíveis punições corresponderam a apenas 7% das publicações analisadas, mas concentraram 24% de todas as interações desse recorte.

O desempenho nas redes colocou a proibição das bets acima de outros episódios políticos de forte repercussão recente, entre eles as controvérsias envolvendo o STF e a disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida. Esta última já havia alcançado quase 1 milhão de menções em cerca de 55 horas, segundo levantamento anterior do próprio Instituto Democracia em Xeque.

FOTO: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação I Agência Senado

FONTE: https://www.brasil247.com/midia/proibicao-das-bets-supera-crises-politicas-e-domina-debate-nas-redes-em-2026/