“Não é razoável dizer agora que essa circulação de recursos é ilícita. A gente vai ter que ter mais passos para constatar”, pondera Alessandro Vieira.
247 – A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado teve acesso a documentos que indicariam transferências financeiras do Banco Master para contas de familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A informação foi divulgada pelo relator da comissão, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), em entrevista ao programa Sala de Imprensa, do SBT News.
De acordo com Vieira, os dados foram obtidos a partir da quebra de sigilo bancário das contas do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Segundo o parlamentar, as informações apontam circulação de recursos envolvendo pessoas próximas aos magistrados do STF. O SBT News procurou o Supremo Tribunal Federal e os gabinetes dos ministros citados, mas informou que não havia recebido resposta até a publicação da reportagem.
Durante a entrevista, o senador afirmou que as informações levantadas pela comissão indicariam movimentações financeiras consideradas atípicas. “A gente tem informação que aponta circulação de recursos entre esse grupo criminoso e familiares dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Não é razoável dizer agora que essa circulação de recursos é ilícita. Moralmente falando, é absolutamente reprovável. Juridicamente falando, a gente vai ter que ter mais passos para constatar”, declarou.
Alessandro Vieira também é autor do pedido de criação da chamada CPI Toga Master, proposta destinada a investigar diretamente a relação entre ministros do Supremo e Daniel Vorcaro, além de executivos ligados ao banqueiro.
Relações com empresas e contratos
Em manifestações recentes, o ministro Dias Toffoli confirmou participação societária na empresa Maridt Participações, da qual é sócio junto com seus irmãos. Segundo informações já divulgadas, a empresa realizou negócios com o fundo Arleen, administrado pela Reag Investimentos, instituição citada nas investigações envolvendo o Banco Master. Em nota, Toffoli negou qualquer envolvimento nas fraudes investigadas.
No caso do ministro Alexandre de Moraes, o escritório de advocacia da esposa, Viviane Barci, reconheceu ter sido contratado para atuar em processos de interesse do Banco Master. O escritório afirmou que a prestação de serviços jurídicos não tem relação com o Supremo Tribunal Federal. Sobre um contrato estimado em R$ 128 milhões, a defesa declarou que 15 advogados participaram das causas envolvendo o banco.
Ainda na entrevista, Vieira questionou a natureza da contratação do escritório ligado à esposa de Moraes. “Quando o Master contrata o escritório de advocacia da esposa do Alexandre de Moraes, está contratando um serviço jurídico? Esse escritório prestou serviço correspondente aos valores recebidos? Até o momento, o indicativo é de que não”, afirmou.
Sobre o ministro Dias Toffoli, o senador acrescentou: “Sobre Toffoli, nós temos notícias conhecidas de que ele é sócio oculto de um fundo patrimonial e tem cotas no resort”.
Relatórios sob sigilo
Os documentos analisados pela CPI permanecem sob sigilo. Segundo Vieira, parte das informações foi obtida por meio de relatórios de inteligência financeira (RIF) produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Esses relatórios, explicou o parlamentar, não correspondem a extratos bancários completos, mas registram movimentações consideradas incomuns pelo sistema de monitoramento financeiro.
“Da Reag tem 200 laudas, do Banco Master tem 80 páginas. São muitas informações de ações e transferências de recursos totalmente atípicas ou suspeitas”, afirmou o relator.
Ele também citou situações que, segundo sua avaliação, podem se aproximar de irregularidades. “Quando um grupo de interesse paga uma viagem para um tomador de decisão está muito próximo da configuração da corrupção ativa”, disse.
Críticas ao Supremo e pressão política
Ao comentar as suspeitas levantadas pela investigação, Vieira fez críticas ao funcionamento da Suprema Corte. “O Supremo Tribunal Federal precisa de uma faxina e um código de ética”, declarou. Em outra passagem da entrevista, acrescentou: “Se fossem ministros de outros tribunais já teriam sido afastados”.
O senador também afirmou que a investigação sobre ministros do STF representa uma situação inédita no país. “Em todos poderes, nós já tivemos apurações e punições quando os fatos são comprovados. O que é inédito é fazer apuração no tocante a ministro do Supremo. Mas aquela toga preta não é uma toga de impunidade. Aquela toga preta simboliza na verdade, a justiça. E justiça, na sua essência, ela tem que ser acreditada pela população”.
Contexto da investigação
A CPI do Crime Organizado foi instalada em novembro de 2025 com o objetivo de investigar a atuação de facções criminosas no Brasil, incluindo seus mecanismos de financiamento. No entanto, como a investigação de ministros do STF não fazia parte do escopo original da comissão, um grupo de 38 senadores apresentou requerimento para a criação de uma CPI específica voltada a esse tema.
As apurações têm intensificado o clima de tensão entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, além de alimentar pressões políticas relacionadas a pedidos de impeachment de ministros da Corte.
Foto: Agência Brasil | Agência Senado
FONTE: https://www.brasil247.com/regionais/brasilia/quebra-de-sigilo-aponta-repasses-do-master-a-familiares-de-toffoli-e-moraes-diz-relator-de-cpi