Mercado acima de US$ 20 bilhões anuais, expansão acelerada de IA e tensão geopolítica mostram que conectividade física determina competitividade e investimento.
No centro da infraestrutura digital global — aquela que sustenta bancos, universidades, bolsas de valores, plataformas de streaming, inteligência artificial e sistemas de defesa — está um fio de vidro extremamente fino: a fibra óptica. A economia contemporânea depende dela tanto quanto depende de energia elétrica. Sem fibra, não há nuvem. Sem nuvem, não há inteligência artificial em escala. Sem inteligência artificial, não há competitividade tecnológica. Esse ponto, que já foi tratado como detalhe técnico, hoje aparece em contratos bilionários, em disputas comerciais e, cada vez mais, em decisões de segurança nacional.
Para entender o tamanho do fenômeno, basta olhar a direção do dinheiro. Nos últimos cinco anos, o setor global de cabos e fibras ópticas passou a operar em uma faixa de dezenas de bilhões de dólares por ano, com projeções que apontam o mercado mundial superando US$ 30 bilhões anuais até o final da década, puxado por data centers, 5G e redes corporativas. A fibra saiu do rodapé da engenharia e subiu para o topo do tabuleiro geopolítico.
Infraestrutura virou poder
É nesse contexto que um anúncio recente se torna didático: a Corning firmou com a Meta um acordo multianual de até US$ 6 bilhões para fornecer fibra óptica, cabos e soluções de conectividade voltados à expansão de data centers avançados nos Estados Unidos — explicitamente desenhados para suportar as demandas de densidade e escala da IA. Não se trata de uma compra pontual: é uma estratégia de garantia de fornecimento.
E aqui entra a robustez financeira que eu não poderia ter omitido. A Corning não é uma coadjuvante: em 2025, a empresa reportou vendas anuais (GAAP) de US$ 15,63 bilhões (e “core sales” de US$ 16,41 bilhões). Dentro disso, a divisão Optical Communications — o coração da infraestrutura de fibra — registrou US$ 6,27 bilhões em vendas em 2025, com crescimento anual expressivo (divulgado como +35% em alguns resumos setoriais). Quando se observa que apenas uma divisão da empresa movimenta mais de seis bilhões de dólares em um ano, fica claro por que o tema “fibra” deixou de ser conversa de bastidores.
A explosão da inteligência artificial
Daí a pergunta que guia esta análise: por que a demanda por fibra explodiu tão rapidamente? A resposta começa dentro dos data centers. A infraestrutura voltada à inteligência artificial consome muito mais fibra do que as instalações mais antigas. Chamam-se “legadas” as estruturas concebidas antes da explosão recente da IA generativa: foram projetadas para volumes menores, com uma lógica de conectividade menos densa. Hoje, clusters de IA conectam milhares de GPUs em tempo real, exigindo interconexões ópticas internas de altíssima densidade — e isso multiplica o consumo de fibra por instalação.
Em paralelo, cresce a exigência por baixa latência, conceito simples: latência é o tempo que um dado leva para ir de um ponto a outro. Em finanças digitais, IA, telemedicina e defesa, milissegundos determinam desempenho e vantagem competitiva. Reduzir latência depende de rede robusta, bem distribuída e com qualidade de sinal — e isso significa, na prática, mais fibra e melhor fibra.
Escassez, preços e militarização
A consequência dessa corrida técnica é uma corrida industrial. Vem se observando tensão de oferta e pressão sobre preços em segmentos específicos, especialmente em fibras e componentes mais sofisticados. Em mercados e especificações pontuais, análises setoriais têm relatado saltos expressivos de preços nos últimos dois anos. Quando hyperscalers investem simultaneamente e exigem previsibilidade de entrega, o setor deixa de operar no modo “estoque normal” e passa a operar no modo “cadeia estressada”.
Há um segundo motor, menos discutido e mais incômodo: a guerra. Estimativas do setor indicam que parte relevante da produção de fibras especiais passou a ser direcionada para aplicações militares. No conflito entre Rússia e Ucrânia, cresce o uso de drones controlados por cabos de fibra óptica, justamente porque a fibra é imune à interferência típica da guerra eletrônica. Ao migrar parte da demanda para aplicações militares — muitas vezes em fibras especiais —, o mercado civil sente o impacto como escassez e volatilidade. A guerra, aqui, não aparece apenas como manchete: aparece como variável de cadeia produtiva.
Política comercial é estratégia de Estado
É nesse mundo — de IA em escala, militarização de tecnologias e disputa por insumos — que as decisões de comércio exterior ganham outro significado. Ao final de 2025, o Brasil adotou medidas antidumping sobre fibras e cabos ópticos importados, após investigação de três anos. Houve reação de operadores e ISPs preocupados com custo, e isso é compreensível. Mas a leitura estratégica precisa ser maior. Dirigi por 18 anos a área de comércio exterior do Banco do Nordeste e aprendi, na prática, que política comercial não pode ser apenas um leilão de preço: ela precisa lidar com risco de fornecimento, dependência externa e capacidade produtiva interna — sobretudo quando o insumo passa a ter relevância de infraestrutura crítica.
O Brasil possui uma malha extensa: dados regulatórios apontam mais de 1,2 milhão de quilômetros de fibra instalada no país. Essa capilaridade sustenta milhares de provedores regionais e viabiliza a interiorização da conectividade. Mas o que muda o patamar da discussão é que a fibra deixou de ser apenas “rede para consumidor”: ela virou pré-requisito para a entrada de megaprojetos de data center — e isso afeta energia, logística e soberania digital.
O Ceará no centro do tabuleiro digital
No Nordeste, a mudança de escala ficou cristalina no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, em São Gonçalo do Amarante (Ceará). Ali, reportagens da Reuters situaram o projeto associado à ByteDance/TikTok com investimento inicial na ordem de US$ 9 bilhões, com pagamentos e implantação estruturados em horizonte plurianual. Uma apuração anterior descreveu o desenho como um data center de 300 MW com possibilidade de expansão em fases para 900 MW e potencial próximo de 1 GW, dependendo de energia e licenças — escala capaz de redesenhar a geografia digital do Nordeste. Em paralelo, comunicações e projeções estaduais passaram a mencionar cifras maiores (convertidas, algo como US$ 35 bilhões em cenário expandido), o que deve ser tratado jornalisticamente como horizonte modular, típico de megaprojetos que crescem por blocos, conforme contratos, demanda e infraestrutura energética amadurecem.
A própria política de financiamento confirma que não se trata de conversa ao vento. O BNDES aprovou investimento para ampliação do data center Mega Lobster, em Fortaleza, num plano de expansão de 3 MW para 20 MW até 2029 — sinal claro de que a infraestrutura de dados entrou no radar de desenvolvimento regional. Em outras palavras: quando se acopla data center, cabos submarinos, energia renovável e financiamento, a fibra deixa de ser um item de planilha e vira um ativo estratégico de país.
A indústria que sustenta a autonomia
É aqui que entra a Furukawa/Lightera — e a região não pode tratar esse grupo como mais um fornecedor. A Lightera foi lançada em 1º de abril de 2025 como marca global que unifica três operações do Grupo Furukawa Electric em fibra e cabos: a divisão no Japão, a OFS (EUA) e a Furukawa Electric LatAm (Brasil). A própria Lightera afirma operar com mais de 4.500 colaboradores, presença em 11 países e 27 escritórios, com clientes em mais de 55 países e mais de 3.230 patentes registradas globalmente — indicadores objetivos de escala e densidade tecnológica.
No caso do Grupo Furukawa Electric, há ainda um dado financeiro que ajuda a dimensionar robustez: a companhia reportou net sales de 1.201,8 bilhões de ienes no ano fiscal encerrado em março de 2025. Usando a referência de câmbio médio de 153 ienes por dólar divulgada em material de briefing da empresa, isso equivale a aproximadamente US$ 7,9 bilhões em vendas anuais. Não é um grupo pequeno. Muito ao contrário: os números e performance ao longo de décadas confirmam isso. E, para o Brasil, há um diferencial: presença industrial e expertise regional.
A trajetória da Furukawa no Brasil — agora sob a marca Lightera — não é episódica, nem superficial. Ela foi decisiva para a expansão de redes ópticas na América Latina, atendendo operadoras, redes corporativas e, principalmente, o ecossistema de provedores regionais que ajudou a “costurar” conectividade onde antes havia silêncio digital. Ter capacidade produtiva, engenharia local e relacionamento regional importa ainda mais quando o mundo entra em escassez e as grandes economias passam a travar guerras comerciais e tecnológicas por insumos.
Num setor em que inovação costuma ser medida apenas em gigabits por segundo, a Lightera sustenta que velocidade sem responsabilidade é apenas atraso mascarado por desempenho técnico. Ao integrar sustentabilidade à estratégia industrial, a empresa vincula suas operações aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, reduz emissões, otimiza consumo energético e incorpora práticas de economia circular em larga escala. O programa Green IT, ativo há 18 anos no Brasil e na Argentina, já reciclou mais de 2.200 toneladas de cabos, mobilizou cerca de 1.700 empresas parceiras e evitou descarte ambiental inadequado. Em um momento em que infraestrutura digital se confunde com política de Estado, responsabilidade ambiental deixa de ser atributo profissional apenas e passa a ser componente estratégico da própria resiliência produtiva.
Comparar Lightera e Corning ajuda a entender o jogo. A Corning possui uma divisão de comunicações ópticas que sozinha movimenta US$ 6,27 bilhões/ano e um faturamento total de US$ 15,63 bilhões — e ainda firma acordos de fornecimento “âncora” como o da Meta. A Lightera, por sua vez, opera como consolidação global do braço óptico do Grupo Furukawa Electric, com presença industrial em mercados estratégicos e musculatura de propriedade intelectual. Em um mundo que volta a valorizar produção próxima, resiliência e entrega, o papel de um grupo com chão de fábrica e know-how regional passa a pesar mais do que parecia “quando tudo era barato”.
A mídia especializada em telecom, muitas vezes, continua tratando essa discussão como variação de preço por quilômetro, como se fibra fosse substituível por outra mercadoria qualquer. Essa leitura é insuficiente. O que está em jogo é capacidade de sustentar expansão de 5G, de viabilizar data centers, de atrair capital de IA, de preservar autonomia. Quando a fibra falta, atrasam-se cronogramas, adiam-se ativações de backbone, travam-se projetos industriais, esfria-se investimento.
A história mostra que disputas globais sempre se organizaram em torno de infraestrutura — rotas marítimas, ferrovias, oleodutos. No século XXI, a infraestrutura decisiva é luminosa e silenciosa. A fibra óptica não ocupa as manchetes como tratados diplomáticos ou conflitos armados, mas sustenta ambos — e sustenta, sobretudo, o motor econômico que passou a definir vantagens competitivas: processamento, dados e inteligência artificial.
No fim das contas, trata-se de escolher entre o conforto do curto prazo e a responsabilidade do longo prazo. Comprar mais barato pode parecer racional em uma planilha; assegurar disponibilidade, capacidade industrial e autonomia pode ser a diferença entre crescer ou ficar para trás. A fibra óptica deixou de ser bastidor técnico. Tornou-se eixo estruturante do poder digital contemporâneo — e países que entendem isso não estão “comprando cabos”: estão protegendo a base física do próprio futuro.
Foto: Layo Stambassi/MCom
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/quem-controla-a-fibra-nao-controla-apenas-cabos-controla-competitividade-e-soberania