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Raio-X das bombas: como as distribuidoras operam para evitar desabastecimento no Brasil

Diante das restrições globais de oferta, as distribuidoras ampliam emergencialmente as importações e absorvem custos mais elevados no mercado internacional.

247 – Em meio a instabilidade no mercado externo de energia, com riscos associados a gargalos em rotas estratégicas, garantir o abastecimento de combustíveis no Brasil passou a exigir um esforço ainda maior dos agentes do setor. A oscilação internacional de preços e ofertas, sobretudo do diesel, produto do qual o país ainda depende parcialmente de importações (30%), aumenta a complexidade da operação e eleva os riscos envolvidos na cadeia de suprimentos.

Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que as vendas de diesel no Brasil atingiram recorde de 67,26 bilhões de litros em 2024, reforçando o peso estratégico do combustível para a economia nacional. O diesel é o principal combustível da logística brasileira, em um país onde o transporte rodoviário responde pela maior parte da movimentação de cargas.

Distribuidoras ampliam importações e capacidade logística

Nos bastidores, as distribuidoras vêm intensificando sua atuação para evitar impactos no abastecimento, funcionando como um verdadeiro amortecedor logístico e financeiro. Diante das restrições globais de oferta, o setor precisa ampliar de forma rápida e emergencial as importações, mobilizando capital intensivo para garantir que o combustível não falte. Esse movimento inclui a expansão da capacidade de armazenamento, a gestão de estoques de longo ciclo e a absorção de custos mais elevados no mercado internacional, com pagamentos significativamente superiores aos padrões já registrados. As tensões geopolíticas recentes no Oriente Médio e os gargalos nas rotas marítimas internacionais elevaram o custo global do frete e aumentaram a pressão sobre o mercado internacional de diesel, tornando ainda mais complexa a operação de importação para países dependentes do mercado externo, como o Brasil.

Trata-se de uma operação logística complexa e pouco visível ao consumidor final, mas essencial para evitar o risco sistêmico de desabastecimento em um país de dimensões continentais como o Brasil. Em momentos críticos de alta internacional, a capacidade financeira dessas empresas atua como um verdadeiro “fundo de garantia”, permitindo que a infraestrutura essencial do país e a economia continuem operando mesmo quando o produto externo está altamente inflacionado.

Formação de preços ainda gera confusão

Apesar da importância dessa operação para a segurança nacional, ainda há confusão sobre a formação de preços. É fundamental que haja maior transparência para demonstrar que os valores nas bombas refletem, de forma consistente, fatores estruturais como a cotação internacional, o câmbio, a logística, o peso da carga tributária e o custo dos biocombustíveis. A distribuição representa uma fração minoritária (cerca de 5%) do preço final, atuando apenas no repasse natural dos custos globais sem ingerência sobre a alta das refinarias ou impostos.

Dados da Petrobras e da própria ANP mostram que a composição do preço do diesel envolve diversos fatores além da distribuição, incluindo o valor do petróleo no mercado internacional, o câmbio, os impostos e a mistura obrigatória de biodiesel, atualmente em 15%.

Para o consumidor e para o mercado, os efeitos da compreensão dessa realidade são muito relevantes. O foco excessivo do debate público na busca por preços artificialmente baixos, ignorando os elevados custos logísticos e de importação, traz um risco prático de escassez. O esforço operacional das distribuidoras aponta para um setor resiliente, mas que depende de conformidade com a realidade mundial de preços para manter contínuo o abastecimento e o funcionamento da economia do país.

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FOTO: Brasil 247

FONTE: https://www.brasil247.com/economia/raio-x-das-bombas-como-as-distribuidoras-operam-para-evitar-desabastecimento-no-brasil