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Real se fortalece abaixo de R$ 5 com apoio de juros elevados e exportações de petróleo

“Um dos principais vetores desse movimento é o impacto do choque recente nos preços do petróleo sobre a política monetária brasileira”.

O mercado financeiro iniciou esta terça-feira, 14 de abril, com um movimento relevante na taxa de câmbio: o real rompeu o patamar de R$ 5 por dólar, nível que não era observado há bastante tempo. A moeda brasileira chegou a ser negociada ao redor de R$ 4,97, em um processo de valorização que tende a ganhar continuidade no curto prazo, sustentado por fatores internos e externos.

Um dos principais vetores desse movimento é o impacto do choque recente nos preços do petróleo sobre a política monetária brasileira. A alta da commodity pressiona a inflação e leva o Banco Central a adotar uma postura mais cautelosa, retardando o ciclo de cortes de juros. Como resultado, a taxa Selic permanece em patamar mais elevado do que o anteriormente esperado, o que aumenta a atratividade dos ativos domésticos para investidores internacionais.

Além do canal de juros, há um efeito relevante nas contas externas. O Brasil consolidou-se como exportador líquido de petróleo, o que melhora o saldo comercial em momentos de preços elevados da commodity. Esse cenário reforça a entrada de divisas no país e contribui para a apreciação cambial. Trata-se de uma mudança estrutural em relação às décadas de 1970 a 1990, quando o país era importador líquido de petróleo e sofria com a deterioração dos termos de troca.

A valorização do real também é impulsionada pelo fluxo de capitais estrangeiros em busca de rendimentos mais elevados, além do aumento do superávit comercial. Esses três canais — juros mais altos, maior entrada de capitais e melhora nas exportações — explicam o desempenho da moeda brasileira, que figura entre as que mais se apreciaram no ano frente ao dólar. Soma-se a isso um contexto global de enfraquecimento da moeda norte-americana, refletido na queda do índice DXY.

No cenário internacional, os dados recentes de inflação ao produtor nos Estados Unidos trouxeram alguma surpresa positiva. O índice referente a março veio abaixo das expectativas do mercado, embora ainda em patamar elevado. Esse resultado contribui para reduzir parte das preocupações inflacionárias, mas não altera substancialmente a percepção de que o Federal Reserve deve adotar uma postura cautelosa, possivelmente adiando decisões sobre cortes de juros para o final do ano.

No Brasil, os dados mais recentes da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada pelo IBGE, indicam perda de dinamismo do setor. Em fevereiro, o volume de serviços avançou apenas 0,1%, abaixo das expectativas do mercado. Apesar de o setor ainda operar em nível historicamente elevado — cerca de 20% acima do período pré-pandemia — há sinais claros de estagnação no curto prazo.

Na comparação interanual, o crescimento foi de 0,5%, mantendo uma sequência positiva de 23 meses, mas em ritmo mais moderado. No acumulado do ano, o avanço é de 1,9%, enquanto em 12 meses chega a 2,7%. Considerando que a PMS capta cerca de metade do PIB e que o setor de serviços representa aproximadamente 70% da economia, o resultado sugere crescimento econômico próximo da estabilidade em fevereiro.

Outro ponto relevante é a qualidade da expansão recente do setor de serviços, marcada por geração de empregos predominantemente de baixa remuneração. Esse padrão limita ganhos de produtividade e renda, reduzindo o impacto positivo sobre o crescimento de longo prazo.

Em síntese, o cenário atual combina uma moeda mais forte, sustentada por fundamentos externos e financeiros, com sinais de desaceleração da atividade doméstica. A política monetária deve permanecer restritiva por mais tempo, refletindo tanto o impacto inflacionário do petróleo quanto a necessidade de ancorar expectativas.

FOTO: MARCELLO CASAL JR / AGÊNCIA BRASIL

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/real-se-fortalece-abaixo-de-r-5-com-apoio-de-juros-elevados-e-exportacoes-de-petroleo