Economista afirma que EUA e Europa perderam diplomacia e decência, critica submissão a Israel e diz que conflito na Ucrânia poderia ter sido evitado.
247 – O economista Jeffrey D. Sachs, professor da Universidade Columbia e conselheiro de políticas das Nações Unidas, fez um diagnóstico contundente sobre a crise de governança no Ocidente, o avanço do militarismo e o risco crescente de guerras de grandes proporções, afirmando que o mundo atravessa um período de degradação política marcado por incompetência, corrupção e abandono do direito internacional. Para ele, a combinação entre a instabilidade do governo dos Estados Unidos, a fragilidade das lideranças europeias e a escalada militar em regiões estratégicas como o Golfo Pérsico cria um ambiente explosivo, com potencial de levar o planeta a uma guerra de proporções catastróficas.
As declarações foram feitas em entrevista concedida ao jornalista e ex-parlamentar britânico George Galloway, publicada no YouTube com o título “INTERVIEW: Trump is crazy Starmer is beyond belief”. Na conversa, Sachs criticou duramente o presidente Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — e também atacou o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, além de responsabilizar a captura do sistema político por bilionários e pelo “complexo militar-industrial digital” como elementos centrais da decadência institucional.
“A economia dos EUA está muito doente”
Logo no início da entrevista, George Galloway perguntou se Sachs concordava com a avaliação de que a economia dos Estados Unidos dá sinais de uma possível catástrofe. O economista respondeu afirmando que o país está “muito doente” em diversos aspectos, e destacou o peso do déficit público. “Bem, ela está muito doente em muitos sentidos. Sem dúvida. Temos déficits orçamentários gigantescos, como você sabe, cerca de 7% do PIB.”
Sachs apontou ainda um conjunto de fatores que, segundo ele, pode agravar a instabilidade: corrupção, má gestão e um ambiente de especulação financeira. “Temos banditismo, corrupção, má administração. Também temos uma bolha especulativa selvagem, obviamente, em ações de inteligência artificial.” Para ele, esse quadro cria um cenário em que “muita coisa pode dar errado”.
Ao comentar o comportamento de Donald Trump, Sachs afirmou que a erraticidade do presidente é tamanha que a hipótese de comprometimento cognitivo não pode ser descartada. “Trump é tão errático que a sua pergunta sobre se é demência, claro, é uma explicação muito viva e plausível.”
O economista também lembrou a crise financeira de 2008 e afirmou que, na época, o desastre foi intensificado por decisões que classificou como absurdas, citando diretamente a falência do Lehman Brothers. “Devemos lembrar que, em 2008, quando tivemos a crise financeira, também dependeu de praticamente a ação mais estúpida que você poderia imaginar por parte de um secretário do Tesouro ou de qualquer autoridade sênior, quando o secretário do Tesouro da época, Hank Paulson, deliberadamente quebrou, num fim de semana, o Lehman Brothers, e isso foi um gatilho que levou à catástrofe.”
Sachs disse que o risco de novas decisões destrutivas existe, sobretudo porque, segundo ele, o atual secretário do Tesouro seria “vicioso”. “Bem, temos um cara vicioso como secretário do Tesouro, então ele é capaz de todo tipo de coisa.”
“Trump é louco. Starmer é inacreditável”
Em seguida, a entrevista entrou no terreno da crise política mais ampla. Sachs comparou os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos e afirmou que ambos estariam disputando “pau a pau” o posto de pior governo. Foi então que ele fez a declaração mais contundente: “Trump é louco. Starmer é inacreditável.”
Na sequência, o economista descreveu o cenário político atual como um colapso generalizado de competência e decência. “É inacreditável o que temos hoje como suposta governança. É um colapso completamente caótico da competência mínima ou da decência mínima.”
George Galloway concordou e disse que se lembra de um tempo em que o Ocidente, mesmo com adversários ideológicos, possuía “grandes líderes”. Ele citou nomes como Helmut Kohl, Jacques Chirac, Charles de Gaulle, Margaret Thatcher e Tony Blair, e afirmou que, hoje, as lideranças são “menores” em todos os sentidos. Em tom irônico, Galloway afirmou que Tony Blair “faz Keir Starmer parecer uma tábua de madeira”.
A corrupção pelo dinheiro e o “complexo militar-industrial digital”
Sachs respondeu que, nos Estados Unidos, a explicação central para esse declínio está na captura do sistema político pelo dinheiro. “Posso dizer que, nos EUA, a causa é que o nosso sistema político se tornou completamente corrompido pelo dinheiro.”
Ele disse que o Estado teria sido tomado por um “complexo militar-industrial digital” e que a política externa estaria sendo comandada pelo Vale do Silício. “E ele foi completamente tomado pelo complexo militar-industrial digital. Então, na política externa, somos governados agora a partir do Vale do Silício.”
No campo interno, segundo Sachs, as decisões seriam ditadas por uma elite de bilionários. “E, em qualquer questão doméstica, somos governados por um pequeno grupo de bilionários que são aqueles que pagaram pelo governo mais recente.”
O economista afirmou que essa estrutura permite eleger líderes “detestáveis” e moralmente degradados. “Então você consegue eleger pessoas tão chocantemente detestáveis como Trump, tão ignorantes e tão corruptas, mas é um jogo de dinheiro.” Em seguida, ele acusou diretamente figuras do grande capital de terem “comprado” a eleição e de controlarem a Casa Branca. “Elon Musk, neste caso, e Peter Thiel e outros compraram esta última eleição. Eles são donos da Casa Branca agora.”
Europa “caindo aos pedaços” e sem coragem política
Ao falar da Europa, Sachs disse que o cenário é “difícil de acreditar”, especialmente porque não faz tanto tempo que o continente tinha lideranças com densidade política. Ele afirmou ter conhecido Helmut Kohl e outros líderes europeus em atividades econômicas e de aconselhamento. “Eles eram pessoas realmente substanciais. Agora você nem consegue falar com eles e eles são tão patéticos que não atendem um telefonema.”
Segundo ele, os atuais governantes europeus evitam qualquer debate fora de uma “zona de conforto”. “Eles não querem discutir nada que esteja fora de uma zona de conforto. E então isso é realmente impressionante.” E concluiu que a Europa está “se desmanchando” nesse processo. “E a Europa, claro, está caindo aos pedaços no processo.”
Sachs afirmou que o continente parece não saber de onde virá a ameaça, e que erra ao apontar a Rússia como principal risco. “Ela não consegue dizer se vai ser invadida pelo leste ou pelo oeste. Ela chutou errado. A Rússia não é a ameaça. A ameaça são os Estados Unidos.”
Ele acusou a Europa de ter perdido o senso de diplomacia e de economia, citando como exemplo as sanções contra a Rússia. “Eles perderam todo senso de diplomacia. Eles perderam todo senso de economia. Se não bastasse terem imposto sanções à Rússia, que não importaram tanto para a Rússia, mas esmagaram a indústria da Alemanha e da Europa…”
E apontou uma decisão que considerou ainda mais absurda: abandonar definitivamente a energia russa e comprar gás natural liquefeito dos EUA a um preço muito superior. “Eles ainda colocaram a cereja no topo disso, há alguns dias, declarando que permanentemente interromperiam qualquer importação de energia da Rússia e só comprariam GNL seis vezes mais caro dos Estados Unidos.”
Na visão do economista, esse comportamento revela desprezo pelos próprios cidadãos. “Essas pessoas nem sequer pensam por um momento sobre seus próprios cidadãos ou seus próprios eleitores.” Sachs citou, como sinal da crise, o baixo apoio popular a Keir Starmer. “E não é surpreendente que Starmer tenha 11% de aprovação.” Ele também atacou outros líderes europeus: “Macron é talvez de um dígito agora. Ele é absolutamente detestado pela população. Merz está em queda livre. Todos eles estão…”
“Ninguém acredita em nada”: a crise da política sem valores
George Galloway levantou então a hipótese de que o problema seja a morte das ideologias e dos valores, lembrando que, nos anos 1980, havia embates políticos baseados em princípios. Ele afirmou que hoje os políticos parecem não acreditar em nada.
Sachs concordou e disse que o caso de Barack Obama ilustra essa transformação: uma campanha bem-sucedida, mas sem substância de governo. “O que foi interessante é que a pessoa em quem colocamos mais esperança e que não foi um desastre do mesmo modo que Trump é um desastre, mas foi um fracasso, foi Obama.”
Ele disse ter se encantado com Obama na campanha, mas afirmou que depois não houve mudança real. “Eu fiquei encantado com Obama durante a campanha e pensei: ‘Ok, finalmente teremos a virada’. E, claro, não havia nada ali depois.” Segundo Sachs, Obama manteve políticas profundas do Estado e ações externas agressivas. “E ele implementou as políticas normais do deep state de derrubar governos e encarregar a CIA de derrubar o governo sírio e muitos, muitos desastres no seu mandato.”
Sachs citou um livro do coordenador de campanha de Obama como exemplo de política reduzida a tática eleitoral, sem projeto de país. “O interessante sobre o livro era que ele era 100% táticas da eleição, sem um parágrafo que tivesse qualquer sentido sobre por que o cara realmente queria governar, o que ele defendia.”
Kennedy, CIA e a virada histórica dos assassinatos políticos
A entrevista avançou para um debate histórico e geopolítico. George Galloway disse que vê o assassinato de John F. Kennedy, em 1963, como um “começo do fim” dos EUA, e citou declarações antigas do presidente sobre Oriente Médio e Irã, incluindo a defesa do primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh, derrubado em operação da CIA e do MI6.
Sachs respondeu dizendo que escreveu um livro sobre o último ano de Kennedy e o considerou um período de “maior estadismo” desde Franklin Roosevelt. “Eu escrevi um livro sobre o último ano de Kennedy porque acho que o ano de Kennedy, da crise dos mísseis em Cuba até seu assassinato, foi um ano do maior estadismo que os Estados Unidos tiveram desde Franklin Roosevelt.”
Ele foi além e afirmou que Kennedy estava prestes a se tornar “o grande líder da nossa era”, e que por isso teria sido assassinado. “E Kennedy estava a caminho de se tornar o grande líder da nossa era. E foi por essa razão que ele foi morto, quase certamente por forças da CIA e aqueles junto com elas.”
Sachs citou também o discurso de despedida de Dwight Eisenhower, que alertou para o “complexo militar-industrial”, e disse que o próprio Harry Truman reconheceu ter errado ao assinar a Lei de Segurança Nacional de 1947, que criou a CIA. “Truman escreveu rapidamente depois que seu maior erro foi ter assinado a Lei de Segurança Nacional de 1947, que criou a CIA, em parte como um exército secreto dos Estados Unidos.”
Ele afirmou estar convencido de que Truman sabia que Kennedy “caiu num golpe”. “E estou bastante convencido de que Truman sabia que Kennedy tinha caído num golpe, não na história ridícula de um assassino solitário.”
Sachs comparou esse padrão a outros assassinatos, como o do primeiro-ministro sueco Olof Palme, e afirmou que esses episódios mudam o rumo de países inteiros. “Esses acabam não sendo simplesmente assassinatos. Eles são viradas fundamentais de governo.” Ele citou também o assassinato de Yitzhak Rabin e afirmou que, depois disso, Israel teria se transformado numa “sociedade genocida” e praticado genocídio em Gaza. “Depois do assassinato de Rabin, Israel se tornou uma sociedade genocida.”
Guerra no Golfo Pérsico e o risco de um conflito devastador com o Irã
Ao retomar a agenda internacional, George Galloway afirmou que o Golfo Pérsico pode se tornar o palco da “mãe de todas as guerras”, com uma ofensiva dos EUA contra o Irã. Sachs concordou que a tendência mundial é de escalada militar e disse que o Relógio do Juízo Final está perigosamente próximo da meia-noite.
Ele citou a atualização do Bulletin of Atomic Scientists, afirmando que a humanidade estaria a “85 segundos da meia-noite”, metáfora para a proximidade de um colapso nuclear. “Eles empurraram o ponteiro do relógio quatro segundos para frente ontem para dizer que estamos a 85 segundos da meia-noite, significando Armagedom nuclear.”
Sachs afirmou que, desde 1992, todos os presidentes norte-americanos empurraram o mundo para mais perto de uma guerra nuclear. “Isso reflete um fato que vem acontecendo desde 1992: todo presidente americano nos empurrou mais perto de uma guerra nuclear.” E listou: “Clinton, Bush filho, Obama, Trump 1, Biden, Trump 2.”
Sobre Trump, ele afirmou que o atual presidente seria “o mais desequilibrado”. “E Trump 2 é de longe o mais desequilibrado.” Sachs voltou a mencionar a possibilidade de “demência” ou instabilidade psicológica. “Há provavelmente aquela demência ou um déficit psicológico profundo ou instabilidade que está em jogo agora.”
Ele disse que o pano de fundo da guerra contra o Irã seria um esforço de 30 anos de Israel para provocar esse conflito. “O pano de fundo para esta guerra que está prestes a acontecer é, ele próprio, um esforço de 30 anos de Israel para criar esta guerra.” Segundo ele, Israel teria impulsionado conflitos em diversos países da região. “Israel criou praticamente todas as outras guerras na região. Criou guerras no Líbano, na Síria, no Iraque, no Iêmen, no Sudão… na Somália, na Líbia.”
Sachs afirmou que Israel sempre quis “a grande guerra” contra o Irã. “Sempre quis a grande. Sempre quis a guerra com o Irã.” Ele destacou que o Irã não é um alvo simples e que não se trata de um país que possa ser “decapitado” com facilidade. “O Irã não é Venezuela. Não vai ser um ataque simples de decapitação.” E acrescentou: “Aliás, nem a Venezuela é.”
Ele também atacou a ideia de que Trump “manda” na Venezuela. “Trump não é dono nem governa a Venezuela, apesar de quaisquer delírios que ele ache que tem agora.”
Sachs observou que o Irã está inserido num ambiente com múltiplos atores relevantes e potências nucleares, e que países como Rússia e China têm interesses diretos na região. “O Irã é uma região onde a Rússia tem grandes interesses, onde a China tem grandes interesses, onde os sauditas, a Turquia e outros países muito significativos têm enormes interesses.”
Ele afirmou que esses países não querem a guerra e que não há apoio popular para isso. “Eles realmente não querem esta guerra. Não há batida de tambor por esta guerra, nem no público americano nem em qualquer país da região.” Para Sachs, a pressão vem de Netanyahu. “Esta é uma batida de tambor de guerra na psique louca de Netanyahu.”
O economista afirmou que Trump atacará o Irã em breve, a menos que o mundo reaja. “Trump atacará o Irã em breve, a menos que por algum milagre o resto do mundo se levante e diga: ‘Não, você não pode fazer isso’.” Ele defendeu que o Conselho de Segurança da ONU deveria ser forçado a entrar em sessões ininterruptas.
Violação da Carta da ONU e submissão europeia
Sachs afirmou que as ameaças de Trump violam abertamente o direito internacional e a Carta da ONU. “Não é nem hipotético o que Trump está fazendo ao violar o direito internacional.” E citou diretamente o texto: “A Carta da ONU não poderia ser mais explícita. O Artigo 2, Seção 4 diz que nenhum país pode ameaçar usar força ou usar força.”
Ele criticou declarações de líderes europeus, mencionando o chanceler Merz celebrando a queda de um regime. “Alguém acabou de me citar o chanceler Merz dizendo como é maravilhoso que esse regime não tenha muito tempo de vida.” Sachs reagiu com indignação: “Meu Deus, a imprudência espantosa, a governança patética na Europa ao dizer essas coisas…”
Na visão do economista, a Europa age como se tivesse apenas um princípio: não ser atacada, mas apoiar ataques a outros. “Parece que a Europa não tem princípios além de ‘não nos ataque’, mas ficaremos felizes se você atacar outra pessoa.”
“Pressão máxima” e guerra econômica como política de Estado
Sachs também denunciou o que chamou de “violência extraordinária” na estratégia econômica dos EUA contra o Irã. Ele citou o secretário do Tesouro descrevendo em Davos uma campanha deliberada para esmagar a economia iraniana e gerar revolta interna. “O secretário do Tesouro dos Estados Unidos descrevendo orgulhosamente em Davos, na semana passada, a campanha de pressão máxima dos Estados Unidos para esmagar a economia iraniana e, assim, colocar as pessoas nas ruas.”
Sachs afirmou que o secretário teria explicado que a crise iraniana não é fruto apenas de corrupção ou má gestão interna, mas de uma política deliberada de destruição econômica. “Ele explicou tudo: que isso não era de algum modo resultado da má gestão ou corrupção dos iranianos. Isso foi a campanha deliberada da administração Trump para esmagar a economia.”
Ele chamou isso de “arte de governar” por meio da violência econômica. “Isso é ‘arte de governar’ econômica. Nenhum tiro disparado e as coisas estão se movendo de maneira muito positiva aqui, diz Bessent.” Sachs concluiu: “Simplesmente inacreditável.”
E criticou o silêncio europeu. “E o que Starmer disse? O que Merz disse? O que Macron disse? O que qualquer um desses heróis dos valores ocidentais disse? Nem um pio, pelo que eu saiba.”
A ONU está morta ou ainda é essencial?
George Galloway então atacou a perda de relevância da ONU, dizendo que hoje quase ninguém sabe quem é o secretário-geral, e que a organização pareceria redundante. Sachs respondeu em duas camadas: o que deveria ser e o que é na prática.
Ele comparou o momento atual ao fracasso da Liga das Nações nos anos 1930. “Talvez estejamos em algo como 1938 ou 39 e estamos perguntando sobre a Liga das Nações.” E lembrou que a Liga falhou em impedir agressões e colapsou na Segunda Guerra Mundial.
Sachs afirmou que a ONU poderia ter sido diferente se Franklin Roosevelt tivesse vivido mais tempo. “Se FDR tivesse vivido, teria sido uma história muito diferente.” Ainda assim, insistiu que o mundo precisa da ONU para sobreviver. “Mas nós precisamos da ONU. Eu luto por ela todos os dias.”
Ele disse viajar pelo mundo e perceber que África, Ásia e América Latina querem uma ONU forte. “Quase todo lugar do mundo na África, na Ásia, na América Latina quer uma ONU que tenha sucesso.” Para ele, a maior parte do planeta deseja o império da lei, enquanto os EUA agem como “o maior valentão do mundo”. “Todo mundo quer o império da lei, exceto o maior valentão do mundo, que são os Estados Unidos, que dizem que isso é uma delicadeza.”
Sachs descreveu o governo dos EUA como “bandido” e “gangster”. “Nós temos um governo bandido, um governo de estilo gangster.” Mas ressaltou que o mundo não aplaude essa lógica. “Mas não é que o mundo inteiro esteja aplaudindo o gangsterismo.”
Ele afirmou que o direito internacional é frágil, mas indispensável, porque uma guerra mundial na era nuclear seria o fim. “A história inteira da humanidade é de guerras mundiais, mas nunca tivemos uma guerra mundial na era nuclear, e ela será a última guerra que teremos, porque será o fim.”
Ucrânia: “A guerra nunca teria acontecido” sem a ação dos EUA
A entrevista seguiu para a guerra na Ucrânia. George Galloway disse que preferia Trump a Kamala Harris por acreditar que Trump poderia ser menos perigoso na relação EUA–OTAN–Rússia, e lembrou que Trump prometeu acabar com a guerra rapidamente, mas isso não ocorreu.
Sachs respondeu afirmando que a guerra “nunca teria acontecido” sem ações dos EUA. “Esta guerra, primeiro, nunca teria acontecido se os EUA não tivessem conspirado para derrubar o governo de Yanukovich em 2014.” Ele também culpou a expansão da OTAN. “A guerra nunca teria acontecido se os Estados Unidos não tivessem empurrado a expansão da OTAN.”
Sachs afirmou que o conflito poderia ter sido encerrado diplomaticamente se EUA, Alemanha e França tivessem sustentado o acordo de Minsk II, que ele descreveu como um acordo do Conselho de Segurança da ONU. “A guerra nunca teria acontecido se os Estados Unidos, a Alemanha e a França tivessem defendido o acordo Minsk 2, que é um acordo do Conselho de Segurança da ONU.”
Segundo ele, esse acordo poderia ter encerrado a guerra por meio de autonomia para o leste ucraniano. “Isso teria encerrado a guerra por meio da autonomia do leste da Ucrânia, da região do Donbas.”
Sachs disse que ainda em dezembro de 2021 havia chance de evitar o conflito, quando Vladimir Putin propôs arranjos de segurança. “A guerra poderia ter sido evitada até dezembro de 2021, quando o presidente Putin colocou na mesa rascunhos de arranjos de segurança com a Rússia e os Estados Unidos.”
Ele relatou ter ligado para a Casa Branca e implorado por negociações. “Eu liguei para a Casa Branca, para Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional, e essencialmente implorei por uma hora: ‘Jake, negocie. Negocie.’” E disse que Sullivan respondeu: “Não se preocupe, Jeff. Não vai haver guerra.” Sachs classificou isso como incompetência e irresponsabilidade. “Essas pessoas são tão incompetentes e irresponsáveis.”
Negociações sabotadas e “2 milhões de baixas”
Sachs afirmou que, poucas semanas após o início da invasão russa em fevereiro de 2022, houve negociações com mediação turca. “Algumas semanas após o início da invasão da Rússia em 22 de fevereiro, sabemos que eles foram para a mesa de negociações com mediadores turcos.”
Ele disse ter ido a Ancara discutir o tema e acusou EUA e Reino Unido de sabotarem o acordo, mencionando Boris Johnson como emissário. “Claro, os Estados Unidos e o Reino Unido — Boris Johnson, neste caso como emissário — romperam as negociações, disseram à Ucrânia: ‘Você não assina, você luta.’”
Sachs afirmou que isso teria produzido “provavelmente 2 milhões de baixas” ucranianas. “Isso é provavelmente 2 milhões de baixas de ucranianos desde então.” E ironizou a lógica: “A nossa grande defesa da Ucrânia é matá-los todos.”
A solução: neutralidade e fim da expansão da OTAN
Para Sachs, as bases para encerrar a guerra sempre existiram e passam pela neutralidade ucraniana. “Os fundamentos para acabar com esta guerra estiveram lá o tempo todo. Eles são a neutralidade da Ucrânia.” Ele afirmou que a expansão da OTAN foi “insana”. “Parem com a estúpida expansão da OTAN, que era insana para começar.”
Ele disse que Trump, se fosse competente, deveria explicar ao povo americano que a expansão da OTAN foi uma provocação e deveria sair da mesa. “Trump, se fosse normal, competente e capaz, teria feito um discurso ao povo americano para explicar que a expansão da OTAN foi uma provocação.”
Sachs comparou a situação a um “replay” da Guerra da Crimeia e criticou estratégias históricas de expulsar a Rússia do Mar Negro. “Isso é apenas a repetição da Guerra da Crimeia. Exatamente.”
Trump quer paz, mas é incapaz de ser presidente, diz Sachs
Apesar das críticas, Sachs afirmou acreditar que Trump quer encerrar a guerra, mas não tem capacidade política para isso. “Eu realmente acho que ele quer acabar com a guerra, mas ele é incapaz de ser presidencial do jeito que seria necessário para acabar com a guerra.”
Ele disse que Trump é ignorante, incompetente e cercado por figuras belicistas. “Trump é incompetente acima de tudo. Ele é ignorante e está cercado pelos Lindsey Grahams do mundo e pelos Richard Blumenthals.” Para Sachs, esses parlamentares seriam financiados pelo complexo militar-industrial e seriam “promotores de guerra”. “Essas são pessoas na folha de pagamento do complexo militar-industrial dos EUA. Eles são belicistas.”
O economista afirmou que a Europa também alimenta a guerra, e que a liderança ucraniana não representaria o povo do país. “Zelensky é parte de uma gangue. Eles são gangsters, na minha opinião.” E acrescentou: “Eles não estão representando os interesses do povo ucraniano.”
“Ninguém quer guerra, exceto os governos”
Sachs concluiu com uma visão amarga: segundo ele, quase todos os atores institucionais querem guerra, menos os povos. “Todo mundo quer guerra, exceto as pessoas em si.” Ele disse que, enquanto isso, jovens são arrastados para o front e mortos. “Eles estão prontos para arrastar qualquer um das ruas de Lviv ou Odessa ou onde quer que encontrem um jovem e colocá-lo na linha de frente para morrer.”
Para o economista, o resultado é uma tragédia humana e política, impulsionada por governos sem legitimidade social e por estruturas de poder que já não respondem à democracia formal. “Isso é o que está acontecendo agora. É absolutamente trágico.”
Foto: Reprodução Youtube
FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/sachs-diz-que-trump-e-louco-e-alerta-para-risco-de-guerra-global-em-meio-ao-colapso-politico-do-ocidente