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Saúde mental na nova sociedade de serviços hiperconectada na era digital

Marcio Pochmann examina dados da PeNSE e aponta agravamento da saúde mental de jovens na sociedade digital hiperconectada brasileira.

Com a passagem da era industrial para a era digital, a saúde mental da população, especialmente dos jovens, tornou-se uma preocupação cada vez maior em todo o mundo. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, oferece um panorama importante sobre a realidade dos estudantes de 13 a 17 anos. Seus dados ajudam a compreender tendências de saúde e bem-estar em uma sociedade marcada pela hiperconectividade, pela expansão dos serviços e pela digitalização da vida cotidiana.

Realizada desde 2009, a PeNSE é o principal inquérito nacional voltado ao monitoramento dos fatores de risco e proteção à saúde de adolescentes no ambiente escolar. Sua quinta edição, referente ao ano de 2024 e recentemente divulgada, mostra um quadro ambivalente. Houve melhora em alguns indicadores sociais e em certos hábitos de risco, mas também agravamento de vulnerabilidades psicossociais e comportamentais.

Um dos traços mais importantes dessa mudança é a quase universalização do acesso à internet no domicílio. Esse avanço ocorreu ao mesmo tempo em que se transformaram os riscos à saúde dos adolescentes brasileiros. Se alguns comportamentos clássicos de risco perderam força, a PeNSE 2024 revelou um cenário particularmente preocupante para a saúde mental e para a sociabilidade escolar.

A pesquisa mostra que 27,2% dos estudantes disseram sofrer bullying, enquanto 13,7% admitiram praticá-lo. Entre as meninas, a proporção de vítimas chegou a 30,1%. O cyberbullying, investigado desde a edição anterior, atingiu 12,7% dos adolescentes em 2024, e a nova edição passou também a registrar a prática desse tipo de violência. Ao mesmo tempo, caiu a satisfação com a própria imagem corporal, pois apenas 58,0% dos adolescentes declararam estar satisfeitos com o próprio corpo.

Os indicadores de sofrimento psíquico também chamam atenção. Em 2024, por exemplo, 18,5% dos estudantes afirmaram ter sentido, na maioria das vezes ou sempre, que a vida não vale a pena ser vivida nos 30 dias anteriores à pesquisa. Além disso, 32,0% relataram vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores. Em todos esses casos, a situação das meninas é mais grave, uma vez que 25,0% delas relataram perda de sentido de viver e 43,4% disseram ter sentido vontade de autoagressão. Esses dados mostram que a mudança recente no perfil de vulnerabilidade juvenil não pode ser analisada apenas a partir de hábitos de consumo ou comportamentos isolados. Ela faz parte de um quadro mais amplo de sofrimento psíquico, exposição à violência interpessoal e mal-estar corporal.

A violência sexual reforça esse diagnóstico. Em 2024, 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos declararam já ter sofrido assédio sexual alguma vez na vida. O percentual dos que disseram ter sido forçados a manter relações sexuais chegou a 8,8%. As meninas seguem como as principais vítimas: 26,0% relataram assédio sexual e 11,7% declararam ter sofrido sexo forçado. A pesquisa também mostrou maior presença do contexto familiar entre os agressores, o que amplia a compreensão da violência para além do espaço público ou escolar, incluindo relações domésticas e vínculos interpessoais próximos.

Em síntese, a PeNSE mostra que o perfil de vulnerabilidade dos jovens brasileiros mudou. Os riscos se deslocam progressivamente para uma combinação de sofrimento psíquico, violência, bullying, insatisfação corporal e novas formas de consumo e exposição digital. Mais do que registrar tendências epidemiológicas, a pesquisa documenta a transformação do próprio ambiente social da adolescência brasileira.

Esse quadro dialoga com preocupações que vêm sendo levantadas internacionalmente sobre os efeitos do ambiente digital na saúde mental dos jovens. A literatura recente aponta associações consistentes entre o uso problemático de redes sociais e a piora de indicadores de ansiedade e depressão, bem como maior pressão por comparação social e pior bem-estar subjetivo. Ao mesmo tempo, revisões mais recentes mostram que os efeitos médios encontrados variam de pequenos a moderados e que os resultados dependem de fatores como intensidade e padrão de uso, contexto familiar, características individuais e condições sociais mais amplas.

Nesse sentido, os resultados da PeNSE podem ser relacionados à interpretação formulada por Jonathan Haidt em A geração ansiosa. Em linhas gerais, o autor sustenta que a deterioração recente da saúde mental de crianças e adolescentes está associada à passagem de uma infância organizada por interações presenciais, brincadeiras e autonomia gradual para outra fortemente mediada por smartphones, redes sociais e ambientes digitais permanentes.

Segundo essa leitura, houve simultaneamente superproteção no mundo físico e subproteção no mundo digital. Seus efeitos seriam mais intensos sobre as meninas, especialmente por causa da exposição constante, da comparação social, da vigilância entre pares e das agressões relacionais nas redes. A vida juvenil teria passado a ser marcada por mais exposição pública, maior comparação social e maior vulnerabilidade psíquica. A partir desse diagnóstico, Haidt propõe quatro orientações principais: não usar smartphone antes do ensino médio, não permitir redes sociais antes dos 16 anos, manter escolas sem celular e ampliar a autonomia e as brincadeiras no mundo real (HAIDT, 2024).

A tese de Haidt é intelectualmente forte e encontra respaldo parcial em evidências empíricas. Ainda assim, a sua generalização como explicação única da crise contemporânea da adolescência continua sendo debatida. Por isso, a contribuição parece mais fecunda quando tomada como uma chave interpretativa relevante, mas parcial.

A PeNSE oferece evidências importantes de que a digitalização da vida adolescente está associada a novas formas de sofrimento, sobretudo entre as meninas, e de que o ambiente escolar e relacional se tornou mais permeado por conflitos simbólicos, pressões estéticas e violência mediada por tecnologia. No entanto, os próprios dados do IBGE indicam que, no caso brasileiro, a crise da saúde mental juvenil precisa ser compreendida de forma mais ampla, incorporando violência, desigualdade, território, gênero e condições institucionais de proteção social.

Isso porque a mudança no perfil da juventude na nova sociedade de serviços no Brasil não pode ser reduzida apenas ao problema da tecnologia. A saúde mental e o sofrimento adolescente também estão fortemente ligados à violência doméstica, à insegurança cotidiana e à fragilidade dos ambientes de proteção. A PeNSE registra, por exemplo, aumento da insegurança no trajeto e na escola, crescimento da agressão física praticada por adultos da família e piora de diferentes indicadores de vulnerabilidade social. Tudo isso aponta para uma crise juvenil com múltiplos determinantes, e não apenas para os efeitos de uma infância baseada no celular.

Em suma, a PeNSE oferece evidências que tornam plausível a leitura de A geração ansiosa em vários aspectos, especialmente no que se refere à saúde mental das meninas, à insatisfação corporal e à violência entre pares em ambientes mediados por tecnologia. Mas os próprios dados do IBGE recomendam uma interpretação mais abrangente, na qual a digitalização constitui parte do problema, e não sua explicação completa. Se a tese de Haidt ajuda a iluminar a dimensão tecnológica da crise, a PeNSE mostra que, no Brasil, essa crise precisa ser pensada também em articulação com desigualdades, violência familiar, insegurança social e transformações mais amplas da adolescência contemporânea.Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE. Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Referências

ANDERSON, T. et al. Contributing Factors to the Rise in Adolescent Anxiety and Depression. NLM/NCBI, 2024.HAIDT, J. A geração ansiosa. Cia. das Letras, 2024.IBGE. Questão de gênero: indicadores de saúde mental são piores para as meninas. Rio de Janeiro, 2021.IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar: 2024. Rio de Janeiro, 2026.PRASAD, S. et al. Anxiety and Depression Amongst Youth as Adverse Effects of Social Media: A Review. NLM/NCBI, 2023.SAMETOĞLU, S. et al.The Association Between Frequency of Social Media Use, Wellbeing, and Depressive Symptoms: Disentangling Genetic and Environmental Factors. NLM/NCBI, 2025.

Imagem: Pixabay

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/saude-mental-na-nova-sociedade-de-servicos-hiperconectada-na-era-digital