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‘Se não tivermos IA própria, vamos viver um neocolonialismo digital’, alerta Mercadante

Em entrevista ao programa ‘Economia e Futuro’, presidente do BNDES detalha novo superciclo de obras, ferrovias e transição ecológica.

247 – O Brasil vive um superciclo histórico de investimentos em infraestrutura, com a meta de mobilizar até R$ 1 trilhão nos próximos anos. O diagnóstico foi apresentado pelo presidente do BNDES, Aloízio Mercadante, e pelo head de infraestrutura da Brookfield na América do Sul, Marcos Almeida, durante participação no programa Economia e Futuro.

O novo padrão de desenvolvimento baseia-se na integração entre o investimento público indutor e o capital privado, associando a modernização logística à agenda de transição climática, reindustrialização e soberania tecnológica.

Capital paciente e revolução na mobilidade urbana

Para viabilizar obras de longo prazo, Mercadante ressaltou o papel central do BNDES na oferta do chamado “capital paciente” — financiamentos com prazos estendidos de 30 a 40 anos, compatíveis com a maturação de grandes projetos estruturantes.

Entre as prioridades do planejamento governamental está a mobilidade nas grandes cidades. Um estudo concluído pelo BNDES mapeou as necessidades das 41 maiores concentrações urbanas do país, identificando uma demanda de R$ 400 bilhões em investimentos para expandir e modernizar redes de metrô, VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos) e BRTs.

Nas rodovias, o modelo de concessões passou por uma reformulação jurídica e financeira. Um dos destaques é a Nova Dutra, que passa por intervenções como a reestruturação da Serra das Araras — com 92 viadutos e ampliação de pistas —, além da implantação de iluminação LED e conectividade 5G ao longo de todo o trecho. O financiamento tem contado com inovações como a emissão de debêntures e a estruturação de project finance, garantido pelo próprio fluxo de caixa dos pedágios.

Retomada das ferrovias e descarbonização

A recuperação do modal ferroviário desponta como prioridade para reduzir o “Custo Brasil” e acelerar a descarbonização da matriz de transportes. Segundo Marcos Almeida, da Brookfield, o transporte de cargas por trilhos é vetor decisivo para aumentar a competitividade das exportações agropecuárias e industriais brasileiras, reduzindo radicalmente a pegada de carbono em comparação ao transporte rodoviário.

Mercadante lembrou que empreendimentos como o Trem Intercidades (conectando Campinas a São Paulo), a Transnordestina e a concessão da Rumo marcam a reativação da indústria ferroviária nacional, gerando emprego e renda no setor metalmecânico.

Soberania em Inteligência Artificial e Data Centers

A fronteira tecnológica da infraestrutura brasileira agora passa pelos dados. O aumento exponencial no processamento demandado pela Inteligência Artificial — até 300 vezes superior ao de buscas convencionais — transformou o Brasil em um hub atrativo para mega data centers de 200 a 250 MW.

A grande vantagem competitiva do país reside na sua matriz energética predominantemente limpa e renovável (solar, eólica, hídrica e biomassa), somada à estabilidade geopolítica do território nacional.

Contudo, Mercadante e Almeida defenderam que o crescimento da infraestrutura digital precisa vir acompanhado do fortalecimento da soberania de dados:

  • Proteção de Dados Estratégicos: Garantia de ambientes digitais seguros e públicos para informações críticas da saúde (SUS), defesa nacional e o sistema financeiro, resguardando o país contra ciberataques e futuros desafios da computação quântica.
  • Inteligência Artificial em Língua Portuguesa: Desenvolvimento de modelos de IA nacionais e soberanos para evitar o “neocolonialismo digital”, preservando a cultura, a história e a identidade brasileiras frente às plataformas estrangeiras.

Selo de integridade e atração de investimentos globais

A transformação interna do BNDES nos últimos três anos também foi destacada. Com a conquista do topo do ranking de transparência do estado brasileiro e o selo de ética da Controladoria-Geral da União (CGU), a instituição consolidou-se como um garantidor de governança e rigor técnico para investidores internacionais.

Com fundos globais direcionando bilhões para a transição energética e a infraestrutura sustentável, o Brasil posiciona-se não apenas para recuperar atrasos históricos, mas para liderar a economia verde e digital do século XXI.

FOTO: Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/ideias/se-nao-tivermos-ia-propria-vamos-viver-um-neocolonialismo-digital-alerta-mercadante/