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Seleção brasileira atravessa fronteiras e vira patrimônio global, com torcida gigante em vários países

vídeos de torcedores estrangeiros celebrando gols e vitórias da seleção têm viralizado nas redes sociais.

O Brasil vira patrimônio global com força da seleção ao mobilizar torcedores em países sem ligação direta com o futebol brasileiro, fenômeno que ganhou novas imagens durante a Copa do Mundo de 2026. De Bangladesh à Jamaica, passando por Índia e Líbano, a camisa amarela voltou a aparecer como símbolo de identificação coletiva para multidões que não falam português nem têm relação familiar com o país.

A constatação foi tema de reportagem da Deutsche Welle, que analisou como o futebol brasileiro se consolidou como uma das marcas culturais mais reconhecidas do planeta. A publicação destaca que vídeos de torcedores estrangeiros celebrando gols e vitórias da seleção têm viralizado nas redes sociais, reforçando a força simbólica do Brasil no imaginário esportivo mundial.

O fenômeno vai além da campanha atual. Mesmo após mais de duas décadas sem conquistar uma Copa do Mundo, a seleção brasileira preserva um prestígio que combina memória histórica, futebol ofensivo, ídolos globais e uma narrativa construída ao longo de gerações. Para muitos torcedores fora do país, o Brasil representa mais do que uma equipe: representa uma ideia de futebol associada à criatividade, à alegria e ao espetáculo.

O antropólogo e pesquisador Édison Gastaldo resume essa percepção ao afirmar que, no imaginário da Copa, a seleção brasileira ocupa um lugar próprio. Segundo ele, o Brasil é visto como o time do qual se espera “alegria, paixão e toques de genialidade”. Essa expectativa ajuda a explicar por que torcedores de diferentes continentes continuam acompanhando a equipe mesmo sem qualquer vínculo direto com o país.

A imagem internacional do chamado “futebol-arte” foi formada por campanhas históricas e por jogadores que marcaram épocas. De Leônidas da Silva a Pelé, de Ronaldo a Neymar e Vini Jr., a seleção brasileira produziu personagens capazes de atravessar fronteiras culturais e linguísticas. A camisa amarela se tornou, assim, um elemento de reconhecimento global.

O peso esportivo também conta. O Brasil segue como maior campeão mundial, com cinco títulos, e construiu sua autoridade em Copas com atuações que entraram para a história. A vitória por 5 a 2 sobre a Suécia na final de 1958, por exemplo, projetou internacionalmente uma seleção jovem, ofensiva e tecnicamente superior às potências europeias daquele período.

Na avaliação de Gastaldo, a trajetória brasileira também ajudou a criar a imagem do país como representante simbólico do Sul Global. A ideia parte do contraste entre o protagonismo histórico das seleções europeias e a força de equipes sul-americanas, em especial Brasil, Argentina e Uruguai, que somam parte expressiva dos títulos mundiais.

Essa leitura é compartilhada por estudiosos da cultura esportiva. O professor emérito John Hughson, da University of Central Lancashire, no Reino Unido, avalia que muitos torcedores de países não ocidentais encontram no Brasil uma identificação que ultrapassa o futebol. Para ele, a seleção brasileira pode representar, em determinados contextos, uma vitória simbólica de países marcados por histórias de colonialismo e desigualdade.

Hughson também aponta que, em regiões da África, há uma conexão cultural com o Brasil relacionada à presença da maior população afrodescendente fora do continente africano entre as originadas pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Música, tradições populares e memória histórica reforçam essa ponte afetiva.

A força da seleção brasileira, contudo, não se explica apenas por vitórias. Para a pesquisadora Leda Maria da Costa, do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, os meios de comunicação foram decisivos para transformar jogos, gols e conquistas em narrativas de alcance internacional.

Com a televisão, e posteriormente com as redes sociais, lances históricos e personagens carismáticos passaram a circular com intensidade ainda maior. A memória das Copas se tornou compartilhada entre gerações, mesmo em países distantes do Brasil. Segundo Leda, essas narrativas não são pura invenção: dependem de resultados, de craques e de momentos capazes de sustentar a imagem de um estilo próprio.

Bangladesh é um dos exemplos mais expressivos dessa relação internacional com a seleção brasileira. O país asiático não tem uma tradição migratória ligada ao Brasil, mas desenvolveu uma paixão antiga pelo futebol brasileiro. O tricampeonato de 1970, liderado por Pelé, teve impacto sobre Sheikh Mujibur Rahman, líder do movimento independentista de Bangladesh e admirador declarado da seleção.

A ligação, porém, não ficou restrita à memória de Pelé. A paixão local também passa por outros ídolos do futebol mundial. Em Bangladesh, o Brasil divide afetos com a Argentina, impulsionada por Diego Maradona e Lionel Messi. As imagens de torcedores celebrando vitórias argentinas em 2022 já haviam chamado atenção internacional, mostrando que os grandes craques funcionam como pontes emocionais entre países e seleções.

No caso argentino, a figura de Maradona teve significado político e cultural particular. Seu desempenho contra a Inglaterra na Copa de 1986, especialmente em um contexto marcado pela memória colonial e pela Guerra das Malvinas, ampliou sua dimensão simbólica em várias regiões do mundo. Para Gastaldo, Maradona representou uma figura rebelde e de enfrentamento aos poderosos do futebol.

A Jamaica aparece nesse mapa de afetos por outra via. A relação de Bob Marley com o futebol brasileiro e a admiração internacional por Pelé ajudaram a inserir o Brasil no repertório cultural de parte da ilha caribenha. Em diferentes contextos, a seleção passou a ser percebida como uma equipe capaz de unir estética, talento e identidade popular.

O fenômeno ajuda a explicar por que, mesmo em jejum desde 2002, o Brasil continua a ocupar lugar central no imaginário global do futebol. A seleção brasileira não é acompanhada apenas pelos seus resultados recentes, mas pelo que acumulou ao longo de quase um século de Copas: títulos, craques, imagens inesquecíveis e a expectativa permanente de que o jogo possa ser também uma forma de arte.

FOTO: Rafael Ribeiro/CBF

FONTE: https://www.brasil247.com/247-na-copa/selecao-brasileira-atravessa-fronteiras-e-vira-patrimonio-global-com-torcida-gigante-em-varios-paises/