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Sem Lula, o Brasil ajoelha

2026 decide se o Brasil segue soberano ou se vira um país subordinado e um povo de joelhos.

Enquanto parte da elite ainda trata 2026 como mais uma eleição, o mundo real já entrou em disputa aberta por poder, tecnologia e recursos estratégicos. O Brasil está no centro desse conflito. Não é sobre ideologia. É sobre soberania, economia e sobrevivência. E, desta vez, o custo do erro não será político. Será histórico.

A eleição que não é eleição

A eleição de 2026 não é uma disputa eleitoral comum. Ela acontece em um momento em que o sistema internacional deixou de operar em lógica de estabilidade e voltou a funcionar como disputa aberta por poder, recursos e tecnologia. Cadeias produtivas estão sendo reorganizadas, países centrais disputam controle sobre minerais estratégicos, infraestrutura digital e energia, e a América Latina voltou a ser tratada como zona prioritária de influência.

O Brasil está no centro desse movimento.

Não por discurso, mas por posição material. O país concentra uma das maiores reservas de terras raras do mundo, insumos essenciais para chips, baterias e sistemas militares; possui grandes reservas de petróleo no pré-sal; tem uma matriz energética diversificada e uma base produtiva ainda relevante em setores industriais e agroexportadores. Em um cenário de competição global, esse conjunto transforma o Brasil em ativo estratégico.

E ativos estratégicos não ficam neutros.

O erro mais comum na leitura de 2026 é tratá-la como mais um ciclo político interno. Essa interpretação ignora que decisões domésticas hoje têm efeito direto sobre o lugar que o país ocupa na economia global. Países que mantêm capacidade de decisão organizam suas cadeias produtivas, regulam seus setores estratégicos e negociam em posição de força. Países que perdem essa capacidade passam a operar como plataformas de extração e execução.

Essa diferença não é teórica.

Ela define quem controla os recursos, quem se apropria do valor gerado no território e quem estabelece as regras sob as quais a economia funciona. Em um mundo em que a disputa por tecnologia, energia e minerais se intensifica, não existe espaço real para neutralidade.

É por isso que 2026 não decide apenas quem governa.

Decide se o Brasil continuará sendo um país com margem de decisão própria ou se passará a funcionar de forma subordinada dentro de uma estrutura de poder maior.

E, neste cenário, não escolher também é uma forma de escolha.

Porque países que não definem sua posição acabam sendo definidos por outros.

O cerco real

O reposicionamento da América Latina já está em curso, e ele não acontece no plano do discurso, mas no da operação concreta. Em março de 2026, o Paraguai aprovou um acordo que amplia a presença temporária de militares e civis dos Estados Unidos em seu território, com regras especiais de atuação. Poucos dias antes, no SOUTHCOM, a Casa Branca afirmou que cartéis na região “só podem ser derrotados com poder militar”, elevando o narcotráfico à categoria de ameaça equivalente a grupos terroristas.

Essa mudança de linguagem não é detalhe.

Ela redefine o enquadramento da região. Ao transformar segurança pública em questão militar, abre espaço para ampliação de presença externa, integração de inteligência e construção de uma arquitetura regional de segurança orientada por interesses estratégicos que não se originam nos países latino-americanos.

O Brasil está inserido nesse ambiente.

Ao mesmo tempo em que países vizinhos ampliam cooperação militar com os Estados Unidos e aceitam maior integração securitária, organismos internacionais mantêm pressão por ajuste fiscal e reorganização econômica na região. Em julho de 2025, o Fundo Monetário Internacional ampliou em US$ 1 bilhão o programa do Equador, condicionando o apoio a metas fiscais rígidas e reformas estruturais. O padrão se repete: disciplina econômica combinada com reconfiguração institucional.

Esse é o formato contemporâneo de pressão.

Ele não exige ruptura formal, nem intervenção direta. Ele opera por alinhamento progressivo. Países passam a adaptar suas políticas de segurança, economia e infraestrutura a uma lógica externa, mantendo formalmente sua soberania, mas reduzindo, na prática, sua capacidade de decisão.

O resultado é previsível.

À medida que esse modelo se expande, a região deixa de funcionar como conjunto de economias com estratégias próprias e passa a operar como extensão de cadeias produtivas, logísticas e de segurança coordenadas fora dela. O espaço de decisão se estreita, e a autonomia passa a ser exceção, não regra.

É nesse contexto que o Brasil se move.

E é por isso que tratar 2026 como um evento isolado é um erro de leitura. A eleição acontece dentro de um processo mais amplo, em que o entorno do país já está sendo reorganizado. O que está em disputa não é apenas o governo interno, mas a capacidade de resistir ou se integrar a esse movimento.

Porque, quando o cerco se fecha ao redor, a margem de decisão dentro também começa a diminuir.

Como se destrói um país por dentro

O Brasil não precisa imaginar como um país perde capacidade estratégica. Já viveu isso recentemente.

Entre 2014 e 2018, a Operação Lava Jato atingiu diretamente os maiores grupos de engenharia e construção do país, responsáveis por obras de infraestrutura, energia e logística dentro e fora do território nacional. Empresas como Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa perderam contratos, acesso a crédito e capacidade operacional em poucos anos, interrompendo cadeias produtivas inteiras.

Os efeitos foram mensuráveis.

Estudos do National Bureau of Economic Research apontam que empresas diretamente atingidas sofreram queda significativa de emprego, redução da massa salarial e retração de financiamento. O impacto se espalhou pelo sistema bancário, que passou a restringir crédito também a empresas não investigadas, ampliando o dano para além dos alvos originais.

Não foi apenas um processo jurídico.

Foi um choque sistêmico.

Projetos estratégicos foram paralisados, obras interrompidas e setores inteiros perderam continuidade. A engenharia pesada brasileira, que operava em escala internacional e acumulava décadas de conhecimento técnico, foi praticamente desestruturada. Essa perda não é facilmente reversível: capacidade industrial depende de tempo, investimento e estabilidade — três fatores que foram interrompidos simultaneamente.

O impacto não ficou restrito à economia.

O processo também contribuiu para desorganizar o sistema político e fragilizar instituições, criando um ambiente de instabilidade que abriu espaço para radicalização e perda de coordenação estratégica. Ao atingir economia e política ao mesmo tempo, reduziu a capacidade do país de agir como unidade organizada no cenário internacional.

Esse padrão é conhecido.

Países não precisam ser invadidos para serem enfraquecidos. Basta interromper suas cadeias produtivas, desorganizar seus setores estratégicos e gerar instabilidade interna suficiente para limitar sua capacidade de decisão.

O Brasil já passou por esse ciclo.

E é isso que torna o momento atual mais sensível. O país iniciou, nos últimos anos, um processo de recomposição parcial de sua base produtiva e de seus projetos estratégicos. Mas essa reconstrução ainda é recente, incompleta e, sobretudo, vulnerável.

Se um novo ciclo de desestruturação for iniciado antes que essa base se consolide, o efeito não será apenas repetição.

Será aprofundamento.

Porque, desta vez, o país já chega mais fragilizado e com menos tempo para reagir.

O Brasil como prêmio do século XXI

O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica no centro da disputa global por recursos, energia e tecnologia. Não por projeção política, mas por concentração material. O país detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, insumos essenciais para semicondutores, baterias, sistemas de inteligência artificial e indústria militar. Esses minerais são considerados críticos por potências como Estados Unidos e China, que competem diretamente pelo controle dessas cadeias.

Essa disputa não é abstrata.

Ela se traduz em política industrial, investimento externo e pressão regulatória. Países que controlam essas cadeias controlam a produção de tecnologia e a capacidade de inovar. Países que não controlam tornam-se fornecedores de matéria-prima dentro de estruturas produtivas que operam fora de seu território.

O mesmo se aplica à energia.

O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e grandes reservas de petróleo no pré-sal, operadas por empresas como a Petrobras. Em um cenário de transição energética e instabilidade geopolítica, capacidade de produzir e exportar energia se tornou ativo estratégico central. Isso amplia o valor do país no sistema internacional, mas também aumenta a pressão sobre suas decisões.

No campo industrial, o país voltou a dar sinais de recomposição.

Em 2026, foi apresentado o primeiro caça supersônico montado em território nacional no âmbito do programa Gripen, desenvolvido em parceria com a Saab e produzido pela Embraer. O projeto envolve transferência de tecnologia e reativação de capacidades industriais sensíveis, indicando que o Brasil voltou a investir em setores estratégicos de alta complexidade.

Esse tipo de movimento tem peso geopolítico.

Países que desenvolvem tecnologia própria aumentam sua margem de decisão. Países que não desenvolvem passam a depender de fornecedores externos para setores críticos. Essa diferença define autonomia ou dependência.

A disputa também se estende ao campo digital.

O Brasil passou a ser alvo de projetos para instalação de data centers e expansão de infraestrutura de dados, em um mercado estimado em trilhões de reais ao longo da próxima década. Ao mesmo tempo, enfrenta a pressão de grandes plataformas globais que buscam operar com menor regulação em mercados estratégicos. O controle sobre dados, algoritmos e infraestrutura digital tornou-se um dos principais campos de disputa do século XXI.

Tudo isso converge para um ponto.

O Brasil não é apenas um país relevante. É um território onde diferentes interesses estratégicos se cruzam. Minerais, energia, indústria e dados formam uma base material que sustenta o poder contemporâneo. E essa base está concentrada dentro do território brasileiro.

É por isso que o país se tornou um prêmio.

E, como todo prêmio em disputa, não permanece indefinido por muito tempo.

O que está em jogo não é a existência desses recursos.

É quem controla as regras sob as quais eles serão explorados, quem se apropria do valor gerado e quem define o destino estratégico do país.

Essa decisão não é técnica.

É política.

E é exatamente isso que 2026 coloca em aberto.

O aviso ao lado: o modo Milei

O que acontece hoje na Argentina não é um caso isolado. É um exemplo concreto de como países pressionados podem ser rapidamente reorganizados dentro de uma lógica de subordinação econômica e política.

Em 2025, a economia argentina cresceu 4,4%, puxada por setores ligados a commodities, mineração e finanças. Ao mesmo tempo, fábricas fecharam, a indústria perdeu participação e a renda real da população caiu. Serviços essenciais como energia, transporte e moradia subiram acima da inflação média, enquanto o governo implementou cortes profundos em áreas como educação, saúde e assistência social.

Os dados não são contraditórios.

Eles são complementares.

O modelo melhora indicadores macroeconômicos ao mesmo tempo em que deteriora a base produtiva e as condições de vida da população. A economia passa a funcionar com maior eficiência para exportar e atrair capital externo, mas perde capacidade de gerar emprego qualificado, sustentar indústria e manter autonomia de longo prazo.

Esse processo tem direção clara.

Em março de 2026, o governo de Javier Milei anunciou proposta para flexibilizar regras de propriedade estrangeira sobre terras rurais, abrindo espaço para maior presença de capital externo em setores estratégicos como petróleo, mineração e agronegócio. Não se trata apenas de ajuste fiscal. Trata-se de reorganização do controle sobre território e recursos.

Esse é o ponto central.

O “modo Milei” não é apenas uma política econômica. É um reposicionamento estrutural. A Argentina deixa de operar como uma economia com margem de decisão própria e passa a funcionar como plataforma integrada a interesses externos, com menor capacidade de negociar e maior vulnerabilidade a ciclos internacionais.

O impacto não é imediato em toda a sua extensão.

Ele se acumula.

A cada decisão que reduz o papel do Estado, flexibiliza controle sobre ativos estratégicos ou prioriza alinhamento externo, a margem de decisão diminui. E, quando essa margem se reduz além de certo ponto, ela não é facilmente recuperada.

É isso que torna o caso argentino relevante para o Brasil.

Não porque os dois países sejam iguais, mas porque o mecanismo é replicável. O Brasil possui mais recursos, maior território e base produtiva mais ampla. Isso o torna mais resistente, mas também mais valioso dentro do sistema internacional.

E, por isso, mais pressionado.

A ideia de que o país é grande demais para seguir o mesmo caminho ignora um ponto fundamental: o que define a trajetória não é o tamanho, mas a direção política. Se a lógica de abertura sem contrapartida, alinhamento automático e enfraquecimento de instrumentos nacionais for adotada, o resultado não será uma repetição simples.

Será uma versão ampliada.

Com mais impacto, mais alcance e maior dificuldade de reversão.

O exemplo já está ao lado.

E ele não é teórico.

É concreto, mensurável e recente.

Ignorá-lo não impede que o processo se repita.

Apenas reduz o tempo de reação quando ele começar.

A decisão — e o preço do erro

Depois de tudo que está colocado — o cerco regional, a destruição interna já vivida, a disputa por recursos estratégicos e o exemplo concreto da Argentina — a escolha de 2026 deixa de ser interpretativa.

Ela passa a ser objetiva.

O Brasil hoje opera com uma margem limitada, mas real, de decisão no sistema internacional. Mantém relações com diferentes polos, negocia investimentos, preserva parte de sua capacidade produtiva e tenta reconstruir setores estratégicos que foram desmontados na última década. Essa posição não é estável, nem garantida, mas existe.

E ela depende de um arranjo político específico.

Neste momento, esse arranjo está organizado em torno de Luiz Inácio Lula da Silva. Não como símbolo, mas como operador de uma estratégia que combina abertura econômica com tentativa de preservação de autonomia. É essa combinação que permite ao país continuar negociando sem se submeter integralmente.

A substituição desse arranjo não é neutra.

Alternativas que operam por alinhamento automático a interesses externos, flexibilização de controle sobre ativos estratégicos e redução do papel do Estado tendem a produzir um efeito direto: diminuição da margem de decisão. Não como ruptura imediata, mas como adaptação progressiva a uma lógica em que o país define menos e executa mais.

Esse processo já foi visto.

No Brasil, quando cadeias produtivas foram interrompidas e a capacidade industrial foi reduzida. Na Argentina, onde ajuste econômico veio acompanhado de perda de autonomia e abertura de setores estratégicos. Na região, onde segurança, economia e infraestrutura passam a ser reorganizadas sob influência externa crescente.

O padrão é consistente.

A diferença entre os caminhos não está no discurso.

Está no resultado.

De um lado, a manutenção de uma margem de negociação, ainda que limitada, que permite ao país produzir, regular e decidir sobre parte de seus recursos. Do outro, a transição para um modelo em que essas decisões passam a ser condicionadas por interesses externos, com menor capacidade de reversão.

Essa diferença não será absorvida pelo sistema.

Ela será cobrada.

Na indústria, na tecnologia, na exploração de recursos, na capacidade de investimento e, principalmente, na vida concreta da população. Países que perdem autonomia não apenas crescem menos. Eles crescem de forma mais dependente, mais instável e com menor capacidade de distribuir os resultados.

O Brasil ainda tem escolha.

Mas essa escolha não é ilimitada no tempo.

Decisões desse tipo produzem efeitos cumulativos. Quando a margem de decisão se reduz além de certo ponto, ela não retorna por vontade política. Retorna, quando retorna, após ciclos longos de perda, ajuste e reconstrução.

É isso que 2026 coloca em jogo.

Não a alternância de governo.

Mas a capacidade de o Brasil continuar operando como sujeito ou passar a funcionar como plataforma dentro de um sistema maior.

E, desta vez, o custo do erro não será abstrato.

Será compartilhado.

Porque um país que perde sua autonomia não mantém ilhas de prosperidade isoladas. Ele reorganiza toda a sua estrutura em torno dessa perda.

Se o Brasil ajoelha, ninguém fica de pé.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Foto: Ricardo Stuckert / PR

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/sem-lula-o-brasil-ajoelha