Analista afirma que Washington usou a trégua para recompor estoques, rejeita a normalização do Irã e pretende manter o conflito em ciclos de ataques e cessar-fogo.
247 – O jornalista e analista geopolítico Shobhan Saxena avalia que a retomada dos ataques dos Estados Unidos contra o Irã representa o naufrágio do cessar-fogo negociado em junho e confirma que Washington não pretende buscar uma solução diplomática duradoura para o conflito. Para ele, a guerra deverá continuar de forma intermitente, alternando ofensivas militares e períodos de trégua.
As declarações foram dadas ao programa Forças do Brasil, da TV 247. Radicado no Brasil e correspondente de veículos de comunicação indianos, Saxena afirmou que o memorando de entendimento firmado na Suíça perdeu qualquer validade diante das novas ações militares norte-americanas.
“Eu acho que a guerra voltou mesmo e também acho que vai continuar. Esse memorando de entendimento agora não vale nada”, declarou. Segundo o jornalista, os Estados Unidos e seus aliados europeus não estão dispostos a reconhecer que o Irã resistiu às ofensivas nem a aceitar sua reintegração plena ao comércio internacional.
Na interpretação de Saxena, permitir que Teerã volte a vender petróleo e gás sem restrições significaria reconhecer o Irã como uma potência regional independente. Essa possibilidade, afirmou, contraria interesses estratégicos mantidos por Washington desde a Revolução Islâmica de 1979, que encerrou a influência direta dos Estados Unidos sobre o governo iraniano e sobre parte significativa de seus recursos energéticos.
“O Ocidente não está preparado para aceitar o Irã como membro da comunidade internacional. Não quer que o país volte a fazer comércio, vender petróleo e vender gás no mercado internacional”, disse.
Saxena relacionou a política norte-americana ao objetivo histórico de enfraquecer ou derrubar o Estado iraniano. Para ele, as intervenções realizadas no Oriente Médio nas últimas décadas, incluindo a guerra contra o Iraque, não produziram o isolamento esperado de Teerã. Ao contrário, a queda de Saddam Hussein ampliou a influência iraniana no território iraquiano e fortaleceu vínculos políticos, econômicos e religiosos entre os dois países.
O analista considera que os Estados Unidos sofreram uma derrota estratégica porque não alcançaram os objetivos anunciados desde o início da ofensiva. O governo iraniano não caiu, suas principais estruturas militares sobreviveram e os programas nuclear, de mísseis balísticos e de drones não foram eliminados.
“Os Estados Unidos perderam a guerra estrategicamente. Quando a guerra começou, Donald Trump falou em derrubar o regime, mas o governo não caiu. Depois disse que destruiria as instalações nucleares, o programa de mísseis e os drones, mas também não conseguiu”, afirmou.
Para Saxena, as frequentes mudanças no discurso de Trump demonstram a ausência de resultados concretos. Ao longo do conflito, o presidente norte-americano teria alterado sucessivamente as justificativas apresentadas para os ataques, mas mantido um objetivo constante: reduzir a capacidade do Irã de funcionar como Estado soberano.
O jornalista chamou atenção para a destruição de hospitais, universidades, centros de pesquisa, ferrovias, pontes e outras estruturas civis. Na sua avaliação, os bombardeios não se destinam apenas a atingir alvos militares, mas a comprometer serviços públicos, redes de transporte e instituições científicas iranianas.
“Quando você destrói universidades, faculdades, institutos de pesquisa, trens, hospitais e clínicas, você destrói o Estado”, ressaltou. Saxena comparou o impacto dessas ações ao que representaria, para o Brasil, um ataque contra instituições estratégicas de pesquisa e produção de vacinas, como o Instituto Butantan.
Segundo o analista, o cessar-fogo acertado em junho teria servido principalmente para que os Estados Unidos recompusessem seus estoques de armamentos e suas reservas estratégicas de petróleo. O aumento da inflação e as pressões sobre o mercado energético também teriam contribuído para a interrupção temporária das operações.
“O acordo foi apenas para ganhar tempo, produzir mais armas e aumentar novamente a reserva estratégica de petróleo”, declarou.
Na avaliação de Saxena, Washington não possui capacidade para sustentar indefinidamente uma ofensiva de alta intensidade. Por isso, a estratégia mais provável seria realizar ataques durante alguns dias, suspender temporariamente as operações e retomá-las quando as condições militares e econômicas forem consideradas mais favoráveis.
Saxena afirmou que o Irã nunca havia bloqueado completamente a passagem, nem mesmo depois da Revolução de 1979, mas decidiu restringi-la após o início da atual guerra. Teerã entende que possui o direito de controlar a região por sua proximidade territorial e por ter sido alvo direto dos ataques.
O memorando de entendimento firmado na Suíça teria incluído pontos referentes à circulação pelo estreito. Contudo, de acordo com o jornalista, os Estados Unidos tentaram organizar rotas alternativas próximas a Omã, reduzindo a influência iraniana sobre o transporte de petróleo. Essa iniciativa teria provocado nova reação de Teerã e contribuído para o rompimento da trégua.
“Os Estados Unidos não foram sérios nem sinceros em relação ao acordo”, afirmou.
Outro ponto não cumprido, segundo Saxena, foi a liberação de recursos iranianos bloqueados em bancos estrangeiros. Também não teriam avançado as discussões sobre compensações pelos danos provocados à infraestrutura do país. Sem a devolução dos ativos e sem garantias relacionadas ao comércio e à segurança, o Irã não teria razões para confiar em novas negociações.
O analista destacou que qualquer governo norte-americano enfrentaria forte resistência interna caso aceitasse liberar valores pertencentes ao Irã. Parlamentares, antigos integrantes do governo e representantes ligados à indústria armamentista acusariam a Casa Branca de financiar Teerã, mesmo quando se trata da devolução de recursos iranianos congelados no exterior.
Saxena apontou a atuação de setores neoconservadores, do lobby israelense e de empresas do complexo industrial-militar como um dos principais obstáculos a uma solução negociada. Em sua análise, esses grupos pressionam permanentemente pela continuidade das operações e rejeitam qualquer acordo que reconheça o Irã como ator legítimo no Oriente Médio.
“Há lobistas de Israel e das empresas de armamentos em Washington que não querem a paz com o Irã. Eles não vão aceitar a posição iraniana”, disse.
Apesar da superioridade militar norte-americana, o jornalista ressaltou que o Irã demonstrou capacidade para atingir bases dos Estados Unidos instaladas em países do Golfo. Unidades militares localizadas no Catar, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita e Jordânia teriam sofrido ataques ou danos ao longo do confronto.
Na avaliação de Saxena, Teerã ainda evita ampliar a ofensiva contra infraestruturas civis dos países vizinhos. O Irã teria condições de atingir centros financeiros, instalações energéticas, escritórios de multinacionais e usinas de dessalinização, mas preserva essas estruturas como uma forma de pressionar os governos regionais a atuar pela interrupção da guerra.
Esses países, observou, dependem não apenas do petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz, mas também da circulação de alimentos, água, matérias-primas e outros produtos essenciais. Uma interrupção prolongada poderia atingir duramente economias pouco diversificadas e altamente dependentes das rotas marítimas.
Saxena citou como sinal positivo as iniciativas diplomáticas conduzidas pelo Catar, que estaria tentando aproximar representantes iranianos e norte-americanos. Mesmo assim, mostrou-se cético quanto à possibilidade de um acordo permanente enquanto Trump mantiver ameaças de destruição total contra o Irã.
“Eu quero ser otimista, quero que o Irã sobreviva e volte a fazer comércio, mas não acredito em Donald Trump nem no governo dos Estados Unidos. A maneira deles sempre foi a guerra”, afirmou.
Para o analista, a instabilidade também está ligada à tentativa dos Estados Unidos de controlar o mercado internacional de energia. A restrição às exportações iranianas, os ataques a refinarias russas, a disputa pelo petróleo venezuelano e as pressões sobre países como China e Índia fariam parte de uma estratégia mais ampla de uso da energia como instrumento geopolítico.
Saxena argumentou que Trump continua pensando a política internacional a partir da centralidade do petróleo, característica da economia norte-americana desde a consolidação do sistema do petrodólar. O presidente dos Estados Unidos, acrescentou, rejeita os compromissos climáticos e aposta na expansão da produção de combustíveis fósseis como forma de pressionar adversários e aliados.
“Ele acredita que pode controlar o mercado de energia e derrubar outros países. Essa guerra contra o Irã tem pouca chance de parar porque o objetivo é retirar o governo iraniano de qualquer maneira”, declarou.
O jornalista também relacionou a continuidade da guerra à política interna dos Estados Unidos. Embora os conflitos militares sejam impopulares e possam elevar a inflação antes das eleições legislativas, Trump precisaria manter mobilizada sua base política e o movimento que se consolidou em torno do Partido Republicano.
Saxena avalia que o presidente poderá tentar administrar o calendário da guerra, intercalando ataques e tréguas para evitar uma explosão dos preços dos combustíveis. Ao mesmo tempo, a manutenção de uma situação de emergência permitiria reforçar o discurso nacionalista e reduzir o espaço para a oposição.
O analista demonstrou preocupação com o enfraquecimento das instituições norte-americanas e com a falta de resistência consistente dentro do Partido Democrata. Segundo ele, a política externa voltada para a guerra possui apoio que vai além do trumpismo e alcança setores importantes do establishment político e da imprensa dos Estados Unidos.
Ao abordar os efeitos do movimento liderado por Trump na América Latina, Saxena alertou para o uso de redes sociais, inteligência artificial, perfis falsos e campanhas de desinformação em processos eleitorais. Ele considera que a chamada guerra cultural promovida pela extrema direita norte-americana já produz consequências na região.
O Brasil, afirmou, será um dos principais alvos dessa disputa. O jornalista mencionou declarações de autoridades norte-americanas que tratariam o país como um obstáculo político na América do Sul e alertou para a possibilidade de interferência por meio de campanhas digitais.
Apesar disso, Saxena disse estar otimista com a capacidade brasileira de enfrentar esse processo. Para ele, a liderança política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sua experiência eleitoral e sua presença nas pesquisas representam uma diferença importante em relação a outros países onde candidatos de extrema direita avançaram rapidamente.
“A eleição no Brasil vai ser uma guerra. Haverá um desafio muito grande e interferência, mas precisamos ficar otimistas”, afirmou.
Ao concluir, Saxena reforçou que o Irã conseguiu impedir os Estados Unidos de impor integralmente sua vontade no Golfo Pérsico. O país preservou o governo, parte substancial de sua capacidade militar e o controle político sobre um dos pontos mais estratégicos do comércio mundial.
Essa mudança, segundo ele, não significa o fim da ameaça. Ao contrário, a resistência iraniana poderá estimular novas ofensivas de Washington e de Israel. O cenário mais provável, portanto, seria uma guerra prolongada, marcada por ataques de curta duração, cessar-fogos frágeis e negociações utilizadas para reorganizar forças.
“Pode parar por alguns meses ou até por um ano, mas eles vão voltar à guerra. O objetivo continua sendo derrubar o governo e destruir o Irã como Estado independente”, concluiu.
FOTO: The White House
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/shobhan-saxena-os-estados-unidos-perderam-a-guerra-estrategicamente/