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Soberania intelectual: a fábrica invisível das multinacionais brasileiras

A lição para a política industrial é direta. Lamentar a desindustrialização e a dependência de commodities é necessário, mas insuficiente.

Quando se discute o desenvolvimento brasileiro, três queixas voltam sempre à mesa: a desindustrialização, a dependência de commodities e a escassez de engenheiros. As três têm fundamento. Mas há um conjunto de empresas que, de forma quase discreta, desmente o fatalismo — multinacionais industriais nascidas aqui que venceram no mundo não por possuírem insumos baratos, e sim por dominarem algo bem mais raro: o conhecimento produtivo.

A teoria da complexidade econômica de Hidalgo e Hausmann dá o vocabulário exato para o fenômeno. A prosperidade sofisticada de um país não depende do que jaz sob o solo, mas das capacidades acumuladas — o conhecimento tácito depositado em pessoas, firmas e redes que sabem executar tarefas difíceis de imitar. É esse capital invisível, e não a origem do material, que separa o mero exportador de matéria-prima de quem disputa a fronteira tecnológica. Empresas gestadas num ambiente de inflação, juros altos e infraestrutura precária aprenderam a transformar adversidade em capacidade — e é essa capacidade, não o tamanho, sua verdadeira arma global.

Na fronteira: integrar sistemas e domar o oceano

Embraer é o retrato do controle do conhecimento sobre a dependência de insumos. Opera dentro de uma cadeia global, comprando turbinas e aviônicos importados, mas seu trunfo está em outro lugar: na rara habilidade de integrar sistemas complexos, projetar aerodinâmicas inovadoras e entregar aeronaves com custo operacional imbatível nas rotas de médio alcance, batendo rivais muito mais capitalizados.

Petrobras fez do Brasil um polo de engenharia oceânica. Desenvolveu patentes e robótica próprias para explorar reservas a quilômetros de profundidade sob o pré-sal. Ainda que encomende plataformas a estaleiros asiáticos, são o software, a física aplicada e o método brasileiro de exploração que garantem uma eficiência capaz de blindá-la das oscilações do mercado.

Metais: quando a commodity vira metalurgia

Na mineração, a Vale rivaliza com as gigantes anglo-australianas pela inovação em metalurgia e logística: seu minério de alta pureza exige engenharia sofisticada para ser beneficiado e transportado em navios inteligentes de projeto próprio. Na siderurgia, a Gerdau contornou o protecionismo reinventando o modelo fabril — maior recicladora das Américas, comprou usinas nos Estados Unidos e implantou as mini-mills, convertendo sucata local em aço de alto valor sem esbarrar em tarifas.

Tupy talvez seja o caso mais elegante de soberania sobre um processo. Maior fabricante mundial de blocos e cabeçotes de motor em ferro fundido, ela não vende ferro — vende metalurgia. Seu domínio do ferro de grafita compacta gera peças mais leves e resistentes para as principais montadoras do planeta, e diante da eletrificação reposiciona sua fundição de baixo carbono rumo a componentes estruturais, biocombustíveis e hidrogênio. O insumo de entrada é banal; o conhecimento que o transforma, não.

Química e floresta: biotecnologia como vantagem

Braskem recusou-se a disputar a petroquímica no piso do mercado e criou o polietileno verde “I’m green”, derivado do etanol de cana — química de origem renovável com prêmio de preço no mundo desenvolvido. A Suzano superou concorrentes de clima temperado ao dominar o ciclo da biotecnologia florestal, com genética de eucalipto que entrega a maior produtividade por hectare do mundo. E a Natura ergueu sua vantagem unindo biotecnologia e sustentabilidade real, convertendo bioativos amazônicos em cosméticos de alta performance.

Bens de capital: alfaiataria industrial em escala

WEG enfrenta multinacionais alemãs, americanas e chinesas com uma agilidade de customização rara no setor: importa componentes eletrônicos, mas seu diferencial são os softwares de automação próprios e os motores de alta eficiência entregues em tempo recorde. A Marcopolo tornou-se uma das maiores encarroçadoras de ônibus do mundo usando chassis de terceiros, mas dominando o projeto estrutural, a engenharia de materiais leves e a customização em massa para as topografias mais severas.

A mesma lógica se estende às autopeças. A Iochpe-Maxion virou a maior fabricante de rodas automotivas do planeta, de aço e alumínio, servindo simultaneamente montadoras globais com especificações distintas. A Sabó compete no topo do mercado de sistemas de vedação, ditando padrão técnico a montadoras europeias e asiáticas centenárias. E a Randon, com a Fras-le, firmou-se como referência mundial em materiais de fricção e freios — segurança veicular que é, no fundo, ciência de materiais aplicada.

Alimentos, conhecimento puro e marca

Na indústria de alimentos, a JBS inovou pela eficiência logística implacável e pela gestão de marcas adquiridas no exterior com rastreabilidade de ponta. Mas talvez o argumento definitivo venha de quem não exporta um grama de matéria-prima: TOTVSStefanini e CI&T vendem software e serviços digitais para dezenas de países, com insumo físico zero e produto feito inteiramente de conhecimento codificado — a complexidade em estado puro.

O mesmo raciocínio ilumina o consumo. A Eurofarma construiu a maior farmacêutica de capital nacional expandindo-se pela América Latina com genéricos, similares e biológicos, o que exige domínio científico, regulatório e de escala ao mesmo tempo. A Tramontina levou talheres e ferramentas a mais de 120 países com metalurgia de precisão, design e rede de distribuição própria. E as Havaianas, da Alpargatas, mostram que capacidade também é intangível: pegaram a mais banal das commodities — borracha moldada — e, por meio de design e gestão de marca, a converteram em objeto de desejo global. O valor não está no material, mas no significado construído em torno dele.

O ativo que não entra no balanço

O que une Embraer, Petrobras, Vale, Gerdau, Tupy, Braskem, Suzano, Natura, WEG, Marcopolo, Iochpe-Maxion, Sabó, Randon, JBS, TOTVS, Eurofarma, Tramontina e Havaianas não é o porte nem a posse de recursos naturais. É a acumulação de capacidades produtivas — conhecimento tácito, processos complexos, design e engenharia — que constitui a verdadeira barreira de entrada no mercado mundial. Essas empresas provam que não é preciso fabricar cada parafuso nem extrair cada insumo em casa: no mercado moderno, a tecnologia proprietária e a capacidade de adaptação são as armas mais eficientes para conquistar o mundo.

A lição para a política industrial é direta. Lamentar a desindustrialização e a dependência de commodities é necessário, mas insuficiente. Adensar a estrutura produtiva exige reconhecer que essas capacidades já existem, dispersas em firmas que aprenderam a competir na adversidade, e criar as condições — capital, ciência e formação de engenheiros — para que se multipliquem e se conectem no espaço-produto. A fábrica que de fato importa é invisível: mora no conhecimento. E é sobre ela que o Brasil precisa deliberar.

FOTO: Tomaz Silva/Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/soberania-intelectual-a-fabrica-invisivel-das-multinacionais-brasileiras/