Na abertura da WAIC 2026, Xi Jinping anuncia criação de órgão multilateral para governança aberta da inteligência artificial.
247 – O Sul Global não pode se limitar ao papel de consumidor de inteligência artificial, declarou nesta sexta-feira (17) a presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o Banco dos BRICS, Dilma Rousseff, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai. Na ocasião, a dirigente concedeu entrevista à agência Sputnik e defendeu uma articulação mais justa e integrada entre as nações em desenvolvimento para evitar o aprofundamento das assimetrias globais no setor de alta tecnologia.
“Creio que o principal benefício desta conferência para os países do Sul Global é justamente este. É fundamental não ampliar a divisão entre os países e as pessoas. Não podemos permitir que apenas alguns poucos controlem a produção e o desenvolvimento de toda a tecnologia de inteligência artificial enquanto os demais países do Sul Global se tornem apenas consumidores”, pontuou a presidente do NBD.
Para Dilma Rousseff, a superação deste cenário depende de iniciativas pragmáticas assentadas no compartilhamento técnico. “Por isso, há duas discussões importantes. A primeira é responder à pergunta: como compartilhar. Compartilhamos por meio de plataformas abertas, tecnologias de código aberto e cooperação. É assim que damos os primeiros passos para criar um ambiente mais favorável e reduzir a distância entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos”, complementou.
Pequim lança a WAICO para contrapor a hegemonia tecnológica
O posicionamento de Dilma convergiu com as iniciativas anunciadas pelo presidente da China, Xi Jinping, na abertura oficial do evento. O líder chinês oficializou a criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), um movimento estratégico de Pequim para encabeçar uma nova arquitetura internacional de governança cibernética, pautada no multilateralismo, na segurança e no progresso compartilhado.
A estrutura institucional da WAICO foi consolidada após a assinatura, na quinta-feira (16), do acordo constitutivo por 29 países que assumem o status de membros fundadores. Com sede fixada em Xangai, a entidade atuará de maneira intergovernamental e independente para fomentar o intercâmbio científico e regulatório da inteligência artificial.
Em seu pronunciamento na WAIC 2026, Xi Jinping enfatizou que o avanço tecnológico não deve ser monopólio de um restrito grupo corporativo ou de superpotências econômicas. O presidente chinês pontuou que o planeta atravessa uma fase conjuntural decisiva diante da aceleração algorítmica e destacou desafios cruciais a serem enfrentados coletivamente:
- Segurança sistêmica;
- Ética no desenvolvimento tecnológico;
- Impactos no mercado de trabalho;
- Tomada de decisões automatizada por algoritmos;
- Redução drástica das desigualdades tecnológicas regionais.
A governança sugerida pela proposta chinesa ancora-se nos princípios norteadores da Carta das Nações Unidas, priorizando consultas amplas, investimento conjunto e benefício mútuo global.
O embate geopolítico e a inserção soberana do Brasil
O surgimento da WAICO desenha-se em meio ao acirramento da disputa entre a China e os Estados Unidos pelo domínio da infraestrutura digital. Washington tem expandido restrições alfandegárias e barreiras à exportação de semicondutores e microchips de última geração a companhias chinesas sob argumentos de segurança interna. Em contrapartida, Pequim reage com aportes massivos em pesquisa científica, microprocessadores, modelos de linguagem de grande escala (LLMs) e soluções de IA em código aberto.
O Brasil integra o grupo de nações que participou ativamente da formulação do novo organismo em Xangai. A postura reafirma as diretrizes brasileiras de adensamento das relações tecnológicas com o bloco do Sul Global e com a China, resguardando sua autonomia digital. O plano geral aprovado pelos representantes internacionais fundamenta-se em quatro eixos macroestruturais:
- Pesquisa científica integrada;
- Desenvolvimento tecnológico mútuo;
- Segurança sistêmica compartilhada;
- Governança global da inteligência artificial.
Cooperação científica e combate ao abismo tecnológico
A nova organização multilateral busca descentralizar o ecossistema tecnológico contemporâneo, amplamente concentrado em poucas corporações transnacionais que detêm infraestrutura e dados em massa. Como ferramenta prática de inclusão, a China anunciou que disponibilizará programas de capacitação e treinamentos técnicos voltados a milhares de especialistas de economias emergentes, estendendo projetos especiais de cooperação para blocos parceiros como os BRICS, a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e a União Africana.
A WAIC 2026 reúne chefes de Estado, cientistas e representantes de mais de mil companhias globais, destacando os saltos industriais e as frentes em robótica. Se as últimas décadas foram demarcadas por pactos comerciais e ecológicos como a OMC e o Acordo de Paris, o nascimento da WAICO projeta a consolidação da China como arquiteta de uma nova ordem tecnológica internacional multipolar.
DILMA NA SEDE DO NDB EM XANGAI – FOTO NDB
FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/sul-global-deve-ser-protagonista-e-nao-apenas-consumidor-de-ia-defende-dilma/