Mercados aguardam decisão do Fed nos EUA e do Copom no Brasil, com foco no tom de Kevin Warsh e nos próximos passos da Selic.
Os mercados vivem nesta quarta-feira uma “superquarta”, com decisões de política monetária nos dois lados do continente: Federal Reserve, nos Estados Unidos, e Copom, no Brasil.
Nos Estados Unidos, o dado de vendas no varejo divulgado pela manhã reforçou o quadro de uma economia resiliente. A leitura veio bem acima do esperado, com alta de 0,9%, ante projeção de 0,6%; descontados os automóveis, o avanço foi de 0,8%, também superior à expectativa de 0,6%. O número dialoga com os indicadores de atividade que vêm surpreendendo positivamente e com um mercado de trabalho que acumula três meses consecutivos de criação ao redor de 150 mil vagas. A economia americana segue firme, ainda que sem acelerar na margem.
Esse cenário sustenta a leitura de que o Fed não corta juros — não há, hoje, qualquer expectativa de redução. A grande atenção do mercado está no discurso de Kevin Warsh, novo presidente da instituição, que comanda pela primeira vez a reunião e a entrevista coletiva. A dúvida central é se Warsh retirará o viés de afrouxamento monetário que ainda permeia a comunicação do Fed — a ideia, presente nos comunicados, de que haveria espaço para cortes adiante. A expectativa é de um tom mais duro, em linha com um mercado que já não acredita em cortes neste ano e que chega a precificar até uma eventual alta. Vale lembrar que Warsh é crítico histórico da expansão do balanço promovida na crise de 2008 e defende deixar o balanço retornar ao normal, concentrando a política no instrumento de juros — tema sobre o qual pode sinalizar algo nesta estreia.
Há, é verdade, um alívio recente: nos últimos dias, com o acordo envolvendo os Estados Unidos, o petróleo recuou para abaixo de US$ 80, mínima em dois meses — um presente para a curva de juros e para o próprio Fed. Mas o estrago na inflação já está feito, e o corte de juros nos Estados Unidos segue descartado. O foco recai sobre como os diretores projetarão a trajetória dos juros nos próximos meses.
No Brasil, a decisão do Copom é mais incerta, mas o cenário mais provável é um corte de 0,25 ponto, levando a Selic de 14,5% para 14,25%, seguido de uma pausa no ciclo de afrouxamento para observar os desdobramentos à frente. O pano de fundo é uma deterioração expressiva das expectativas de inflação: as projeções para este ano já superam 5,10%, e mesmo o ano que vem — horizonte relevante da política monetária — já roda acima de 4%. A meta de 3% tornou-se praticamente inatingível. Mudá-la, porém, traz um risco delicado: além de indexar a economia, sinalizaria que o governo tolera inflação mais alta, mensagem que o próprio governo precisa evitar a todo custo.
A dificuldade é que, mesmo com um varejo fraco no dado mais recente, a atividade segue se expandindo. O Brasil deve crescer abaixo de 2% — o pior desempenho dos últimos anos —, mas com desemprego muito baixo e pressão persistente na inflação de serviços. Do outro lado, convivem juros elevados e uma dívida pública em trajetória preocupante, com déficit nominal próximo de 10% do PIB e uma conta de juros colossal. Esse é o grande drama brasileiro: como escapar dessa armadilha. A boa notícia fica por conta do petróleo em queda, ainda que o dano já esteja contabilizado — a inflação acumulada de janeiro a maio já passa de 3%, ou seja, em apenas cinco meses o país estourou a meta de todo o ano. Resta acompanhar como o Banco Central reage.
FOTO: The White House
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/superquarta-fed-deve-manter-juros-e-atencao-se-volta-ao-tom-de-warsh-enquanto-copom-deve-cortar-0-25-e-pausar