A companhia atravessa uma fase de expansão capaz de ampliar sua posição na indústria aeroespacial.
247 – A Embraer ganha escala e mira um novo patamar na aviação mundial, apoiada por uma carteira recorde de encomendas, aumento das entregas e oportunidades criadas pelas dificuldades de Airbus e Boeing para atender à demanda global. O avanço fortalece a fabricante brasileira nos segmentos comercial, executivo e militar.
Segundo a análise publicada pela revista britânica The Economist, a companhia atravessa uma fase de expansão capaz de ampliar sua posição na indústria aeroespacial. O texto da publicação internacional recebeu o título “Esqueça a Airbus e a Boeing. A Embraer está decolando”.
A revista classifica a Embraer como a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo e destaca que a empresa conseguiu ampliar sua produção após os impactos provocados pela pandemia sobre o setor aéreo. Em 2021, foram entregues 141 aeronaves. Para 2026, a projeção mencionada pela publicação chega a 255 unidades.
Outro indicador ressaltado é a carteira de pedidos da fabricante, que alcançou o recorde de US$ 34,5 bilhões, conforme resultado anunciado em 24 de julho. O volume representa contratos para aeronaves comerciais, executivas e militares que deverão ser entregues ao longo dos próximos anos.
O presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, disse à revista enxergar uma oportunidade de “crescimento substancial” para a companhia. A avaliação também encontra respaldo no desempenho da empresa no mercado financeiro.
“Os investidores concordam”, afirma a publicação ao mencionar que as ações da Embraer multiplicaram seu valor em aproximadamente dez vezes desde o início de 2021. No mesmo período, segundo a revista, os papéis de Airbus e Boeing apresentaram uma evolução mais limitada.
A perspectiva favorável também está relacionada aos problemas enfrentados pelas duas maiores fabricantes de aviões comerciais do mundo. Airbus e Boeing acumulam, juntas, uma fila estimada em cerca de 16 mil aeronaves, com prazos de entrega que podem variar de oito a dez anos.
As dificuldades incluem limitações na cadeia de fornecedores, escassez de componentes e obstáculos para elevar a produção no ritmo exigido pelas companhias aéreas. Esse cenário abre espaço para a Embraer oferecer aeronaves com períodos de espera menores.
A família E2, voltada principalmente à aviação regional, pode ser entregue em menos de dois anos, segundo a análise. A fabricante comercializa o modelo como “Profit Hunter” (“Caçador de Lucros”), em referência à busca das empresas aéreas por redução de custos operacionais e maior eficiência no consumo de combustível.
Os jatos da linha também se beneficiam do crescimento das rotas diretas entre cidades de médio porte. Esse movimento permite que as companhias reduzam a dependência dos grandes aeroportos de conexão e atendam mercados que não justificam a utilização de aeronaves maiores.
Nos Estados Unidos, o E175 ocupa uma posição estratégica na aviação regional. O avião atende aos limites de peso e capacidade definidos em acordos trabalhistas firmados entre companhias aéreas e sindicatos de pilotos, conhecidos como cláusulas de escopo.
Essas regras restringem o tamanho das aeronaves que podem ser operadas pelas empresas regionais contratadas pelas grandes companhias. A adequação do E175 a esses parâmetros reduziu o número de concorrentes diretos no mercado norte-americano.
A The Economist também chama atenção para o crescimento da divisão de aviação executiva da Embraer. O Phenom 300 lidera há 14 anos consecutivos as vendas mundiais de sua categoria, desempenho que consolidou a presença da companhia entre fabricantes de jatos particulares.
Na área de defesa, o cargueiro militar KC-390 tem conquistado novos clientes em meio ao aumento dos gastos militares em diferentes regiões. Países europeus passaram a avaliar ou adquirir a aeronave como alternativa para renovar suas frotas de transporte e reduzir a dependência de modelos mais antigos.
A revista também menciona a Eve Air Mobility, empresa controlada pela Embraer dedicada ao desenvolvimento de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical. O projeto ganhou relevância após a saída ou a redução das atividades de concorrentes que disputavam o mercado de mobilidade aérea urbana.
O ponto mais ambicioso da análise envolve a possibilidade de a Embraer desenvolver uma aeronave comercial maior, capaz de disputar diretamente o segmento de corredor único atualmente dominado por Airbus e Boeing.
Francisco Gomes Neto declarou que pretende preparar a companhia para “um novo ciclo de produtos que sustente um crescimento mais ambicioso”. Entre os projetos avaliados estariam um jato executivo de grande porte e uma aeronave comercial com capacidade superior à dos modelos atualmente fabricados pela empresa.
Uma eventual entrada nesse mercado exigiria investimentos elevados, estimados pela revista em cerca de US$ 10 bilhões. Além do desenvolvimento da aeronave, o projeto demandaria uma rede internacional de fornecedores, certificações em diferentes países e capacidade de manutenção em escala global.
A história recente da aviação mostra os riscos desse tipo de movimento. A canadense Bombardier tentou avançar sobre o mercado de aviões de corredor único com o programa CSeries, mas enfrentou custos elevados e dificuldades comerciais. O projeto acabou transferido para a Airbus em 2018 e passou a ser comercializado como A220.
Apesar dos obstáculos, analistas avaliam que a Embraer dispõe de experiência tecnológica, estrutura industrial e presença internacional para estudar a possibilidade. Ron Epstein, analista do Bank of America, afirmou que uma entrada bem-sucedida nesse segmento colocaria a empresa em “um novo patamar”.
A fabricante também se beneficia da relevância de sua cadeia produtiva para os Estados Unidos. Componentes do setor aeroespacial brasileiro foram incluídos entre os produtos isentos das novas tarifas comerciais impostas pelo governo norte-americano, diante da integração da Embraer com fornecedores e empresas do país.
Mesmo com as perspectivas de expansão, a direção da companhia evita indicar que uma decisão sobre um avião maior esteja próxima. O desenvolvimento de uma nova família de aeronaves precisaria ser acompanhado por parceiros industriais e financeiros capazes de compartilhar os custos e os riscos.
“Estamos muito confortáveis com a situação atual”, declarou Francisco Gomes Neto à revista.
Enquanto avalia os próximos passos, a Embraer busca ampliar a produção dos modelos existentes, reduzir os prazos de entrega e transformar a carteira recorde de pedidos em crescimento de receita. A combinação entre demanda elevada, diversificação de produtos e dificuldades das principais concorrentes sustenta a avaliação positiva sobre o futuro da fabricante brasileira.
FOTO: EneasMx
FONTE: https://www.brasil247.com/economia/the-economist-projeta-futuro-promissor-para-a-embraer-esqueca-airbus/