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Toffoli é indefensável — mas o alvo é o tribunal que julgou o golpe

Pedido de suspeição da PF expõe fragilidade institucional do ministro, mas a extrema direita tenta transformar a crise em arma contra o tribunal.

O pedido formal da Polícia Federal para que o ministro Dias Toffoli seja considerado suspeito no caso Master marca um ponto de inflexão na crise que envolve o Supremo Tribunal Federal. Não se trata mais de rumor de bastidor, especulação jornalística ou pressão política difusa. Trata-se de um movimento institucional concreto: a própria PF levantando dúvidas sobre a imparcialidade de um integrante da mais alta Corte do país.

Quando isso acontece, a crise deixa de ser apenas individual e passa a ser institucional. O problema já não é apenas o ministro, mas a credibilidade do tribunal como um todo. E é nesse ponto que a situação de Toffoli se torna, do ponto de vista político-institucional, indefensável.

Não se trata de condenação antecipada. Tampouco de aderir a linchamentos. Trata-se de reconhecer um princípio básico: ministros do STF operam sob um padrão de exigência mais alto do que qualquer outro agente público. Não basta ser juridicamente inocente. É preciso ser institucionalmente incontestável.

A autoridade da Corte depende da confiança pública. Quando essa confiança é abalada por suspeitas reiteradas, tensões com investigadores, mensagens apreendidas e pedidos formais de suspeição, a permanência no centro do caso compromete a percepção de imparcialidade.

Mesmo que juridicamente defensável em tese, a situação tornou-se politicamente insustentável. Em democracias consolidadas, preservar a instituição exige reconhecer quando um episódio ultrapassa a esfera individual e começa a corroer a legitimidade do tribunal. Não se trata de punir sem julgamento. Trata-se de proteger a Corte.

O tribunal que julgou o golpe

Mas a crise de Toffoli não ocorre em vazio político. Ela se desenrola num momento em que o STF desempenhou papel central na defesa da ordem constitucional brasileira. Foi o tribunal que julgou e condenou o núcleo da tentativa de golpe de

Estado de 2023 e do assassinato do presidente Lula, do vice Alkmin e do ministro Alexandre de Moraes.

Foi ali, no  STF, que militares de alta patente foram responsabilizados por participação em articulações golpistas. Foi ali que o ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como líder da organização criminosa que tentou subverter o resultado eleitoral, foi julgado e condenado a 27 anos de prisão.

Essas decisões não têm precedentes na história republicana brasileira. Pela primeira vez, a elite política e parte do alto comando militar enfrentaram condenações severas por tentativa de ruptura institucional. O STF tornou-se, nesse processo, a principal barreira institucional ao avanço de um projeto autoritário.

A estratégia conhecida

A reação da extrema direita segue um roteiro previsível. Escolhe-se um ministro sob suspeita, amplifica-se o escândalo, generaliza-se a desconfiança e conclui-se que todo o tribunal seria ilegítimo. O objetivo não é moralizar o Judiciário. É enfraquecer a instituição que impôs derrotas políticas e jurídicas ao bolsonarismo.

O caso Toffoli oferece, nesse sentido, uma oportunidade estratégica para essa ofensiva. Ao transformar a crise de um ministro em crise do STF como um todo, busca-se reabrir a narrativa de perseguição e deslegitimar decisões passadas — especialmente as condenações relacionadas ao golpe de 2023.

É justamente esse tribunal que se tornou alvo de uma ofensiva permanente de desmoralização. O que se busca não é apenas atingir ministros, mas enfraquecer o STF para, no limite, contestar e tentar reverter as decisões que condenaram e prenderam os responsáveis pela tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito.

O alvo imediato é Toffoli. O alvo estratégico é o tribunal

É preciso separar as coisas com clareza. Criticar Toffoli não significa aderir à campanha contra o STF. Defender o STF não significa blindar Toffoli. Confundir essas duas dimensões é exatamente o que interessa a quem pretende reescrever a história recente e apresentar as condenações do golpe como resultado de perseguição política.

Democracias maduras conseguem investigar seus próprios juízes sem destruir seus tribunais. O contrário — usar a investigação de um ministro como argumento para desacreditar toda a instituição — é método típico de projetos autoritários. A crise atual coloca o país diante dessa escolha.

Se conduzido com transparência e rigor, o episódio pode fortalecer o STF ao demonstrar capacidade de autocorreção e compromisso com padrões elevados de integridade institucional. Se capturado pela guerra política, pode alimentar uma campanha de desmoralização cujo objetivo final não é a ética pública, mas a revanche.

O que realmente está em jogo

O problema imediato é a situação de um ministro. O que está em jogo, porém, é a credibilidade do tribunal que julgou e condenou a tentativa de ruptura democrática. A diferença entre essas duas coisas precisa ser preservada.

Se a crise de Toffoli for usada como pretexto para desacreditar o STF, não estaremos diante de um necessário ajuste institucional, mas de uma tentativa de reverter, no plano político, derrotas impostas no plano judicial. É essa disputa que se desenha no horizonte.

Toffoli pode ter se tornado politicamente indefensável. O STF, não.

E a capacidade de sustentar simultaneamente essas duas afirmações talvez seja um dos testes mais importantes da democracia brasileira neste momento.

Algumas perguntas que exigem resposta

Se um ministro se torna indefensável, isso invalida o tribunal que condenou um golpe de Estado?

Quem mais se beneficia quando a crise de um juiz vira pretexto para desacreditar toda a Justiça?

A investigação de um ministro fortalece o STF — ou o enfraquece apenas quando é explorada politicamente?

O problema é a conduta individual ou a tentativa de transformar um caso em campanha contra a democracia?

Estamos diante de um necessário ajuste institucional ou de uma estratégia para reescrever a história do golpe de 2023?

Toffoli é indefensável. Mas quem realmente quer justiça — e quem quer apenas desmoralizar o tribunal que condenou o golpismo?

Foto: Antonio Augusto/STF

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/toffoli-e-indefensavel-mas-o-alvo-e-o-tribunal-que-julgou-o-golpe#google_vignette