Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Três jornais, uma mesma manchete, uma ideia fixa

Sempre que surge uma oportunidade de atingir Lula e seu entorno político, as diferenças desaparecem.

Que inveja dos órgãos de propaganda. A chamada mídia hegemônica conseguiu um feito raro: transformar três jornais diferentes em um só.

Nesta sexta-feira, os leitores da “Folha de S.Paulo”, de seu suposto concorrente “O Estado de S.Paulo” e do matutino carioca “O Globo” encontraram, sem tirar nem pôr, exatamente a mesma manchete estampada nas primeiras páginas: “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”.

Não é parecida. Não é semelhante. É rigorosamente a mesma. Ipsis literis. Palavra por palavra. Como se um único editor tivesse fechado as três capas ou como se as três redações trabalhassem em regime de franquia editorial.

A coincidência é tão perfeita que convida a uma pergunta inevitável: ainda existem três linhas editoriais independentes ou apenas três marcas comerciais reproduzindo um pensamento único? Que exemplar tão reluzente da variedade de opiniões no capitalismo!

Não seria a primeira vez. Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo já caminharam lado a lado em momentos decisivos da história política brasileira. Apoiaram o golpe de abril de 1964, compartilharam um enquadramento muito semelhante durante a cobertura do chamado mensalão e, anos depois, marcharam praticamente em uníssono na narrativa construída em torno da Operação Lava Jato. Agora, mais uma vez, a convergência salta aos olhos: a mesma manchete, com as mesmas palavras, publicada simultaneamente pelos três jornais.

Quando o assunto é Lula e sua família, desaparecem as diferenças de estilo, de linguagem e de hierarquia das notícias. A concorrência parece dar lugar à coordenação. O pluralismo, tão celebrado nos editoriais, dissolve-se numa unanimidade quase coreografada.

Também chama a atenção que a manchete decorra de uma decisão do ministro André Mendonça, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro e identificado desde sua nomeação como tarefeiro do campo político bolsonarista. Em vez de oferecer ao leitor enfoques distintos, contextualização ou questionamentos compatíveis com a diversidade que afirmam representar, Folha, Estadão e O Globo preferiram desfilar em passo sincronizado.

A cena lembra uma redação única, distribuída em três endereços. O leitor compra jornais diferentes, mas recebe o mesmo enquadramento, as mesmas palavras e a mesma mensagem. A pluralidade fica restrita aos logotipos. Um demiurgo, un grande irmão, retifica os enfoques.

Talvez seja apenas a mais extraordinária coincidência da história recente do jornalismo brasileiro. Ou talvez seja apenas um velho cacoete. Sempre que surge uma oportunidade de atingir Lula e seu entorno político, as diferenças desaparecem, as manchetes convergem e o coro se forma com admirável disciplina.

No fim, o verdadeiro fato jornalístico talvez nem seja a investigação anunciada. É a espantosa uniformidade de três veículos que insistem em se apresentar como concorrentes, mas que, em dias decisivos, parecem publicar não apenas a mesma manchete, mas também a mesma visão de mundo, sepultando os ideais de independência do jornalismo.

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/tres-jornais-uma-mesma-manchete-uma-ideia-fixa/