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Trump confirma o roubo do petróleo venezuelano após ataque ao país

Declaração do presidente dos Estados Unidos sobre envolvimento “muito forte” no setor petrolífero expõe objetivo de controle das riquezas venezuelanas.

247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou neste sábado (3) que os EUA estarão “muito fortemente envolvidos” na indústria petrolífera da Venezuela, em uma afirmação que escancara o verdadeiro objetivo do ataque militar lançado contra o país sul-americano: o controle direto de suas reservas energéticas e a submissão de sua soberania nacional aos interesses das grandes corporações norte-americanas. A informação foi publicada pela CNN Brasil, com base em declaração de Trump à Fox News.

A frase — curta, direta e brutal — traduz em poucas palavras o que normalmente é ocultado por discursos sobre “democracia” e “segurança internacional”. Trump não falou em reconstrução institucional, nem em ajuda humanitária. Falou em petróleo. E foi explícito ao afirmar que pretende colocar “as maiores empresas de petróleo” dos EUA para atuar na Venezuela, sinalizando um processo de ocupação econômica e energética que, para críticos da política externa norte-americana, se assemelha a um saque anunciado.

Operação militar e captura de Maduro

A declaração veio após a confirmação de uma operação militar de grande escala realizada pelos Estados Unidos em território venezuelano, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Segundo a reportagem, a ação foi executada pela Força Delta, unidade de elite do Exército norte-americano, com apoio de inteligência da CIA e de forças policiais dos EUA. A operação atingiu Caracas e os estados de Miranda, Aragua e La Guaira, e teria sido autorizada por Trump “há alguns dias”.

O governo norte-americano afirma que Maduro foi levado para fora do país para responder a processos judiciais nos EUA por acusações de narcoterrorismo e conspiração para importação de cocaína. A justificativa formal para a intervenção foi baseada na autoridade do presidente como comandante-chefe das Forças Armadas, conforme o Artigo II da Constituição dos EUA.

Na Venezuela, o regime classificou a ação como uma “agressão criminosa” e decretou emergência nacional, denunciando a intervenção como violação aberta da soberania do país.

“Muito fortemente envolvidos”: o petróleo como prêmio de guerra

Ao tratar do futuro da energia venezuelana, Trump afirmou que os EUA possuem as maiores empresas do setor e que essas companhias atuarão diretamente na região. A declaração sugere que a intervenção militar não foi um evento isolado, mas parte de um plano estratégico para reorganizar a estrutura petrolífera venezuelana sob tutela de Washington.

A reportagem destaca que o momento é de grande incerteza sobre o futuro da PDVSA, estatal petrolífera venezuelana e principal fonte de receitas do país. A empresa, já fragilizada por sanções, restrições logísticas e crise financeira, entra agora em um cenário ainda mais instável, com a liderança política removida à força e sob ameaça direta de ocupação econômica.

Trump reforça que o objetivo é envolver as empresas norte-americanas no setor energético venezuelano, em um gesto que, para analistas críticos do imperialismo, representa a passagem do discurso para a prática: a intervenção não apenas derruba governos — ela abre caminho para a captura dos recursos naturais por grupos privados alinhados ao poder militar dos EUA.

Bloqueio ao petróleo e colapso das exportações

Antes mesmo da incursão militar, os EUA já haviam imposto um bloqueio ao petróleo venezuelano em dezembro, medida que reduziu as exportações do país pela metade em relação ao mês anterior, segundo dados de monitoramento e documentos internos citados na reportagem.

O bloqueio afastou proprietários de embarcações das águas venezuelanas e provocou acúmulo acelerado de estoques de petróleo e combustíveis da PDVSA. A estatal precisou desacelerar entregas e armazenar petróleo em navios-tanque para evitar cortes drásticos na produção ou no refino.

Em novembro, a Venezuela exportava cerca de 950 mil barris por dia, mas o volume caiu para aproximadamente metade no mês seguinte, refletindo o impacto direto das medidas unilaterais norte-americanas. Além disso, os EUA apreenderam duas cargas de petróleo venezuelano, aprofundando o estrangulamento econômico.

Ataque não destrói refinarias, mas ameaça o controle do sistema

Apesar da operação militar, fontes com conhecimento das atividades da PDVSA informaram que a produção e o refino de petróleo estavam operando normalmente no sábado e não sofreram danos diretos. Isso indica que o alvo não era destruir instalações — mas assumir o comando político e, por consequência, o controle sobre o setor estratégico.

A reportagem menciona, contudo, que o porto de La Guaira, próximo a Caracas, teria sofrido danos graves, embora não seja usado para exportação de petróleo. O impacto simbólico, entretanto, é evidente: a operação expõe a disposição dos EUA de atacar infraestrutura civil e impor o caos para redesenhar, a partir da força, a arquitetura econômica e institucional do país.

A situação da PDVSA permanece delicada também por causa de um ataque cibernético ocorrido no final do ano passado, que obrigou a empresa a isolar terminais, campos e refinarias do sistema central e a recorrer a registros escritos para manter operações. Mesmo funcionando, a estatal ainda enfrenta dificuldades administrativas e vulnerabilidades severas.

Um precedente perigoso para a soberania na América Latina

A declaração de Trump e o ataque militar à Venezuela representam um marco alarmante para a América Latina. O episódio reatualiza a lógica histórica das intervenções norte-americanas no continente, muitas vezes justificadas por discursos jurídicos ou morais, mas frequentemente guiadas por interesses econômicos — especialmente em áreas estratégicas como energia, minérios e infraestrutura.

Ao declarar que os EUA estarão “muito fortemente envolvidos” no petróleo venezuelano, Trump praticamente assume o caráter predatório da ação: trata-se menos de “combate ao crime” e mais de um projeto de dominação no qual a força militar abre caminho para as corporações.

A fala não deixa margem para dúvidas: o petróleo venezuelano, uma das maiores reservas do planeta, tornou-se — mais uma vez — o centro de uma disputa em que a soberania nacional é tratada como obstáculo a ser removido, e não como princípio inviolável do direito internacional.

Foto: Divulgação I Logan Goins/Marinha dos Estados Unidos

FONTE: https://www.brasil247.com/americalatina/trump-confirma-o-roubo-do-petroleo-venezuelano-apos-ataque-a-venezuela