Em algum ponto entre os minerais estratégicos, o combate ao crime organizado e a eterna liturgia das fotos oficiais onde todos fingem gostar uns dos outros, Donald Trump aparentemente descobriu um detalhe que o Brasil já transformou em série, documentário, briga de família e mesa-redonda de boteco: Lula já esteve preso.
Por João Guató
E não é que o homem ficou interessado?
Segundo o ministro Dario Durigan, Trump quis saber da vida, da história e até do período da prisão do presidente brasileiro. O detalhe curioso é que, em vez de sair correndo em círculos gritando “law and order”, o republicano teria aumentado sua admiração por Lula. A geopolítica virou um episódio perdido de reality show. O planeta realmente cansou da coerência.
Durigan contou ao programa de Datena que ficou “impressionado com o nível de deferência” de Trump em relação a Lula. Traduzindo do diplomatiquês para o português de feira: o americano tratou Lula com mais respeito do que muito deputado brasileiro trata garçom em Brasília.
A cena é bonita de imaginar.
Trump, aquele homem que transforma reunião internacional em episódio de luta livre corporativa, ouvindo atentamente a saga do retirante nordestino, sindicalista, presidente, preso, solto e novamente presidente. Faltou apenas pedir os direitos da história para lançar “Lula: The Comeback” em streaming patriótico.
Enquanto isso, metade da internet brasileira entrou em pane. Porque o brasileiro não suporta ver adversário político sendo elogiado por alguém improvável. A direita ficou sem saber se chamava Trump de comunista infiltrado ou Lula de agente da CIA. Já a esquerda tentava entender como o ícone do capitalismo testosterônico estava distribuindo gentilezas ao homem que passou décadas sendo tratado como ameaça socialista de estimação.
No fim, todos perderam a capacidade de raciocínio ao mesmo tempo. Um raro consenso nacional.
E Trump ainda chamou Lula de “dinâmico presidente do Brasil” em sua rede social. Dinâmico. Uma palavra elegante para um sujeito que sobreviveu a greves, impeachment alheio, cadeia, lava-jato, fake news, facada eleitoral em adversário, e ao LinkedIn emocional da política brasileira.
O encontro tratou de comércio, tarifas, crime organizado e minerais críticos. Mas sejamos honestos: o que realmente fascinou Trump foi descobrir que Lula tem aquilo que político adora vender como virtude heroica quando convém: narrativa.
Porque no fundo, líderes mundiais são como frequentadores de bar às duas da manhã. Todos gostam de uma boa história de queda e retorno. Especialmente quando ela vem acompanhada de votos, sobrevivência e manchetes internacionais.
E assim segue o Brasil: um país onde ex-metalúrgico condenado vira presidente pela terceira vez, Trump elogia petista em rede social, e Datena vira intermediário filosófico da diplomacia global.
A História já desistiu de fazer sentido faz tempo. Hoje ela só produz entretenimento premium.
FONTE: https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=10215403302272496&id=1735223235