Dirigente do PCO alerta para os riscos de uma intervenção dos EUA na Venezuela.
247 – A crise venezuelana, a ofensiva militar dos Estados Unidos na América Latina, a escalada de tensões entre China e Japão e o avanço do imperialismo sobre Rússia e Irã formam, segundo Rui Costa Pimenta, um mesmo quadro de preparação para uma guerra de grandes proporções. A análise foi apresentada pelo dirigente do PCO em entrevista à jornalista Andrea Trus, da TV 247.
Durante a conversa, Rui afirmou que qualquer ataque à Venezuela deve ser compreendido como uma agressão direta também ao Brasil e criticou duramente setores da esquerda latino-americana que, segundo ele, se recusam a defender integralmente o governo de Nicolás Maduro no momento em que o país enfrenta uma ameaça militar real.
“A Venezuela é a primeira etapa do plano imperialista mundial”
Rui iniciou sua avaliação destacando que os Estados Unidos já sinalizam publicamente a possibilidade de operações terrestres contra a Venezuela — algo que, para ele, não pode ser subestimado:
“Nós não devemos descartar nenhuma opção, inclusive a invasão do país por terra, porque a política do imperialismo não é guiada por cautela, é guiada por desespero.”
Segundo ele, o que acontece na Venezuela não pode ser visto isoladamente, mas como parte de uma estratégia global de Washington:
“Nós temos que entender que o problema da Venezuela não é a Venezuela em si. O imperialismo está preparando uma guerra contra a China, contra a Rússia, contra o Irã, logicamente, Yemen, vários países. A Venezuela é a primeira etapa desse jogo que eles montaram.”
O dirigente alerta que os EUA não toleram, na região, a presença de um país alinhado a Rússia e China — especialmente às vésperas de um cenário internacional cada vez mais confrontacional:
“Eles não podem ter aqui um país que é abertamente aliado dos russos e dos chineses. É impossível organizar uma guerra global se a América Latina não estiver sob controle.”
“Um ataque contra a Venezuela é um ataque contra o Brasil”
Rui afirma que a posição brasileira diante da crise venezuelana é decisiva para toda a América do Sul e critica o que vê como hesitação de setores do governo Lula e da esquerda institucional:
“O ataque contra a Venezuela é um ataque contra o Brasil. Isso que tem que ser bem compreendido. Brasil é o país mais importante da América do Sul. O ataque contra qualquer país da América do Sul é um ataque contra o Brasil.”
Ele argumenta que, nessas circunstâncias, não há espaço para ambiguidade:
“O momento é um momento de apoio total à Venezuela. (…) Tem que estar ali, ó, ombro a ombro com Maduro contra o imperialismo.”
Sobre setores da esquerda que afirmam defender a Venezuela, mas rejeitam defender Maduro, Rui é categórico:
“Eu vi que tem gente que fala assim: ‘Ah, nós defendemos a Venezuela, mas não defendemos o governo Maduro’. Não. Nesse momento, a única briga que cabe é saber se estamos brigando o suficiente contra o imperialismo. Qualquer outra crítica entra depois.”
China, Japão e Taiwan: “quase uma declaração de guerra”
Ao analisar o anúncio do Japão de que se opõe a qualquer intervenção chinesa em Taiwan, Rui considera que Tóquio ultrapassou todos os limites:
“O Japão fez uma coisa inacreditável. Interditou a China de intervir em Taiwan, que é território chinês histórico. É quase uma declaração de guerra.”
Ele compara a situação a uma invasão de soberania que jamais seria aceita por qualquer país sério:
“É como se o Brasil tivesse um problema com a ilha de Marajó e os Estados Unidos viessem dizer: ‘Não, você não pode intervir’. É imperialismo puro.”
Para Rui, a posição da esquerda brasileira nesse conflito deve ser inequívoca:
“No enfrentamento entre China, Japão e aliados dos Estados Unidos, nós somos China. Tem que ser intransigentemente a favor da China. E a mesma coisa na Rússia.”
Segundo ele, a disputa em torno de Taiwan é parte da ofensiva global do imperialismo, que tenta atacar cada país isoladamente para evitar que o bloco Rússia–China–Irã–Venezuela atue de forma unificada.
Rússia e Ucrânia: “soberania é pretexto; a luta é contra o imperialismo”
Rui também critica a forma como parte da esquerda mundial interpreta a guerra na Ucrânia e acusa setores progressistas de cair em narrativas construídas pelos Estados Unidos e pela OTAN:
“O método da estupidez é analisar cada coisa separada do resto. O imperialismo é uma força mundial. Se há uma luta entre Rússia e a OTAN na Ucrânia, você tem que ficar a favor da Rússia.”
Ele desqualifica o debate sobre “soberania ucraniana”, considerando-o uma cortina de fumaça:
“Isso é bobagem, é conversa distracionista, é cinismo histórico. A soberania vira argumento quando interessa ao imperialismo. Em Taiwan, já não vale. Em outros lugares, também não. Isso é manipulação.”
Oriente Médio: a continuidade da estratégia global de desestabilização
Embora não tenha aprofundado o tema, Rui aponta que a expansão do conflito no Oriente Médio — envolvendo especialmente Irã, Iêmen e aliados regionais — faz parte do mesmo movimento de cerco global promovido pelos Estados Unidos:
“O imperialismo vai atacar um por um. Ataca a Venezuela. Aí ataca outro. E ataca outro. Quando você abre o olho, caiu tudo.”
O dirigente vê os EUA como o epicentro de uma operação mundial que tenta reverter, pela força, o avanço estratégico de China, Rússia e Irã nas últimas duas décadas.
Defesa da integração latino-americana e crítica à passividade regional
Rui afirma que nenhum país latino-americano deveria aceitar passivamente uma intervenção militar na Venezuela.
Para ele, a história continental demonstra que a agressão a um país é sempre prelúdio de agressão aos demais — e o Brasil, como maior potência do subcontinente, deveria liderar uma resistência explícita:
“O ataque contra a Venezuela abre caminho para atacar o Brasil. Se os norte-americanos fossem o Brasil e o Brasil estivesse fazendo isso com a Venezuela, eles nunca ficariam quietos. Nunca.”
Ele diz que a neutralidade, nesse contexto, equivale a cumplicidade.
Conclusão: alerta contra a guerra global e defesa incondicional da Venezuela
Ao longo da entrevista, Rui Costa Pimenta reforça que a ameaça de uma intervenção terrestre na Venezuela é real, imediata e inserida em uma estratégia de guerra global que envolve simultaneamente América Latina, Leste Europeu e Ásia.
Para ele, a esquerda brasileira precisa abandonar ambiguidades e assumir defesa total da Venezuela, da China e da Rússia, sob pena de contribuir — mesmo involuntariamente — para o avanço imperialista.
Sua frase mais forte resume o sentido da análise:
“O ataque contra a Venezuela é um ataque contra o Brasil.”
E é esse alerta, dirigido não só ao Brasil, mas a toda a América Latina, que ele considera essencial nesse momento de crescente instabilidade internacional.
Foto: Brasil 247
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/um-ataque-a-venezuela-e-uma-agressao-tambem-ao-brasil-diz-rui-costa-pimenta