A presença naval de Estados Unidos, Holanda, Canadá, França e Reino Unido no Caribe revela uma malha de dissuasão “por osmose”.
No mar da Venezuela, não são só os destroyers norte-americanos que operam: patrulhas holandesas, canadenses e francesas, além do envolvimento britânico, convergem em torno do Essequibo e das rotas estratégicas do Caribe. É a soma das bandeiras da OTAN em ação, mesmo sem o selo formal da aliança, em defesa de petróleo, rotas comerciais e interesses corporativos globais, um cerco silencioso que coloca Caracas no epicentro da disputa entre potências militares e energéticas.
Venezuela na mira: não apenas dos EUA, mas das bandeiras da OTAN
A disputa pelo Essequibo, antes circunscrita ao litígio histórico entre Venezuela e Guiana, hoje se transformou em palco de uma disputa global. O que se observa no mar do Caribe e nas águas próximas ao litoral venezuelano não é apenas a presença ostensiva de navios norte-americanos, mas o somatório de forças de países-chave da OTAN: Holanda, Canadá, França e Reino Unido. Sem que a aliança atue oficialmente, constrói-se uma malha de dissuasão “por osmose”, em que bandeiras nacionais operam em conjunto, sob interoperabilidade garantida por Washington e pelo Comando Sul.
Essa arquitetura naval reforça o cerco diplomático e militar sobre Caracas, com justificativas públicas que variam entre “combate ao narcotráfico” e “garantia da segurança marítima”. Mas, na prática, projeta um arco de contenção contra a Venezuela, criando riscos concretos à sua soberania marítima e ao seu direito de explorar e defender seu território e suas águas. A equação fica ainda mais sensível porque o petróleo do Stabroek, na Guiana, é hoje uma das maiores descobertas globais do século, operada por gigantes como ExxonMobil, Hess e Chevron. Cada navio aliado no Caribe representa, portanto, não apenas poder militar, mas também escudo corporativo para garantir o fluxo de capital energético.
O resultado imediato é claro: a Venezuela se vê cercada por forças que, embora não carreguem formalmente a bandeira da OTAN, operam como se estivessem em missão conjunta. Um OTAN informal que se instala à sua porta, transformando a disputa pelo Essequibo em uma peça central da nova geopolítica do Atlântico.
O que mudou nas últimas 72 horas
Entre os dias 21 e 24 de agosto, o Caribe e o mar da Venezuela viveram um aumento notável de tensão. A presença de três destroyers norte-americanos classe Arleigh Burke, USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson, foi confirmada em águas internacionais próximas à costa venezuelana. Oficialmente, sua missão está ligada ao combate ao narcotráfico, mas, na prática, trata-se de uma demonstração de força, com navios equipados com sistemas Aegis capazes de neutralizar tanto aeronaves quanto mísseis em cenários de alta intensidade.
A movimentação não se limita aos EUA. Holanda e Canadá, em coordenação com o Comando Sul, mantiveram operações de interdição no arco de Aruba, Bonaire e Curaçao. Em duas apreensões recentes, patrulhas holandesas com equipes da Guarda Costeira dos EUA embarcadas interceptaram embarcações a menos de 30 milhas da costa venezuelana. O Canadá, via Operação CARIBBE, intensificou sua presença com navios de patrulha costeira, interoperando com os holandeses e reforçando o cerco naval.
No plano regional, a França deu um passo além: unidades das Forças Armadas estacionadas na Guiana Francesa realizaram exercícios de vigilância marítima e fizeram escala em Georgetown, sinalizando apoio explícito à Guiana no litígio. O gesto, embora apresentado como “cooperação de segurança”, tem peso simbólico: Paris projeta sua bandeira na fronteira direta do Essequibo.
Enquanto isso, no território venezuelano, o governo de Nicolás Maduro anunciou a mobilização da Milícia Bolivariana, convocando novos alistamentos e endurecendo o discurso de “defesa da soberania”. A ordem coincidiu com a intensificação das patrulhas aliadas no Caribe e funcionou como resposta política e militar imediata.
O ambiente é ainda mais instável porque o esquadrão anfíbio Iwo Jima dos EUA, previsto para deslocar-se ao Caribe, precisou alterar rota devido ao furacão Erin. Isso atrasou a presença anfíbia de marines, mas não diminuiu a percepção de cerco: na prática, a escada de prontidão militar já está montada, e qualquer incidente de abordagem ou sobrevoo arriscado pode funcionar como gatilho para uma crise maior.
Em resumo: em menos de uma semana, a região saiu do patamar de “patrulha de rotina” para um quadro de pressão direta sobre Caracas, em que cada novo navio ou exercício militar reforça a narrativa de isolamento e ameaça à soberania venezuelana.
Quem está no mar e por quê
– Estados Unidos
O coração da operação é norte-americano. Os três destroyers Aegis posicionados próximos ao litoral venezuelano não são simples navios de patrulha: cada um deles é equipado com radares de longo alcance e mísseis capazes de operar tanto em defesa aérea quanto em guerra antissubmarino. Ao mesmo tempo, aeronaves P-8 Poseidon fazem patrulhas de inteligência, vigilância e reconhecimento, sobrevoando rotas sensíveis e monitorando movimentos venezuelanos. Oficialmente, a missão é enquadrada como parte da “guerra contra o narcotráfico”, mas, na prática os EUA erguem um escudo naval para dissuadir Caracas de qualquer movimento em torno do Essequibo ou das rotas comerciais do Caribe.
– Holanda
A marinha holandesa, a partir de Curaçao e Aruba, é peça-chave na teia de interdição. Seus navios de patrulha oceânica (OPVs), Zr.Ms. Friesland e Zr.Ms. Groningen, realizam operações conjuntas com a Guarda Costeira dos EUA, muitas vezes com equipes americanas embarcadas. Em 2025, algumas das maiores apreensões de drogas ocorreram a poucas milhas do litoral venezuelano, o que reforça a percepção de cerco em águas sensíveis. Para a Holanda, trata-se de proteger seus territórios ultramarinos e ao mesmo tempo consolidar sua posição como aliado confiável dos EUA no Caribe.
– Canadá
O Canadá atua por meio da Operação CARIBBE, sua contribuição à malha multinacional de combate ao tráfico e à criminalidade marítima. Navios como o HMCS William Hall patrulham o arco entre as Antilhas e a costa venezuelana, em estreita coordenação com norte-americanos e holandeses. Ottawa se move por dois eixos: cumprir compromissos com a OTAN e defender seus interesses mineradores na América do Sul e no Caribe, altamente dependentes de estabilidade regional.
– França
Com base na Guiana Francesa, as Forças Armadas francesas no Caribe atuam oficialmente em missões de vigilância marítima, combate ao tráfico e proteção de Kourou (Centro Espacial). Mas o peso político é mais profundo: recentemente, um navio francês escalou Georgetown, capital da Guiana, sinalizando apoio explícito ao país no litígio territorial. Para Paris, a defesa da Guiana Francesa e a proteção de rotas no Atlântico Sul são indissociáveis, e se cruzam diretamente com o contencioso Essequibo.
– Reino Unido
Embora não mantenha presença contínua, o Reino Unido já realizou operações de presença e exercícios navais na região, como com o HMS Trent, em 2023 e 2024. Londres não esconde seu apoio político à Guiana e se apresenta como “garantidor moral” da estabilidade da Commonwealth. Cada visita britânica funciona como sinal de respaldo internacional a Georgetown e de pressão simbólica sobre Caracas.
Em síntese: cada bandeira tem seu pretexto, combate às drogas, proteção de territórios ultramarinos, cooperação regional. Mas juntas, essas presenças convergem em uma malha OTAN informal que transforma o Caribe e o mar da Venezuela em um corredor altamente vigiado, onde a margem de manobra para Caracas é cada vez menor.
O que está em jogo: energia, rotas e direito
No coração da disputa está o petróleo. O bloco Stabroek, localizado em águas guianenses vizinhas à Venezuela, tornou-se um dos polos mais promissores do mundo. A produção já gira em torno de 660 mil barris por dia e deve ultrapassar a marca de 1,3 milhão até 2027, com a entrada em operação de novos FPSOs como o One Guyana, da ExxonMobil. O consórcio que explora a região é composto por gigantes energéticas globais: a Exxon como operadora, a Chevron após incorporar a Hess, e a chinesa CNOOC. Ou seja, o Essequibo concentra interesses de Washington, de Pequim e do capital privado ocidental, tornando-se inevitavelmente um foco de atenção militar e geopolítica. Quanto mais petróleo sai dessas águas, maior a necessidade de proteger os ativos com presença naval e respaldo jurídico, e menor a margem de manobra para Caracas.
As rotas marítimas completam esse quadro. O arco formado por Aruba, Bonaire e Curaçao, junto das Antilhas, funciona como espinha dorsal logística para patrulhas aliadas, interdições de drogas e apoio portuário. É justamente nessa região que navios holandeses e canadenses, em estreita cooperação com a Guarda Costeira dos EUA, realizam suas operações. Essa rede garante previsibilidade ao tráfego mercante, mas também cria um cinturão de vigilância que encarece qualquer tentativa venezuelana de projetar força em águas próximas. O que se apresenta como combate ao narcotráfico, na prática, serve de cobertura para proteger rotas críticas de exportação de petróleo e para consolidar uma presença militar permanente ao redor da Venezuela.
No campo jurídico, a Corte Internacional de Justiça reforça o cerco. Em dezembro de 2023, a CIJ determinou que a Venezuela se abstivesse de atos que agravassem o litígio com a Guiana. Em maio de 2025, foi mais incisiva: ordenou que Caracas não realizasse eleições no território em disputa. A mensagem foi clara: qualquer iniciativa venezuelana que vá além da retórica será enquadrada como violação do direito internacional. Essa moldura legal, combinada com a proteção de navios e de forças aliadas, funciona como uma barreira dupla contra Caracas, que se vê travada tanto pela força militar quanto pelo direito internacional.
O resultado é uma convergência material poderosa: grandes volumes de petróleo em ascensão, interesses corporativos bilionários e um corredor marítimo vigiado por uma coalizão de bandeiras da OTAN operando sob comando indireto dos EUA. Mesmo sem uma decisão formal da aliança, o efeito é de uma OTAN em ação, blindando a Guiana e comprimindo a soberania venezuelana em seu próprio litoral. A disputa pelo Essequibo, portanto, não é apenas uma questão de fronteira: é a expressão de como capital e poder naval se unem para moldar o tabuleiro geopolítico do Atlântico.
Como a malha funciona
A presença de navios aliados no entorno da Venezuela não é caótica nem improvisada: ela se articula dentro de um sistema nervoso regional, coordenado e estruturado, que garante interoperabilidade entre diferentes bandeiras da OTAN e os Estados Unidos. O coração desse sistema é o Joint Interagency Task Force South (JIATF-South), sediado na Flórida, que funciona como centro de comando e inteligência para todo o Caribe. É dali que partem as ordens, os fluxos de informação e os pacotes de dados que permitem que um navio canadense, um patrulheiro holandês e uma aeronave de vigilância norte-americana ajam como se fossem parte de uma mesma frota.
A engrenagem prática desse arranjo é o embarque de equipes mistas. Os Law Enforcement Detachments (LEDETs) da Guarda Costeira dos EUA são instalados a bordo de navios de aliados, principalmente holandeses e canadenses, para dar legitimidade legal e cobertura operacional às abordagens em alto-mar. É um mecanismo que transforma um patrulheiro europeu em extensão direta do poder coercitivo norte-americano, sem necessidade de deslocar permanentemente uma frota dos EUA para cada setor do Caribe.
A isso se soma a malha de ISR (Intelligence, Surveillance and Reconnaissance). As aeronaves P-8 Poseidon sobrevoam rotas críticas, os OPVs europeus transmitem dados de radar e identificação, e estações em Aruba, Curaçao, Guiana Francesa e Trinidad alimentam o quadro tático em tempo quase real. O que se vê é um ecossistema de sensores interligados, com redundância e sobreposição, capaz de monitorar desde embarcações rápidas usadas no narcotráfico até movimentações militares mais significativas perto da costa venezuelana.
Os portos estratégicos funcionam como pontos de apoio essenciais: Curaçao e Aruba para os holandeses, Fort-de-France e Caiena para os franceses, Georgetown para cooperação direta com a Guiana, e Trinidad e Tobago como elo logístico entre Antilhas e Guianas. Essa malha portuária dá sustentação física a uma presença constante, reduzindo tempos de resposta e permitindo revezamento contínuo das tripulações.
O resultado é que, ainda que cada país atue sob sua própria bandeira e justificativa, combate ao narcotráfico, proteção de territórios ultramarinos, cooperação regional, na prática formam um tecido multinacional único. A Venezuela, ao olhar para o mar, não enxerga apenas destroyers norte-americanos, mas um cerco funcional no qual qualquer navio aliado pode, no limite, agir como parte de uma mesma força. Essa é a essência da “OTAN por osmose”: não há declaração oficial da aliança, mas há interoperabilidade plena, objetivos convergentes e uma mensagem clara de dissuasão.
Vetores extra-regionais que engrossam o jogo
A presença de bandeiras da OTAN no entorno do Caribe já seria suficiente para pressionar Caracas, mas o tabuleiro se torna ainda mais complexo quando entram em cena atores extra-regionais que disputam influência direta na área. Entre eles, dois se destacam: Rússia e China.
A Rússia tem investido em uma política de “mostrar bandeira” no Caribe. Nos últimos anos, navios de guerra russos, fragatas e até mesmo submarinos nucleares em visitas de porto, atracaram em La Guaira e Puerto Cabello, em clara mensagem de solidariedade ao governo Maduro. Embora sejam gestos episódicos, a simbologia é poderosa: Moscou sinaliza que, se Caracas está cercada por forças ocidentais, não está totalmente isolada. Essa presença funciona como contrapeso psicológico e político, ainda que não configure uma aliança militar de defesa efetiva. Para os EUA e aliados, cada port call russo é um lembrete de que o Caribe pode se transformar em arena de rivalidade global, ampliando a pressão para manter vigilância constante.
A China, por sua vez, atua de forma mais silenciosa e estrutural. A expansão de suas instalações de inteligência de sinais (SIGINT) em Cuba reforça a capacidade de monitorar movimentos navais, comunicações militares e fluxos estratégicos no Caribe. Esse “olhar chinês” sobre o entorno da Venezuela eleva o grau de competição tecnológica, obrigando os Estados Unidos e seus parceiros a intensificar patrulhas aéreas e navais para neutralizar possíveis ganhos de informação de Pequim. Além disso, o fato de a CNOOC ser parte do consórcio que explora o petróleo do Stabroek coloca a China como investidora direta em águas que Caracas reivindica historicamente, criando uma contradição difícil: ao mesmo tempo em que é parceira estratégica da Venezuela em fóruns globais, Pequim tem interesse econômico imediato na continuidade da produção guianense.
O efeito combinado é claro. Cada passo russo ou chinês no Caribe serve de justificativa para que os EUA reforcem ainda mais a presença de seus próprios meios e arrastem junto aliados da OTAN. Ao mesmo tempo, esses movimentos aumentam a percepção de cerco em Caracas, que vê sua soberania contestada não apenas pela aliança ocidental, mas também condicionada ao jogo de potências externas. O mar da Venezuela, nesse sentido, deixa de ser apenas um espaço de disputa bilateral com a Guiana e se transforma em tabuleiro global, onde cada atracação, cada radar e cada exercício naval adensam o risco de escalada.
Degraus de risco e cenários
O risco que a Venezuela enfrenta hoje não está em uma declaração aberta de guerra, mas na escalada silenciosa criada pela proximidade constante entre meios navais e aéreos de países da OTAN e embarcações venezuelanas em áreas sensíveis do Caribe e do Essequibo. O primeiro degrau desse processo é o cenário-base, o mais provável no curto prazo: uma dissuasão de atrito controlado, na qual destroyers norte-americanos permanecem em águas internacionais, enquanto patrulheiros holandeses, canadenses e franceses revezam sua presença no arco ABC e nas Antilhas. Nesse ambiente, cada movimento venezuelano já nasce cercado de riscos diplomáticos e reputacionais, pois a malha de vigilância e a interoperabilidade entre aliados reduzem a margem de soberania de fato de Caracas.
O segundo degrau é o choque limitado, plausível em qualquer janela de semanas. Basta uma abordagem contestada, um sobrevoo agressivo ou um tiro de advertência para transformar um encontro tático em uma crise de 72 a 96 horas. Esse tipo de incidente, ainda que rapidamente controlado por linhas diplomáticas ou mediação regional, eleva os prêmios de seguro para navios mercantes e reforça a narrativa de que a Venezuela representa instabilidade. O resultado é um ciclo de desgaste em que Caracas se vê obrigada a recuar diante de forças muito mais densas, ainda que no plano militar não haja enfrentamento direto.
O terceiro degrau, menos provável no imediato, mas possível no médio prazo, é o alargamento gradual da malha aliada. Nele, mais navios europeus e canadenses se somam às patrulhas, visitas britânicas passam a ser rotineiras, exercícios multinacionais se multiplicam e a vigilância aérea e de sensores se torna mais intrusiva. Do outro lado, portos venezuelanos recebem navios russos em visitas de cortesia e Cuba amplia a rede de inteligência chinesa, criando uma lógica de competição permanente de grandes potências em torno da Venezuela. Nesse cenário, a soberania marítima venezuelana não é apenas comprimida: ela é transformada em zona de contenção, onde qualquer operação precisa ser previamente calculada em termos de custos diplomáticos, jurídicos e econômicos.
O que conecta todos esses degraus é a normalização do cerco. Caracas já vive sob um estado de vigilância ampliada que tende a se aprofundar com o avanço da produção petrolífera da Guiana e com cada nova decisão da Corte Internacional de Justiça em favor do status quo. A combinação entre poder militar, aparato jurídico e interesse corporativo internacional cristaliza uma situação em que a Venezuela, ainda que preserve sua retórica de resistência, se vê cada vez mais cercada em sua própria orla marítima. O perigo maior não é um conflito declarado, mas a lenta e contínua erosão de sua soberania, consolidada por incidentes pontuais que se transformam em precedentes e legitimam a presença aliada a longo prazo.
Implicações para o Brasil e a América do Sul
A escalada de presença de bandeiras da OTAN no entorno do Caribe e do Essequibo tem efeitos concretos para o Brasil e para a América do Sul. Para o Brasil, vizinho imediato e maior economia regional, qualquer alteração no equilíbrio marítimo do norte do continente repercute em cadeias logísticas, custos de frete, prêmios de seguro e previsibilidade de rotas que conectam o Atlântico Norte às exportações e importações brasileiras. Mesmo quando enquadradas como operações de lei e ordem, patrulhas mais densas, inspeções e zonas de atenção marítima tendem a alongar trajetos, elevar custos e exigir planejamento de risco mais conservador de armadores e seguradoras que operam com portos do Norte e Nordeste. Em paralelo, a ampliação da vigilância em torno do Essequibo consolida uma proteção de fato aos ativos do consórcio em águas guianenses e pressiona a margem de manobra venezuelana, o que reduz a probabilidade de interrupção súbita do escoamento de óleo da Guiana mas aumenta a chance de incidentes localizados e caros do ponto de vista reputacional e comercial.
No plano energético, o Brasil assiste à formação de um polo petrolífero de escala global bem ao lado de sua fachada setentrional. Esse polo reorganiza rotas de serviços offshore, logística de suprimentos e fluxos de derivados no entorno amazônico e caribenho, criando oportunidades para fornecedores brasileiros e pressionando por acordos de facilitação com Guiana, Suriname e Caribe. Ao mesmo tempo, cristaliza a presença contínua de meios navais aliados e de vigilância aérea em um arco próximo às águas sob jurisdição brasileira, o que impõe maior atenção a protocolos de encontro no mar, intercâmbio de informações e coordenação de avisos à navegação para evitar mal-entendidos que encostem no nosso litoral. A consequência geopolítica é clara: o Brasil precisa combinar sua defesa tradicional de solução pacífica de controvérsias com uma estratégia prática de resiliência logística e energética, preparada para choques de curto prazo e deslocamentos de risco nas rotas do Atlântico.
Na segurança regional, a compressão da soberania marítima venezuelana pode produzir efeitos de borda por terra. Alterações no humor político em Caracas, reforços internos e a normalização de um cerco naval no litoral tendem a deslocar pressões para eixos terrestres e fluviais. Para a fronteira Brasil–Venezuela, isso significa a necessidade de coordenação fina entre forças de segurança, defesa civil e órgãos migratórios, mantendo canais humanitários e de cooperação policial sem contaminar a política de não intervenção. Em termos de crime transnacional, o adensamento de operações no mar costuma empurrar redes ilícitas a rotas alternativas por rios e fronteiras secas, exigindo do Brasil monitoramento inteligente para evitar que gargalos marítimos virem corredores terrestres.
No eixo diplomático, a presença multi-bandeira de países da OTAN em torno do Essequibo estreita a janela para ambiguidades. O Brasil terá de sustentar publicamente a moldura jurídica da Corte Internacional de Justiça e o princípio da não intervenção, defendendo a redução de tensões, ao mesmo tempo em que preserva canais com Caracas, Georgetown, Washington e capitais europeias. Isso demanda protagonismo discreto em mecanismos regionais como CELAC e CARICOM e uso seletivo de foros hemisféricos, evitando alinhamentos automáticos a agendas extrarregionais e mantendo margem para atuação de bons ofícios. Uma diplomacia de prevenção de crises, com foco em procedimentos marítimos, calendários previsíveis de exercícios e comunicação direta entre marinhas, reduz o risco de incidentes que irradiem para o comércio e para a política doméstica brasileira.
Na dimensão informacional, a convergência entre poder naval, interesse corporativo e litígio internacional tende a ser acompanhada por campanhas de informação e contra-informação. O Brasil, que enfrenta ambiente interno intenso de disputas narrativas, precisará de mensagens públicas consistentes sobre sua posição jurídica e estratégica, para não ser arrastado por interpretações de conveniência. Isso inclui comunicar com clareza como protege seus interesses comerciais e de segurança sem aderir a lógicas de escalada, e como apoia soluções de direito internacional sem abrir mão da autonomia estratégica. A gestão de riscos reputacionais é parte do custo de transitar entre polos em competição crescente no Atlântico.
Por fim, há implicações de médio prazo para a política de defesa brasileira. O adensamento permanente de meios aliados no entorno amazônico e caribenho pressiona por investimentos em consciência situacional marítima, enlaces de comando e controle, patrulha de longo alcance e integração entre monitoramento costeiro e aéreo. Também recomenda exercícios de coordenação com vizinhos do arco norte para padronizar procedimentos e reduzir zonas cinzentas onde incidentes podem nascer. Nada disso contraria a não intervenção. Ao contrário, amplia a capacidade de o Brasil mediar, arbitrar e desescalar crises a partir de uma posição de capacidade própria e de credibilidade regional.
Em síntese, para o Brasil e para a América do Sul, a “OTAN por osmose” no Caribe estabiliza a produção guianense e o fluxo marítimo no curto prazo, mas normaliza um nível de presença militar extra-regional que comprime a autonomia venezuelana e eleva o custo de erro em todo o entorno. A resposta brasileira mais inteligente combina resiliência logística, prudência energética, vigilância de fronteira, diplomacia ativa em foros regionais e reforço de capacidades de monitoramento e comunicação no mar. Esse pacote não escolhe lados no litígio. Escolhe, de forma pragmática, reduzir riscos e preservar espaço de decisão soberana em um Atlântico cada vez mais disputado.
Indicadores operacionais para monitorar
Para entender o quanto a presença militar em torno da Venezuela tende a se manter no patamar atual ou a escalar, é fundamental observar alguns sinais concretos que funcionam como termômetros da crise. O primeiro deles são os comunicados oficiais do Comando Sul e da Marinha dos EUA, geralmente divulgados em tom rotineiro de operações antidrogas, mas que, na prática, revelam movimentações de navios de grande porte, reposicionamento de grupos-tarefa e patrulhas de aeronaves de inteligência. Cada nota aparentemente burocrática pode sinalizar reforço ou rotação de meios em direção ao litoral venezuelano.
Outro indicador decisivo são os port calls de navios aliados em portos do Caribe. A cada atracação de OPVs holandeses em Curaçao ou Aruba, de navios canadenses em Bridgetown ou Kingston, ou de fragatas francesas em Georgetown e Caiena, consolida-se a normalização da presença multinacional em torno do Essequibo. Essas escalas não são apenas logísticas: elas comunicam apoio político à Guiana, interoperabilidade com os EUA e vigilância indireta sobre Caracas.
O monitoramento das NOTMAR e NAVAREA, avisos extraordinários à navegação emitidos para alertar sobre exercícios, áreas de exclusão ou interdições temporárias, também é central. Sempre que surgem mensagens fora do padrão na região norte da Venezuela, no arco ABC ou na bacia do Essequibo, é sinal de que haverá operações de maior intensidade. Do mesmo modo, decisões da Corte Internacional de Justiça funcionam como gatilhos políticos: qualquer nova ordem contrária a Caracas tende a ser acompanhada de reforço militar informal para consolidar o status quo.
No plano econômico, os comunicados de Exxon, Chevron, Hess e CNOOC sobre novos FPSOs e metas de produção funcionam como prenúncio de maior densidade de proteção naval. O petróleo é o coração do tabuleiro, e cada anúncio de aumento de produção reforça a justificativa para manter patrulhas multinacionais próximas. Finalmente, o olhar deve se voltar para atores extra-regionais: port calls russos em La Guaira ou a expansão de estações de inteligência chinesas em Cuba são sinais de que a competição de grandes potências está mais presente do que nunca e servem de argumento para os EUA ampliarem a vigilância e arrastarem aliados junto.
Em síntese, os indicadores que merecem atenção não são apenas militares, mas também jurídicos e corporativos. Eles revelam como a crise se move em camadas sobrepostas, direito internacional, capital energético e poder naval, e ajudam a prever se a Venezuela continuará apenas cercada por uma dissuasão difusa ou se caminha para um incidente capaz de redesenhar as fronteiras da soberania no Caribe.
Fecho a “OTAN por osmose” e a soberania em xeque
O que se desenrola no mar da Venezuela é mais do que uma disputa territorial com a Guiana. É a consolidação de uma malha multinacional em que bandeiras da OTAN, Estados Unidos, Holanda, Canadá, França e Reino Unido, atuam de forma coordenada, mesmo sem a chancela formal da aliança. Essa “OTAN por osmose” nasce da soma de patrulhas, interdições e escalas portuárias que, sob a justificativa de combater o narcotráfico e proteger rotas comerciais, transformam o Caribe em um corredor vigiado e em uma zona de contenção permanente contra Caracas.
Para a Venezuela, o risco imediato não é uma guerra declarada, mas a erosão lenta e constante de sua soberania marítima. Cada interdição próxima à sua costa, cada decisão da Corte Internacional de Justiça favorável à Guiana e cada anúncio de aumento da produção petrolífera do Stabroek reforçam a presença de forças estrangeiras e diminuem sua capacidade de projetar poder sobre suas próprias águas. O resultado é uma soberania condicionada, na qual o exercício pleno de autoridade se torna cada vez mais caro, arriscado e politicamente custoso.
Ao mesmo tempo, a convergência entre interesses corporativos bilionários, aparato jurídico internacional e poder naval ocidental cria uma engrenagem difícil de reverter. O petróleo do Stabroek tornou-se o escudo invisível que justifica a militarização do entorno e o isolamento da Venezuela. As visitas de navios russos e a expansão da vigilância chinesa em Cuba só adicionam densidade à disputa, fortalecendo o argumento de que o Caribe é hoje um espaço de rivalidade global e, portanto, precisa ser controlado pelos aliados ocidentais.
O que se assenta, portanto, é um precedente perigoso: a ideia de que a soma de bandeiras pode operar como uma aliança de fato, mesmo sem existir um mandato formal. Para Caracas, esse cerco silencioso significa conviver com uma soberania esvaziada, na qual qualquer gesto mais assertivo pode ser enquadrado como ameaça à segurança regional ou à estabilidade dos fluxos energéticos globais. Para o restante da América do Sul, sobretudo o Brasil, significa lidar com um Atlântico cada vez mais disputado, onde decisões tomadas em Washington, Paris, Haia ou Ottawa repercutem diretamente sobre rotas, custos e autonomia estratégica.
No fim, a crise do Essequibo não é apenas uma questão de fronteiras: é um laboratório de como o direito internacional, o capital transnacional e o poder militar se fundem para redesenhar o mapa da soberania no século XXI. E no centro desse tabuleiro está a Venezuela, cercada não apenas pelos EUA, mas pela sombra ampliada da OTAN, que avança sem dizer seu nome.
Foto: Joyce N. Boghosian/White House
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/venezuela-na-mira-nao-apenas-dos-eua-mas-das-bandeiras-da-otan