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Verdades inconvenientes e mentiras confortáveis

Se há uma confusão geopolítica mal explicada, os EUA são protagonistas ou são financiadores.

O mundo testemunha o Império estadunidense em franca decadência, tanto que a democracia e as liberdades ignoradas, no mínimo relativizada.

Sob Trump tudo está mais desabrido, mas, o que interessa ao império é ampliar seu território, e alcançar as riquezas que lhes interessam, tudo para atrasar o inexorável fim de uma era, afinal, a História mostra que todos os Impérios chegaram ao fim, após séculos ou décadas de decadência.

É uma verdade inconveniente, mas é a verdade.

Gosto de história e vou compartilhar com o leitor um pouco dela.

O pós-guerra criou dois atores em permanente antagonismo: a ocidente os EUA pelo lado ocidental e a URSS pelo lado oriental.

O Brasil aderiu, desde Vargas, à liderança dos EUA e algumas gerações passaram a acreditar que o “os americanos”, país da liberdade e dos corajosos, de fato defenderiam o mundo do mal, que passou a ser visto como a União Soviética, o comunismo, etecetera e tal.

A narrativa ocidental, ajudada por uma imprensa servil e que vive a soldo dos poderosos, sempre normalizou ações dos EUA, que realizaram intervenções militares, invasões ou bombardeios em dezenas de países desde o século XIX, com foco histórico na América Latina, Ásia e Oriente Médio, visando expansão territorial, proteção de interesses comerciais ou mudanças de regime. Exemplos notáveis incluem Cuba, Panamá, Iraque, Afeganistão, Vietnã, Coreia e, recentemente, ações no Iêmen, Síria e Venezuela.

Vale a pena compartilhar com o paciente leitor os principais países com histórico de Intervenções ou Invasões: na América Latina e Caribe: Cuba (1898, 1959-1961), Panamá (1903, 1989), Haiti (1915, 1994, 2021), República Dominicana (1916, 1965), Guatemala (1954), Granada (1983), Nicarágua (1980s), Venezuela (2026 – captura de Maduro); na Ásia: Filipinas (1899), Coreia (1950-53), Vietnã (1961-73), Laos (1964-73), Camboja (1969-70), Afeganistão (1998, 2001-2016), Iraque (1991, 2003-2015), Indonésia (1958), no Oriente Médio e África: Líbia (1986, 2011), Iêmen (2002, 2009, 2025), Somália (1993, 2007, 2022), Síria (2014, 2025), Irã (1953, 2025).

Sempre com boas justificativas.

No início do Séc. XX as invasões estavam relacionadas ao Expansionismo, à Doutrina Monroe e a política do “Big Stick”, Panamá e Caribe foram as vítimas; no contexto da Guerra Fria a justificativa era conter o comunismo, então o mundo viu a Guerra da Coreia e do Vietnã, invasão a Cuba e intervenções à América Latina; depois vieram as Guerras ao terrorismo, foram vítimas o Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e, mais recentemente, podemos citar bombardeios no Iêmen, Síria, Nigéria e ação na Venezuela.

Os EUA apoiaram, financiaram ou orquestraram diversos golpes de estado e intervenções, intensificando-se durante a Guerra Fria sob justificativas anticomunistas e pela Doutrina Monroe, especialmente na América Latina. Casos notórios incluem o apoio ao golpe de 1964 no Brasil (Operação Brother Sam), a deposição de Mossadegh no Irã (1953), o golpe na Guatemala (1954) e o suporte a Pinochet no Chile (1973).

Ou seja, se há uma confusão geopolítica mal explicada, os EUA são protagonistas ou são financiadores.

Pelo lado oriental a URSS também foi geradora de confusão, pois, durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética anexou vários países como Republicas Socialistas Soviéticas, que originalmente foram efetivamente cedidos a ela pela Alemanha Nazista em protocolos secretos do Pacto Molotov-Ribbentrop. Estes incluíram a Polônia Oriental, Letônia, Estônia, Lituânia, parte da Finlândia Oriental, Romênia.

Por essas e outras a adesão à logicas de um lado e de outro nunca me interessou, pois, não há santos quando a questão é expansão territorial, por isso sempre digo: escolha seu lado, mas sustente a sua posição sem mentiras, versões ou revisionismo.

Os equívocos, mas narrativas e as versões me incomodam tanto quanto as mentiras.

Vamos lá.

Aqui no Brasil a extrema-direita, que estava quietinha, contudo, a partir das marchas de junho de 2013, da Lava-Jato em 2014, do injusto afastamento da Dilma em 2016 e da ilegal prisão de Lula em 2018, ela emergiu do chorume e encontrou no discurso de Bolsonaro um caminho para voltar ao poder, foi o que aconteceu.

Hoje o Brasil tem no congresso, nas assembleias legislativas e nas câmaras de vereadores, um número enorme de parlamentares sem apreço pela democracia, a serviço de interesses privados e prontos para trair a constituição, apoiar um golpe de Estado, tendo como aliados os ultraliberais, o neopentecostalismo e um exercito de incautos.

Li numa coluna tradicional do jornal aqui de Campinas que Lula pretende implantar uma república socialista no Brasil e o início disso foi a nomeação de Toffoli, que, sem preparou ou cultura jurídica, estaria lá para corroer o STF, tanto sob o aspecto técnico, quanto no aspecto ético.

Vamos lá.

Lula não é socialista, ele está entre a social-democracia e o social-liberalismo, os seus governos não descumpriram nenhum dos pilares do capitalismo

Na presidência, Lula usou o neoliberalismo e o desenvolvimentismo e suas teorias econômicas capitalistas, de acordo com o momento; foi extremamente austero de 2003 a 2005, para arrumar a bagunça de FHC, e usou as teorias de Keynes e Celso Furtado para catalisar o desenvolvimento do país; ele nunca descumpriu nenhum contrato, sempre apoiou a indústria, o agro, os serviços, sem perder de vista a inclusão social, através de politicas sociais, geração de empregos, etc.

Sobre Toffoli: foi uma péssima escolha, ele sempre foi um idiota e pode ter se tornado um canalhinha servil aos capital, há indícios, mas não há provas, mas dizer que todo STF está contaminado e, data vênia, um exagero, pois, o STF nunca foi uma casa de sábios, sempre foi e ainda é uma casa de bons juristas de direita (agora temos até um de extrema-direita), hoje dos dez ministros (há uma cadeira vaga), oito são de centro-direita, um de extrema-direita e um de esquerda.

Atualmente a mediocrização do STF é visível hoje graças à TV Justiça e às redes sociais, mas a corte sempre foi isso aí, com um pouco mais ou menos de verniz, dependendo da época.

Não podemos esquecer que a ditadura, pelas mãos do estrategista Golbery do Couto e Silva, tomou o cuidado de nomear para o STF apenas juristas de direita e apoiadores da ditadura, o último deles saiu em 1993, treze anos após a fim daquele nefasto regime.

Já escrevi e vários jornais e portais publicaram que Toffoli tem que “ir para casa”, contudo, é nosso dever separar o joio do trigo e distribuir a nossa indignação com honesto zelo, ela deve alcançar todos os malfeitos, à direita e à esquerda.

A nossa indignação deve alcançar também o Ibaneis, o Cláudio Castro e o Tarcísio de Freitas, todos eles transferiram fortunas ao Banco MASTER e o desequilíbrio da nossa crítica a torna seletiva, e toda seletividade é ideológica.

Essas são as reflexões.

Pedro Benedito Maciel Neto, pai, avô, advogado e pontepretano, sócio da www.macielneto.adv.br – pedromaciel@macielneto.adv.br – autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito, ed. Komedi, 2007; “Tensão entre os poderes”, ed. Apparte, 2024, dentro outros.

Foto: Sam Howzit/Flickr/Creative Commons

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/verdades-inconvenientes-e-mentiras-confortaveis