Presidente chinês defende modelos abertos, controle humano e maior participação do Sul Global na construção das regras internacionais para a tecnologia.
247 – O presidente da China, Xi Jinping, apresentou nesta sexta-feira (17), em Xangai, uma visão para o desenvolvimento e a governança da inteligência artificial que desafia o domínio tecnológico exercido pelos Estados Unidos e pelas grandes corporações estadunidenses sobre o setor. Em discurso na Conferência Mundial de Inteligência Artificial, Xi defendeu a cooperação multilateral, o código aberto e a ampliação do acesso dos países em desenvolvimento às novas tecnologias.
Segundo reportagem da Reuters, o pronunciamento marcou uma tentativa de posicionar a China como liderança na formulação das normas internacionais que deverão orientar o avanço da inteligência artificial nas próximas décadas. A proposta chinesa se contrapõe ao modelo liderado por Washington, caracterizado pela centralidade das empresas privadas, pela proteção de tecnologias proprietárias e pela imposição de restrições ao acesso chinês a semicondutores e sistemas avançados.
Durante a conferência, Xi anunciou formalmente a criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, a WAICO, instituição internacional com sede em Xangai. O acordo de constituição da entidade foi assinado por 29 países e estabelece uma organização intergovernamental independente, aberta à adesão de novos integrantes.
Inteligência artificial não pode ser monopólio de um país
Em seu pronunciamento, Xi argumentou que o desenvolvimento da inteligência artificial não deve ser uma apresentação exclusiva de um único país, mas o resultado de uma cooperação mundial.
A mensagem representa uma crítica direta, ainda que diplomática, à tentativa dos Estados Unidos de preservar sua vantagem tecnológica por meio do controle sobre chips, centros de processamento, modelos proprietários e serviços de computação em nuvem.
Xi também voltou a condenar o uso excessivo do conceito de segurança nacional como justificativa para restringir a circulação internacional de tecnologias. O governo chinês sustenta que essas barreiras ampliam a desigualdade tecnológica e dificultam o desenvolvimento econômico dos países emergentes.
O presidente chinês defendeu que a inteligência artificial seja tratada como uma oportunidade coletiva e não como instrumento para aprofundar relações de dependência. Segundo ele, a tecnologia deve produzir uma “sinfonia de cooperação global”, em vez de servir aos interesses exclusivos de uma potência.
Código aberto como bem público mundial
Um dos pontos centrais da visão apresentada por Xi foi a defesa dos sistemas de inteligência artificial de código aberto. O presidente afirmou que os países devem aproveitar as oportunidades criadas por esses modelos para evitar que antigas injustiças econômicas e tecnológicas sejam reproduzidas na era da IA.
No modelo de código aberto, elementos fundamentais de um sistema podem ser acessados, adaptados e desenvolvidos por pesquisadores, empresas e governos. Essa estrutura contrasta com os sistemas proprietários mantidos sob rígido controle comercial por companhias estadunidenses.
Empresas chinesas vêm apostando de forma crescente em modelos de peso aberto, capazes de ser utilizados e modificados por terceiros. Essa estratégia amplia a presença da tecnologia chinesa em países que não possuem recursos para desenvolver seus próprios grandes modelos de linguagem ou pagar pelos serviços das maiores empresas dos Estados Unidos.
Ao associar o código aberto ao conceito de bem público mundial, Pequim procura oferecer aos países em desenvolvimento uma alternativa à dependência de plataformas controladas por empresas estrangeiras.
Modelos chineses avançam na competição tecnológica
A ofensiva diplomática ocorre em paralelo ao avanço acelerado das empresas chinesas de inteligência artificial. Modelos desenvolvidos no país vêm reduzindo a diferença de desempenho em relação aos sistemas proprietários das companhias estadunidenses.
Entre os exemplos citados na cobertura internacional está o Kimi K3, da empresa chinesa Moonshot AI. O sistema foi apresentado como um concorrente dos modelos desenvolvidos por empresas como OpenAI e Anthropic, que mantêm seus principais códigos, dados de treinamento e estruturas internas protegidos.
A disputa já não envolve apenas qual país produzirá os sistemas mais avançados. Ela também determinará quais padrões tecnológicos serão adotados, quem controlará os dados, quais empresas fornecerão a infraestrutura e quais governos poderão estabelecer as regras internacionais.
Analistas avaliam que a estratégia chinesa de oferecer modelos mais acessíveis e com menos restrições operacionais pode ampliar sua influência especialmente entre os países do Sul Global.
China oferece treinamento ao Sul Global
Xi anunciou que a China ampliará o apoio aos países em desenvolvimento para que possam construir suas próprias capacidades em inteligência artificial.
Pequim pretende oferecer 5 mil oportunidades de treinamento em IA ao longo dos próximos cinco anos. Também estão previstos centros internacionais de cooperação tecnológica e iniciativas conjuntas com os Brics, a Associação das Nações do Sudeste Asiático, a União Africana e países da América Latina.
O governo chinês anunciou ainda a disponibilização de sistemas de inteligência artificial aplicados à meteorologia para cerca de 30 países. A tecnologia poderá ser usada na produção de alertas antecipados sobre eventos climáticos extremos e desastres naturais.
A estratégia fortalece a diplomacia tecnológica chinesa e busca demonstrar que a cooperação em IA pode gerar benefícios práticos nas áreas de saúde, agricultura, clima, educação e administração pública.
Ao contrário de uma relação baseada apenas na venda de serviços, a proposta chinesa enfatiza a formação de profissionais, a construção de centros regionais e o desenvolvimento conjunto de soluções.
Países emergentes querem participar das decisões
A criação da WAICO responde a uma demanda recorrente dos países em desenvolvimento: o direito de participar da formulação das regras que determinarão o futuro da inteligência artificial.
Atualmente, uma parcela expressiva da capacidade computacional, dos centros de dados, dos semicondutores avançados e dos principais modelos está concentrada nos Estados Unidos e em um pequeno número de economias desenvolvidas.
Para os países do Sul Global, essa concentração representa o risco de uma nova divisão internacional do trabalho. As potências controlariam as tecnologias, os dados e os ganhos econômicos, enquanto os demais países permaneceriam como consumidores de produtos estrangeiros.
A nova organização propõe uma estrutura baseada em ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados. Seu documento constitutivo afirma que a instituição seguirá os princípios da Carta das Nações Unidas e adotará uma abordagem centrada nas pessoas.
O Brasil está entre os países fundadores da organização, reforçando sua defesa da soberania digital e de uma governança internacional mais inclusiva.
Segurança e controle humano
Apesar da defesa da abertura tecnológica, Xi também ressaltou os riscos associados ao avanço acelerado da inteligência artificial.
O presidente chinês afirmou que os sistemas devem permanecer sob controle humano e defendeu a criação de mecanismos de alerta precoce, avaliação de riscos e resposta a emergências.
A preocupação inclui a possibilidade de uso indevido da IA, a disseminação de informações falsas, ataques cibernéticos, decisões automatizadas discriminatórias e cenários em que sistemas autônomos possam operar fora do controle de seus criadores.
Xi defendeu leis, padrões técnicos, sistemas de supervisão e instrumentos internacionais capazes de impedir que o desenvolvimento da inteligência artificial produza ameaças à segurança coletiva.
Especialistas chineses e estadunidenses já manifestaram preocupações semelhantes sobre sistemas avançados que escapem do controle humano, embora os dois países ainda apresentem diferenças sobre a forma e o alcance da regulamentação.
Estados Unidos defendem menor regulação
A iniciativa chinesa expõe o contraste entre duas visões sobre o futuro da inteligência artificial.
Os Estados Unidos defendem um ambiente regulatório menos restritivo, sob o argumento de que uma intervenção governamental excessiva poderia reduzir a inovação e comprometer a competitividade de suas empresas.
A China propõe uma combinação entre desenvolvimento tecnológico, planejamento estatal, cooperação internacional e mecanismos globais de segurança.
Na prática, os dois países também defendem seus interesses estratégicos. Washington busca preservar a liderança de suas empresas e o controle sobre tecnologias essenciais. Pequim procura romper as barreiras impostas à sua indústria e construir uma coalizão internacional favorável a padrões tecnológicos mais abertos.
A formação da WAICO pode consolidar um novo polo de governança da inteligência artificial, organizado em torno dos princípios de soberania, desenvolvimento e redução das desigualdades tecnológicas. Pesquisadores já apontavam que uma instituição com essas características poderia se diferenciar dos organismos ocidentais, geralmente concentrados em direitos, segurança e critérios políticos de adesão.
Conferência reúne lideranças internacionais
A Conferência Mundial de Inteligência Artificial, realizada entre 17 e 20 de julho em Xangai, reuniu autoridades políticas, pesquisadores, empresários e representantes de organismos internacionais.
Entre os participantes esteve o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que discursou na cerimônia de abertura ao lado de Xi Jinping. Também participaram representantes de países como Cazaquistão e Tailândia.
A presença de lideranças internacionais reforçou a tentativa chinesa de transformar a conferência em um dos principais fóruns mundiais para o debate sobre inteligência artificial.
Mais de mil empresas participaram do evento, apresentando avanços em robótica, grandes modelos de linguagem, processamento de dados, semicondutores e aplicações industriais.
Disputa pelas regras do futuro
A competição entre China e Estados Unidos pela inteligência artificial não se limita à busca pelo modelo mais avançado ou pelo chip mais poderoso.
A disputa envolve a definição das regras que determinarão como a tecnologia será desenvolvida, distribuída e controlada. Também envolve a capacidade de estabelecer alianças, formar profissionais e criar dependências tecnológicas duradouras.
Com a criação da WAICO, a China passa a oferecer uma arquitetura institucional própria para a cooperação internacional em inteligência artificial.
A proposta de Xi busca apresentar Pequim como defensora de uma tecnologia aberta, acessível e voltada ao desenvolvimento compartilhado. Ao mesmo tempo, desafia diretamente a hegemonia das empresas e instituições estadunidenses que atualmente dominam grande parte da infraestrutura global de IA.
A conferência de Xangai marca, portanto, o início de uma nova etapa da disputa tecnológica mundial. Mais do que competir por mercados, China e Estados Unidos procuram definir os princípios, as instituições e os padrões que organizarão uma das tecnologias mais decisivas do século XXI.
Foto: Xinhua
FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/visao-de-xi-jinping-para-a-inteligencia-artificial-desafia-o-dominio-dos-estados-unidos-sobre-o-setor/#google_vignette