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Vitória do Irã enfraquece o petrodólar, abre espaço para o “petroyuan” e fortalece o Sul Global

Uso do yuan no Estreito de Ormuz expõe fissuras na hegemonia financeira dos Estados Unidos e impulsiona nova ordem econômica global.

247 – Com a vitória do Irã contra Estados Unidos e Israel na guerra no Golfo Pérsico, Teerã e Pequim passaram a avançar de forma estratégica contra a hegemonia do dólar no sistema financeiro internacional. Segundo reportagem da Al Jazeera, esse movimento ganhou força com a adoção do yuan em operações comerciais no Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.

A iniciativa, que representa uma vitória política e econômica do Irã, reforça a cooperação com a China e amplia o debate global sobre a desdolarização. No centro dessa estratégia está o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito. De acordo com a reportagem, embarcações comerciais passaram a pagar taxas de passagem em yuan, sinalizando uma mudança relevante nas regras do comércio internacional de energia.

Ainda que o número de navios que utilizaram a moeda chinesa seja limitado – ao menos duas embarcações até o fim de março, segundo a Lloyd’s List –, o gesto tem forte impacto simbólico e geopolítico. O próprio Ministério do Comércio da China reconheceu os relatos, enquanto a embaixada iraniana no Zimbábue defendeu abertamente a adoção do chamado “petroyuan” no mercado global de petróleo.

Desafio direto ao sistema dominado pelos EUA

Para Irã e China, o avanço do yuan representa uma resposta direta ao uso do dólar como instrumento de pressão política por parte dos Estados Unidos. Há décadas, Washington utiliza a centralidade de sua moeda para impor sanções e influenciar economias rivais, como as de Teerã e Pequim.

O economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, explicou à Al Jazeera as motivações iranianas: “Em um nível, o Irã está tentando provocar os Estados Unidos, adicionando insulto ao prejuízo”.

Ele acrescentou: “Em outro nível, o Irã está totalmente comprometido em preferir o yuan para evitar sanções dos EUA e fortalecer sua aliança com a China, que vem avançando de forma consistente para redefinir seu comércio – e o dos países do BRICS – em yuan”.

A estratégia também reduz custos e facilita o comércio bilateral, que cresceu significativamente desde a assinatura de uma parceria estratégica de 25 anos entre os dois países, em 2021.

Integração sino-iraniana ganha força

A China atualmente compra mais de 80% das exportações de petróleo iraniano, muitas vezes com descontos associados a pagamentos em yuan. Em contrapartida, o Irã importa grandes volumes de máquinas, equipamentos eletrônicos, produtos químicos e componentes industriais chineses.

Mesmo com o conflito em curso, os fluxos comerciais entre os dois países se mantiveram estáveis. Nas primeiras semanas da guerra, o Irã exportou entre 12 milhões e 13,7 milhões de barris de petróleo, com a maior parte destinada à China, segundo dados de empresas de monitoramento do setor.

Para o professor Bulent Gokay, da Universidade de Keele, o Irã compreende plenamente o alcance dessa disputa. Ele afirmou: “O Irã entende claramente a importância desse desafio à dominância financeira dos Estados Unidos, bem como o papel vital do sistema do dólar e dos petrodólares”.

Segundo ele, a estratégia chinesa está alinhada à construção de uma nova ordem global: “um mundo financeiro multipolar, em que o papel central do dólar dos EUA seja contrabalançado pela crescente influência das potências emergentes”.

Foto: Gerada por IA/DALL-E

FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/vitoria-do-ira-enfraquece-o-petrodolar-abre-espaco-para-o-petroyuan-e-fortalece-o-sul-global