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Vitória do Irã sobre os EUA marca ponto de inflexão global, afirma Mohammad Marandi

Intelectual iraniano diz que Washington foi derrotado militarmente, vê o Memorando de Islamabad como vitória de Teerã e aponta avanço do Sul Global.

247 – O intelectual iraniano Mohammad Marandi afirmou que a vitória do Irã sobre os Estados Unidos representa “um ponto de inflexão na história do mundo” e disse que Washington foi obrigado a buscar um acordo após perder o conflito militar de 39 dias. Em entrevista exclusiva ao jornalista Marco Fernandes, do Brasil de Fato, Marandi avaliou que o chamado Memorando de Islamabad consolida uma derrota histórica dos EUA e de Israel diante da resistência iraniana.

Segundo Marandi, o acordo é “obviamente uma vitória para o Irã”, pois prevê a devolução de ativos iranianos, o levantamento de sanções sobre petróleo e energia, o fim do cerco ao Estreito de Ormuz e a interrupção dos ataques israelenses no Líbano. Para ele, no entanto, a implementação do entendimento permanece incerta enquanto Israel mantiver suas ações militares. “Neste momento, o regime israelense está massacrando famílias, crianças e mulheres, todos os dias. E enquanto isso acontecer e o regime israelense não recuar, não haverá implementação do acordo”, afirmou.

O memorando foi assinado à distância pelos presidentes Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e Masoud Pezeshkian, do Irã. As partes teriam concordado em abrir um prazo de 60 dias para negociações sobre os termos de implementação. A viagem das delegações à Suíça, prevista para esta sexta-feira, não ocorreu, em meio às dúvidas sobre a viabilidade política do acordo e à continuidade dos bombardeios israelenses no Líbano.

“Os Estados Unidos perderam a guerra”

Marandi foi categórico ao afirmar que o conflito representou uma derrota militar para Washington e seus aliados. “Os Estados Unidos perderam a guerra. Perderam o conflito militar. Após 39 dias de combates, os iranianos saíram vitoriosos. Não foi apenas que o Irã sobreviveu. O Irã derrotou a coalizão”, disse.

Segundo ele, essa coalizão incluía “os Estados Unidos, o regime israelense, a Jordânia, a Arábia Saudita, o Bahrein, o Kuwait, o Catar e os Emirados Árabes Unidos”, além do apoio do Ocidente e dos países da OTAN. Na avaliação do intelectual iraniano, a guerra naval aberta pelos EUA se transformou em uma “faca de dois gumes” e colocou em risco a própria economia global.

“Como resultado, os Estados Unidos estão destruindo a economia global, e os iranianos resistiram mais do que eles. Portanto, agora os Estados Unidos precisam de um acordo. E o acordo não é ruim. É um bom acordo, mas os Estados Unidos não estão preparados para implementá-lo. E se não o implementarem, o Irã não cumprirá seus compromissos”, declarou.

O ponto central da avaliação de Marandi é que o Irã não apenas resistiu ao maior aparato militar da história, mas saiu do conflito com maior capacidade de influência regional e global. O país passou a reivindicar, segundo essa leitura, uma posição de potência dominante na Ásia Ocidental e de ator decisivo no controle do Estreito de Ormuz, principal gargalo energético do planeta.

Acordo prevê sanções, ativos e Estreito de Ormuz

O Memorando de Entendimento de 14 pontos prevê, segundo Marandi, medidas favoráveis ao Irã em áreas estratégicas. Entre elas estão o fim de sanções, a devolução de ativos, a normalização das exportações de petróleo e energia, o desbloqueio de Ormuz e compromissos relacionados ao programa nuclear iraniano.

“O acordo, o Memorando de Entendimento (MOU), obviamente é uma vitória para o Irã, porque os Estados Unidos afirmam que devolverão os ativos roubados do Irã. Levantarão as sanções sobre as exportações de petróleo e energia iranianas. Levantarão o cerco ao Estreito de Ormuz. E porão fim ao genocídio no Líbano, entre outras coisas”, afirmou.

Marandi rejeitou a interpretação de que a reabertura do Estreito de Ormuz seria uma grande concessão iraniana. Segundo ele, o estreito já estava aberto antes da guerra e a crise atual foi provocada pelos próprios Estados Unidos e por Israel.

“A abertura do Estreito de Ormuz não é uma concessão. Ele já estava aberto antes da guerra. Foram os americanos que fizeram com que a situação chegasse ao ponto em que se encontra hoje. E foram os americanos e os israelenses que causaram essa crise global”, disse.

O intelectual também afirmou que, mesmo se houver implementação do acordo, a situação de Ormuz não voltará ao modelo anterior. Segundo ele, o Irã pretende cobrar taxas pela passagem de embarcações e impedir que os EUA utilizem o estreito para militarizar o Golfo Pérsico.

“Após os 60 dias, se é que chegaremos a esse ponto, o Irã cobrará taxas. O Irã controla o Estreito de Ormuz e cobrará taxas de seguro, de proteção ambiental e de proteção dos próprios navios. Portanto, isso é algo que os iranianos decidiram fazer, e eles controlarão esse comércio”, afirmou.

Marandi acrescentou: “No futuro, não permitirão que navios da Marinha americana entrem no Golfo Pérsico para criar outro ambiente propício à agressão contra o Irã. Portanto, a situação do comércio no Estreito de Ormuz não vai voltar a ser como era antes. O comércio continuará, mas haverá uma taxa para cada navio e não haverá nenhuma oportunidade para os Estados Unidos usarem o Estreito para militarizar o Golfo Pérsico”.

Programa nuclear e urânio enriquecido seguem no centro das negociações

Um dos temas mais sensíveis do memorando é o programa nuclear iraniano. O acordo trata dos 430 kg de urânio enriquecido a 60%, nível próximo ao necessário para a produção de uma bomba nuclear. Pelos termos mencionados na entrevista, esse material seria diluído domesticamente sob supervisão rigorosa da Agência Internacional de Energia Atômica, em vez de ser enviado a outros países.

A solução é interpretada como mais uma vitória de Teerã, pois preserva a soberania iraniana sobre o processo e evita a transferência do material para fora do país. Ainda assim, as negociações previstas para os próximos 60 dias terão de definir os mecanismos concretos de verificação e implementação.

Marandi insistiu que, sem o cumprimento da parte norte-americana, o Irã não aceitará executar seus compromissos. Para ele, a continuidade dos ataques israelenses ao Líbano é o principal obstáculo imediato ao avanço do memorando.

Israel, Líbano e a pressão sobre Trump

Questionado sobre a possibilidade de Israel sabotar o acordo, Marandi afirmou que, até agora, não há sinais de que os Estados Unidos estejam dispostos a forçar o governo israelense a interromper os ataques ao Líbano.

“Até agora, não há sinais de que os americanos vão fazer algo para forçar os israelenses a interromper os ataques genocidas contra o povo libanês e os civis”, afirmou.

Ele relatou ainda um episódio pessoal para ilustrar a gravidade dos bombardeios: “Na verdade, o sogro de um amigo meu, que era pós-doutorando na Universidade de Pequim, foi assassinado esta manhã nos ataques aéreos israelenses. Ele estava em sua casa e, junto com outros civis, ficou preso sob os escombros. Todos morreram”.

Marandi disse que Washington tem condições de conter Israel quando quiser, mas acusou os EUA de sustentarem militar e politicamente as ações israelenses. “Mas os americanos, hipoteticamente ou teoricamente falando, é claro que podem impedir os israelenses sempre que quiserem. O regime israelense é totalmente dependente dos Estados Unidos”, declarou.

Segundo ele, há uma divergência crescente entre os interesses de Trump e os de Israel. O governo israelense, afirmou, não se preocupa com os impactos da guerra sobre a economia global, enquanto o presidente norte-americano depende da estabilidade econômica dos EUA.

“O regime israelense não se importa com a economia global. Ele não se importa se ela entrar em colapso. E Trump, é claro, tem seu destino dependente de que a economia dos EUA não entre em colapso. Portanto, as palavras duras de Vance e de Trump não significam nada para o Irã. No fim das contas, a única coisa que importa para o Irã é que os Estados Unidos cumpram sua parte do acordo. Caso contrário, o Irã não cumprirá a sua parte do acordo”, afirmou.

Sul Global, BRICS e o declínio do Ocidente

Na entrevista, Marandi também situou a vitória iraniana em um cenário mais amplo de transformação da ordem mundial. Para ele, o Ocidente perde capacidade de impor sua vontade, enquanto o Sul Global avança política e economicamente.

“Bem, o Ocidente está perdendo seu status globalmente e está em declínio. E sua capacidade de conter o Irã está diminuindo rapidamente”, afirmou.

Segundo o intelectual, o Irã venceu em três frentes: no campo de batalha, na guerra de cerco econômico e na mesa de negociações. Para ele, esse processo demonstra que Estados Unidos e Europa já não ocupam a mesma posição de força que tiveram no passado.

“E isso, creio eu, são todos sinais de que os Estados Unidos e os europeus, especialmente os europeus, não estão mais realmente em uma posição forte para impor sua vontade a outras nações. Eles estão em declínio, enquanto o Sul Global está em ascensão”, disse.

Marandi citou o artigo de Robert Kagan na revista The Atlantic para reforçar a dimensão histórica do episódio. “A vitória do Irã foi, como Robert Kagan, o padrinho dos neoconservadores, apontou em seu artigo na revista The Atlantic: trata-se da maior catástrofe para os Estados Unidos em toda a sua história. Esse foi um ponto de inflexão na história do mundo”, afirmou.

Para ele, o futuro do Irã não está no Ocidente, mas na aproximação com a chamada Maioria Global. “Assim, o Irã intensificará sua cooperação com os países do Sul Global, os países do BRICS e os membros da Organização de Cooperação de Xangai, e seu controle sobre o estreito de Ormuz aumentará sua capacidade de crescer economicamente e de exercer influência regional e global mais do que nunca”, declarou.

Relações com Rússia e China

Apesar da parceria estratégica do Irã com Moscou e Pequim, Marandi afirmou não acreditar que Rússia e China tenham desempenhado papel decisivo na construção do entendimento com Washington. Ainda assim, disse que os laços de Teerã com esses dois países continuarão se fortalecendo.

“Não creio que Moscou ou a China tenham desempenhado um papel significativo nesse processo de acordo. Mas a relação entre o Irã e a Rússia, e entre o Irã e a China, está obviamente evoluindo e se fortalecendo. E por razões óbvias: tanto porque são parceiros naturais, quanto devido ao antagonismo do Ocidente em relação a todos eles”, disse.

Para Marandi, o memorando não representa uma reorientação iraniana em direção ao Ocidente. Ao contrário, consolida a ancoragem do país no eixo euro-asiático e no Sul Global.

“Mas o atual acordo do Irã com os Estados Unidos — ou, para ser mais preciso, o Memorando de Entendimento (MOU) com os Estados Unidos — não afasta o Irã de seus amigos e parceiros próximos na maioria global. Na verdade, não vejo a relação do Irã com o Ocidente melhorando nem um pouco. Os Estados Unidos são simplesmente incapazes de se comportar como um país normal, e os europeus são um bando sem esperança, que está se tornando cada vez mais irrelevante. Portanto, o futuro do Irã não está no Ocidente, mas na Maioria global”, afirmou.

Investimentos e reconstrução econômica

Outro ponto tratado na entrevista foi a previsão de US$ 300 bilhões em investimentos para a reconstrução do Irã e o fortalecimento de sua economia. Marandi explicou que não se trata de uma transferência direta de recursos ao governo iraniano, mas de um mecanismo para impedir que os EUA bloqueiem investimentos estrangeiros no país.

“Os 300 bilhões de dólares são basicamente uma forma de contornar o regime de sanções, hipoteticamente, porque os Estados Unidos não podem bloquear investimentos. Não se trata de dinheiro que será transferido ou entregue diretamente ao Irã. Mas significa que, se investidores estrangeiros investirem, supondo que haja um acordo, os Estados Unidos não poderão impedir o investimento”, afirmou.

Sobre os ativos iranianos congelados, ele disse ter a compreensão de que o país está recebendo os valores, embora ainda não tenha confirmação definitiva. “Com relação aos ativos iranianos, entendo que o Irã está recebendo esse dinheiro. Mas não tenho confirmação definitiva. Contudo, parece estar acontecendo”, declarou.

Funeral de Ali Khamenei deve projetar força política e religiosa

Enquanto as negociações seguem, o Irã prepara o funeral do ex-líder supremo Ali Khamenei, previsto para a primeira semana de julho. Segundo Marandi, a cerimônia terá dimensão histórica e expressará a força política, religiosa e simbólica do país após a guerra.

“Será um funeral gigantesco. Ele era muito popular no Irã e muito querido entre os apoiadores do Eixo da Resistência e da causa palestina. Ele conduziu o Irã a essa vitória”, afirmou.

Marandi atribuiu a Khamenei a construção da capacidade militar iraniana que permitiu ao país resistir aos Estados Unidos e a Israel. “Ele criou a capacidade do Irã de derrotar seu inimigo, o agressor, nesta guerra. Ele derrotou, ele liderou a derrota dos regimes israelense e americano durante a guerra de 12 dias no ano passado e, apesar de seu martírio, o que ele havia preparado foi o que levou o Irã à vitória nesta guerra muito mais agressiva e muito mais ampla que foi imposta ao povo iraniano”, disse.

O intelectual também destacou o papel simbólico de Khamenei junto a movimentos do Sul Global. “Seu apoio aos oprimidos em todo o Sul Global — seja na América Latina, em Cuba, na Venezuela, na Nicarágua e em outros lugares, bem como na Palestina e no sul da África — é conhecido por todos”, afirmou.

Para Marandi, a trajetória do ex-líder supremo ajudou a mudar a percepção internacional sobre o Irã e sobre o Islã xiita. “Sua insistência em que o Irã enfrentasse o opressor, defendesse os oprimidos e preservasse sua soberania é algo que fez com que o mundo hoje veja o Irã sob uma nova perspectiva, enxergando além da propaganda ocidental, e que veja o Islã — e, em particular, o Islã xiita — como uma ideologia de libertação e resistência contra a hegemonia global e contra a opressão global, e como uma ideologia que apoia os oprimidos, onde quer que estejam”, concluiu.

Foto: Brasil 247 / Dall-E

FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/vitoria-do-ira-sobre-os-eua-marca-ponto-de-inflexao-global-afirma-mohammad-marandi