Presidente da China detalha bases para uma “moeda poderosa” enquanto a hegemonia do dólar é questionada por tensões geopolíticas e mudanças nos mercados.
247 – Xi Jinping defendeu que o renminbi (yuan) alcance o status de moeda de reserva global e seja amplamente usado em comércio, investimentos e mercados de câmbio, em uma das declarações mais explícitas do líder chinês sobre o futuro da moeda do país. As informações foram publicadas pelo Financial Times, a partir de um comentário divulgado no sábado na Qiushi, revista de ideologia do Partido Comunista Chinês.
No texto, Xi afirma que a China precisa construir uma “moeda poderosa” que possa ser “amplamente usada no comércio internacional, no investimento e nos mercados de câmbio, e atingir o status de moeda de reserva”. A formulação, segundo a reportagem, é a definição mais clara até aqui do que Pequim entende por “moeda forte”, em um momento em que busca ampliar sua influência no sistema monetário internacional.
A mensagem de Xi e o desenho de uma “infraestrutura” monetária
O comentário publicado na Qiushi foi originalmente parte de um discurso proferido por Xi em 2024 a autoridades regionais de alto escalão, mas só agora foi divulgado publicamente. Ao trazer o conteúdo à luz, Pequim sinaliza que a questão cambial e financeira não é apenas um tema técnico, mas um projeto de Estado articulado ao reposicionamento da China na ordem global.
Xi lista elementos que considera indispensáveis para sustentar o renminbi como moeda de maior alcance internacional. Entre eles estão um “banco central poderoso” com capacidade de gestão monetária efetiva, instituições financeiras competitivas globalmente e centros financeiros internacionais capazes de “atrair capital global e exercer influência sobre a precificação global”.
Ao explicitar esses pilares, Xi também indica que a internacionalização do renminbi exige mais do que acordos bilaterais e expansão do comércio. O objetivo, na prática, depende de credibilidade financeira, capacidade institucional e criação de ecossistemas que ofereçam liquidez, instrumentos, segurança jurídica e poder de formação de preços, dimensões que historicamente consolidaram a dominância de moedas como o dólar.
Dólar em disputa, tensão geopolítica e o impulso por um sistema multipolar
A divulgação das declarações ocorre em um ambiente de incerteza nos mercados internacionais. A reportagem aponta que um dólar mais fraco, a mudança na liderança do Federal Reserve e o aumento das tensões geopolíticas e comerciais vêm levando bancos centrais a reavaliar sua exposição a ativos denominados em dólar. Nesse contexto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou a fraqueza do dólar de um desenvolvimento “ótimo” na semana passada, segundo o texto.
A leitura de economistas ouvidos pelo Financial Times é de que Pequim está tentando acelerar sua agenda porque percebe fissuras mais evidentes na ordem internacional. Kelvin Lam, economista sênior para China+ da Pantheon Macroeconomics, afirmou que a China sente a mudança da ordem global de forma mais real do que antes e que a ênfase de Xi no renminbi reflete “rupturas recentes na ordem global”.
A movimentação também se conecta ao diagnóstico já exposto por autoridades monetárias chinesas. O presidente do banco central da China, Pan Gongsheng, teria previsto no ano passado uma nova ordem cambial global e dito a investidores, reguladores e autoridades locais em Xangai que o renminbi competiria com outras moedas em um “sistema monetário internacional multipolar”.
A ideia de multipolaridade monetária tem sido defendida por diversos países que buscam reduzir vulnerabilidades externas, sobretudo após sanções financeiras e choques geopolíticos recentes. Para Pequim, ampliar o peso do renminbi significa, ao mesmo tempo, reduzir a dependência de mecanismos dominados pelo Ocidente e criar uma alternativa estratégica em um sistema em disputa.
Avanços no comércio, mas participação pequena nas reservas oficiais
Embora o renminbi tenha avançado como instrumento de pagamentos e financiamento do comércio, sua presença nas reservas oficiais ainda é limitada. A reportagem afirma que a moeda chinesa se tornou a segunda maior moeda em financiamento de comércio no mundo desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, mas segue com papel modesto em reservas mantidas por bancos centrais.
Segundo dados do Fundo Monetário Internacional citados no texto, no terceiro trimestre de 2025 o dólar representava cerca de 57% das reservas globais, queda em relação a 71% em 2000. O euro aparecia com aproximadamente 20%. O renminbi era o sexto colocado, com apenas 1,93%.
Esse contraste sugere que a internacionalização da moeda chinesa acontece em velocidades diferentes conforme o indicador. Em comércio e pagamentos, a expansão pode ser impulsionada por redes de parceiros e por arranjos bilaterais. Em reservas, a decisão é mais conservadora, pois envolve requisitos de convertibilidade, profundidade de mercado, livre mobilidade de capitais e confiança na previsibilidade institucional.
Analistas ouvidos pelo Financial Times destacaram que uma conta de capital aberta e a plena conversibilidade são críticas para que investidores globais e bancos centrais ampliem suas posições em renminbi. Em outras palavras, o salto para o status de moeda de reserva exige reformas e escolhas que mexem com o controle estatal sobre fluxos financeiros, um tema sensível para o modelo chinês.
Pressão sobre câmbio, superávit recorde e cobranças do FMI
A reportagem também aponta que parceiros comerciais da China defendem que Pequim permita uma apreciação mais forte do renminbi. O argumento é que a moeda estaria subvalorizada, barateando exportações chinesas e ajudando a alimentar um superávit comercial sem precedentes que alcançou US$ 1,2 trilhão no ano passado.
No fim do ano passado, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, pediu que a China corrija “desequilíbrios” na economia, incluindo a deflação, que ela disse ter “resultado em uma significativa depreciação real da taxa de câmbio”. O trecho reforça que a discussão sobre o renminbi não é apenas monetária, mas também envolve demanda doméstica, competitividade externa e o padrão de crescimento chinês.
Ao mesmo tempo, o Banco do Povo da China busca se defender da acusação de usar o câmbio como instrumento de vantagem comercial. O vice-presidente do banco central, Zou Lan, disse em uma conferência no mês passado que a China não tem intenção de usar um renminbi mais fraco para obter vantagem no comércio.
Estabilidade como prioridade e a disputa de narrativa sobre “moeda forte”
Apesar do discurso de ambição global, a política cambial chinesa aparece descrita como cautelosa e orientada à estabilidade. O texto afirma que formuladores de política sinalizaram tolerância a uma apreciação moderada e permitiram que o renminbi se fortalecesse para além de Rmb7 em meio a um dólar mais fraco. Ainda assim, a moeda continuou a se depreciar frente ao euro.
Kelvin Lam resumiu a orientação central ao dizer que “o objetivo central da política cambial da China é manter o renminbi estável e preservar seu papel como reserva de valor”. A frase é reveladora porque sugere que, para Pequim, “moeda forte” pode significar menos volatilidade e mais controle do que liberalização plena, o que entra em tensão com as exigências típicas de uma moeda de reserva global.
Por outro lado, há quem enxergue fundamentos internos que podem favorecer uma apreciação no longo prazo. Zhang Jun, economista-chefe da China Galaxy Securities, afirmou que as prioridades chinesas de retomar crescimento doméstico mais robusto e avançar em tecnologia emergente apoiariam uma valorização prolongada do renminbi.
O que muda para investidores e para a ordem financeira global
Mesmo que o anúncio não provoque uma virada imediata nos mercados, ele consolida um sinal de direção. Han Shen Lin, diretor para China do The Asia Group, avaliou que Pequim quer que o yuan seja uma moeda global séria e que o objetivo não é necessariamente substituir o dólar da noite para o dia. Ele disse que a moeda chinesa seria um contrapeso estratégico para limitar a alavancagem dos Estados Unidos em uma ordem financeira em fragmentação.
Na mesma linha, Han afirmou que “a retórica de Xi não vai virar os mercados de câmbio hoje, mas ela cimenta uma inclinação de longo prazo que os investidores já estão farejando”. A conclusão sugere que, para além de taxas de câmbio e porcentagens em reservas, o ponto central é político: a China quer reduzir a assimetria de poder que o dólar confere aos EUA e ampliar sua margem de manobra, sobretudo em um mundo marcado por disputas comerciais, sanções e rivalidades tecnológicas.
A tentativa de elevar o renminbi ao patamar de moeda de reserva global, portanto, deve ser lida como parte de uma estratégia de soberania financeira e de reequilíbrio de poder. Resta saber até onde Pequim estará disposta a ir em reformas que aumentem a confiança externa sem abrir mão do controle interno, dilema que pode definir o ritmo real dessa transição e seus limites.
Foto: Xinhua
FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/xi-quer-que-o-renminbi-vire-moeda-de-reserva-global-e-acelera-ambicao-chinesa-no-sistema-monetario